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quinta-feira, 2 de maio de 2019
Maria contra a coroa
Num verão remoto, passando pela Catalunha, mais uma vez fiquei na casa de amigos que a seguir a nossa casa é o melhor sitio para ficar. Nesses dias convivi com um casal de velhos que hoje fossem vivos seriam centenários...
Gente humilde mas informada, catalães de raízes profundas, oriundos das montanhas, atentos à realidade portuguesa e sempre prontos para aprender e discutir “o caso português” desde a revolução dos cravos à independência de Castela.
Eram os avós do meu anfitrião, que viviam numa perdida aldeia junto aos Pirenéus catalães, mas que por feliz acaso, estavam naqueles dias a passar uma temporada em casa do filho. Parece que o outro filho, tio do meu amigo, estava a mudar-lhes o telhado da casa la na aldeia e por isso tinham “descido” até à cidade. Convergimos, nessas semanas de veraneio todos naquele prédio.
Um edifico dos anos trinta, sem elevador, entalado entre outros edifícios idênticos, num daqueles bairros periféricos de Barcelona com um nome em catalão simultaneamente familiar e impronunciável. Tres pisos e um andar por piso. Tectos altos, janelas em madeira e escada apertadas com degraus daqueles que fazem levantar a perna para subir.
Para alem dos meus amigos, que moravam no segundo andar e dos pais que moravam no primeiro, no terceiro piso, vivia mais ou menos uma pequena comunidade de gente jovem. Era um grupo de anarquistas mais ou menos radicais, que enchiam de bicicletas as escadas do prédio. Editavam revistas alternativas e tinha uma associação de partilha de livros. Mal se abria a porta do prédio, cá em baixo, já cheirava a erva...
Mas apesar disso, era malta porreira, asseadinha, prestável. E como naquele prédio, era tudo gente educada e tolerante, todos se relacionavam com aquela a gentileza fria necessária para manter a boa vizinhança e respeitar a privacidade uns dos outros. A questão das bicicletas, apesar das escadas serem apertadas, não era um problema porque estávamos todos os residentes autorizados a usar. Coisa que confesso, cheguei a fazer algumas vezes.
Já o perfume da erva, todos faziam por ignorar.
Todos menos os velhotes que na sua ingenuidade camponesa, dois ou três dias depois de chegarem, perguntaram logo: que cheiro e este ? E de onde vem?.. Com a simplicidade das coisas simples, e porque é uma senhora inteligente, a nora, mãe do meu anfitrião encaminhou o casal para a porta de onde saía o cheiro, bateu e explicou ao vizinho de cima:
– Os meus sogros perguntam que perfume é este, eu disse que era canabis...mas acho que os vizinhos, melhor que ninguém podem explicar o que é e para que serve essa planta!
Apanhados desprevenidos, mas sempre gentis, convidaram os velhotes, “já agora o português” e o resto do prédio para um chá depois de jantar, onde explicariam o que era o canabis e o para que servia.
Assim foi.
À hora combinada, lá ficamos sentadinhos a ouvir uma erudita explicação com dados científicos e fotografias e a dizerem que a erva maria é uma coisa muito boa, que faz bem à asma, ao glaucoma e às enxaqueca. Mostraram-nos um daqueles vídeos a fazer a apologia da erva. Arranjaram exemplos históricos. Serviram bolachinhas. E mostraram-nos fotocopias de reportagens de revistas. Mostraram mais papeis, mais vídeos no computador e mais fotografias. Falaram nos benefícios.
Depois falaram na repressão. Na repressão politica e policial. Falaram nos americanos a proibirem o cânhamo para protegerem as industrias do álcool e da celulose. Na repressão que os estado espanhol faz em Ceuta. Na dureza da vida dos camponeses em Marrocos. Em como a histeria da luta contra a droga serveíu para justificar mais e mais polícias...Explicaram a injustiça da proibição e a possibilidade de poderem serem presos só porque a planta cresce no vaso la em casa.
Os velhotes ouviram calados com muita atenção.
Estariam ambos na casa dos 80. Ele, militante do POUS, veterano da guerra civil, participou na Batalha do Ebro, ex-preso politico e troskista. Ela, comunista, militante do PCC, veterana da frente aragonesa, também ela prisioneira politica, anti-clerical e completamente estalinista.
Acabado o discurso da apologia da erva, a velhinha, disciplinada e rija pediu a palavra:
Todos sorrimos pela seriedade do pedido.
-- Só quero dizer uma coisa: sou uma camponesa humilde, não tenho instrução, não conheço as orientações do meu partido sobre este tema, mas uma coisa assumo desde já: se a Coroa e os fachos em Madrid proíbem a coisa, eu sou a favor!!!
O marido, menos disciplinado e que em matéria revolucionária não gostava de ficar atrás da mulher, interrompeu imediatamente:
-- Em relação a essa matéria, eu, que não devo obediência a Moscovo, não só sou a favor, como se os camaradas estiverem de acordo, pretendo já acender um desses cigarros!!
Rimos todos.
Especialmente o velhote, que foi o ultimo a deixar de rir e por isso riu melhor!
terça-feira, 30 de abril de 2019
el comandante
La Habana. Finais de 1997.
Para trás um filho e um casamento em ruínas. Meses após primeiro divorcio. Pela primeira atravassei o atlantico, esse mar a que na America Latina chamam "el charco". Lembro-me especificamente da tarde em que me tiraram a fotografia. Tinhamos ido a uma especie de uma quinta algures na estrada para Pinar del Rio buscar carne de porco. Era o periodo especial e não havia muito para comer. A carne era um bem precioso. Os cubanos e residentes estrangeiros fora dos circuitos turisticos tinham de se desenrascar. E desenrascavamos-nos.
O carro era das Nações Unidas e estava a ser conduzido por uma amiga belga. Eramos eu, a belga e dois cubanos.
Foi na volta para La Habana. Levavamos uma perna e uma mão de porco dentro de um bidom de lata. Vinha a carne envolta em papel de jornal e com umas duzias de embalagens de iogurte cheias de agua e congeladas a garantir um temperatira refrigerada. Estavam mais de 30 graus e muita humidade, urgia congelar, salgar ou cozinhar a carne.
Subitamente e sem nada que se fizesse esperar um engarrafamento no meio de nada... A fila não tinha muitos carros, uma ou duas dezenas, mas estava completamente parada num cruzamento.
-- Que passa?
-- Ni ideia. Dizem os cubanos.
Saí para fumar e a belga fez a fotografia.
Os carros parados, o calor e a carne la atrás em risco de vida...
Avancei uns metros.
A policia lá a frente a cortar a estrada.
O ajuntamento a volta dos condutores, transeuntes, biciclistas, boleiistas e viajantes parados.
Falo com o policia
-- Que passó compañero?
-- No pode passar.
O policia estava tenso, e duro, coisa rara em cuba, seja policia ou civil...
-- Si, vejo que no, pero porquê?
-- No pode passar.
Estavamos nisto e vem uma comitiva de duas motas, um jipe miitar e um carro civil grande que pára. Abre-se o vidro e o Fidel Castro acena. Todos entramos em delirio para saudar o Comandante. O carro arrancou e só tivemos tempo para retribuir o aceno.
Após a euforia geral começamos todos a voltar para as maquinas de transporte.
Volto a falar com o policia, já sorridente e descontraído.
-- Compañero, porque no diciste que era el Comandante? Porque no explicaste que teniamos que esperar por eso...
-- Compañero internacionalista, hay cosas que no se explican!!!
E tinha razão.
Quase vinte anos depois, quando penso no Fidel, no que foi, e no que simboliza, lembro-me dessa tarde em que nos cruzamos pela primeira vez.
Hay cosas que no se explican!
Intrujas
Rishikesh. Capital mundial da Yoga. (Do Yoga, para os mais puristas).
Foi em Janeiro. Passaram mais de dez anos.
De Delhi a Rishikeh foram umas 12 horas de autocarro numa viagem nocturna que poupou as rupias de um hotel mas que não poupou as costas. Chegado ao nascer do dia os Himalaias disputavam a minha atenção juntamente com os intrujas. Todos eles eram do hasram mais puro e mais fiel à verdadeia yoga...
Eu não vim pela Yoga, fui dizendo... vim para ver as montanhas.
Procurei alojamento numa pensão fora da "cidade". Fiquei instalado dois quilometros a pique sobre o rio. No segundo e terceiro dia ainda todos insistiam em levar-me para uma escola de yoga.
Todos as pessoas com quem me cruzava em queriam convencer de alguma coisa. Alguma coisa que eu precisava muito de aprender, que ia mudar a minha vida, que ia mudar a minha consciencia cosmica...
Até na tasca/pensão onde estendi o saco cama me queriam inscrever nas aulas da manha. Só desistiram de me santificar pela respiração, postura e meditação, quando vendo os porcos cruzados de javalis que por ali pastavam me ofereci para cozinhar um guizado...
Depois do guizado de javali, fui adotado.
Dias luminosos e frios de grandes caminhadas pelas montanhas e grandes representações teatrais dos intrujas que eram todos super-mestres-de-verdadeira-yoga. Noites longas a volta do lume a beber chá e ouvir contar histórias.
Gostei especialmente de conhecer e de falar com o David, um australiano sexagenário, passado do prazo e encalhado nos anos 60 há mais de duzentos anos. Vivia em Rihikesh "desde que os Pink Floy lançaram o Dark Side of The Moon". Dizia que morava ali porque gostava do ar da montanha e não já fazia Yoga... mas que mesmo não já não sendo praticante, os seus intestinos só trabalhavam depois do sury namaskar (saudaçao ao sol). O dinheiro chegava-lhe da segurança social da Austrália num esquema vagamente fraudolento que tentou explicar-me sem sucesso.
Uma noite, depois do jantar, o David entrou de repente na tasca, mais branco do que o costume, a tremer de medo e a dizer que se tinha cruzado com um leopardo. Andou frenetico a trancar todas as portas e janelas da pensão e a exigir que a patroa recolhesse o cãozarrão que vivia sarnoso do lado de fora da porta.
Depois de toda a agitação e dos avisos sérios a cada um dos presentes, foi a correr para a casa de banho. Mesmo sem sury namaskar. Voltou, ficou o resto da noite calado a olhar para as brasas.
O chá que este bacano bebeu ao jantar é dos rijos, até dá para ver leopardos....pensei.
Apesar do frio, ainda fiquei um bocado a olhar para as estrelas e a pensar na vida.
Na manhã seguinte, um leopardo tinha comido duas vacas.
Vem isto a proposito das tangas e dos intrujas.
Aquilo que é mesmo mesmo mau e chato nos intrujas e nos mentirosos é que, quase que conseguem roubar-nos a capacidade de acreditar. Só porque as verdades parecem mentiras, pensamos logo que é tanga, fabula ou alucinação...como o leopardo do australiano...
A generosidade dos homens ricos
Os poucos homens ricos que conheci são generosos.
Os que acumulam riqueza são quase todos miseráveis.
Explico.
Em outubro de 1999 quis ir a Tamarasset. Tinha 27 anos, um Renault clio e uma mochila cheia da ignorância necessária para fazer loucuras.
Do Altoseixalinho até Marrocos foi um pulo. Atravessei o Atlas e com a ingenuidade dos loucos passei a linha que separa Marrocos da Argélia sem outro controlo alem de uma estrada onde o alcatrão desaparecia e o deserto de pedras.
A meio da tarde parei para fazer chichi e dei boleia a um rapazito que não falava nenhuma lingua conhecida. Apenas apontava para leste. Seguimos umas horas. Ele a falar a lingua dele e eu a minha. Partilhamos cigarros, água e pêssegos. Quando a noite caiu continuamos a direito numa estrada e num cenário cada vez mais deserto. Seriam umas dez da noite fez-me simal para virar a esquerda. Cansado da monotonia obedeci. Andamos uns cinco minutos por uma estrada de terra e mandou-me encostar junto a uns casebres de pedra, mal iluminados no interior por candeiros a gaz. Era ali que morava com a familia.
Entramos e a festa começou. Abraços e cumprimentos. E chá. Muito chá. Percebo que foram buscar um cabrito. Apareceram mais pessoas. Tamaras pão quente. Salada de tomate e queijo de cabra.
Deviam ser umas duas da manhã na casa entrou um senhor vestido com um sobretudo por cima do pijama. Falava frances. Explicou-me que era professor e que o tinham ido chamar a casa e o tinham tirado da cama propositadamente para vir servir de tradutor.
Disse que eu era o convidado de honra daquela familia e que para me homenagear tinham morto um cabrito. O pai do miudo a quem eu tinha dado boleia era referencia local por ter participado na guerra de independência e estava muito satisfeito com a chegada do filho mais novo.
Nos dois dias e tres noites que fiquei com esta família conheci o verdadeiro significado da palavra hospitalidade. O professor passou o tempo todo comigo. Todos juntos convenceram-a desistir de ir a Tamarasset.
O professor acompanhou-me de volta até Marrocos evitando o controlo alfandegário e os transtornos de viajar sem visto.
Quando parei para por gasolina, percebi que já tinha o deposito cheio. Fiquei desconfortável com a situação mas o professor esclareceu:
--- o pai do rapaz é rico. Tem muitas cabras e muitos filhos. Vivem na pobreza mas é um homem suficientemente rico para ser generoso com os amigos.
Aprendi com o professor.
Percebi o que significa ser um homem rico.
Aqui na cidade onde vivo sei de um homem que tem várias padarias/pastelarias.
Trabalham para ele algumas dezenas de senhoras. Paga o salario mínimo com contratos a três meses. Despede e volta a contratar a mesma trabalhadora que emprega nas diferentes pastelarias. Assim mantem a logica do subemprego e precaridade. Não deixa as trabalhadoras levar o pão que não se vende para casa e deita as sobras no lixo depois de regar tudo com lixívia.
Tem carros grandes e duas casas apalaçadas.
Tem a conta bancária obesa e todos os anos compra um apartamentos para férias.
Os mais distraídos podem até pensar que é um homem rico, mas eu sei que este homem não passa de um completo miserável.
Padres, bancos e chefes de policia
Tinha 19 anos e acreditava num universo de possibilidades.
Meti um saco-cama e umas latas de sardinha numa mochila num grupo que éramos dois apanhei o comboio para o norte.
Atravessamos a ponte férrea sobre o rio Minho e ao entardecer e chegamos a Santiago.
Ano compostense e a cidade cheia. Jantamos sardinhas, pão galego e vinho verde num jardim. A ideia era apanhar um comboio regional até Lugo. Íamos ter com o Pedro Miguel Cabrita Feijao a Vilauxin. Na estação informaram que para Lugo só havia comboio as oito da manhã. Eram umas dez da noite e começou a chover. Ficamos até à meia noite. Fecharam a estação e só abriam às seis e meia da manhã...
A chuva carregou na força.
Procuramos um sítio para ficar.
À chuva batemos à porta de vários albergues para peregrinos. Completo, completo. Padres, freiras e beatos a dizerem nos que não. A chuva cada vez mais forte e fria.
Com o cartão multibanco entramos no átrio de uma agência da caja.
Tiramos as mochilas e estendemos os sacos cama.
Não era confortável mas estava seco.
Não passou nem meia hora. As camaras a trabalhar e o estado a servir os bancos.
Um carro da polícia parou do lado de fora e saíram três policiais para nos tirarem dali.
Explicações em português e portenhol
Pedimos estadia na esquadra até abrirem a estação dos comboios. Na polícia também há gente boa.
Deixaram nos por as mochilas num canto, usar as casas de banho e as toalhas secas. Estender os sacos camas não que já era abuso.
Dormitamos umas horas nos bancos de madeira.
A meio da noite chegou um carro patrulha. Era o chefe e vinha zangado. Tratou logo de nos por na rua e dar uma pissada nos agentes que nos desenrascaram.
Outra vez molhados e com frio.
Caminhamos à chuva mais de uma hora até à estação dos comboios. Ainda esperamos um bocado até nos abrirem a porta do chão seco.
O dia nasceu chuvoso e comemos ovos cozidos que sobraram do farnel.
Nessa noite aprendi uma lição para a vida, quando chegam as tempestades, nunca devemos contar com ajuda de padres, bancos ou chefes de polícia.
prohibido fumar
Tínhamos acordado bem cedo nesse dia.
Ao nascer do dia, apanhamos um autocarro em Valparaíso junto ao pacífico chileno e atravessamos os Andes.
Passamos a fronteira entre o Chile e a Argentina ao final da manhã e seguimos até Mendonza. Cidade mineira nos Andes argentinos. Chegamos ao meio da tarde e ficamos a fazer tempo e a beber cervejas numa tasca ao lado da estação da rodoviária. Igual a todas as tascas ao lado de todas as rodoviárias do mundo.
Compramos bilhetes para a proxima camioneta que seguia na direção de Córdoba. Saia as onze da noite. Teriamos de mudar as quatro da manhã e para fazer o transbordo. Chegaríamos as oito e meia.
A tasca da rodoviária fechou. Carregamos as mochilas e procuramos um sítio próximo para continuar a hidratar com cervejas e esperar pela hora da viagem.
Sentamos-nos na esplanada de um bar onde estavam mineiros índios a beber cerveja. Pedimos mais uma garrafa. Depois chegaram as prostitutas. Novas, quase adolescentes, indias, coloridas, ruidosas e algumas oxigenadas. As mãos de camponesas com unhas pintadas de cores vivas.
Quando a festa estava a ficar mesmo animada, tivemos que sair e entrar na camioneta.
Embalados pelos balanços da estrada que agitava o mar de cerveja que tínhamos mamado, adormecemos.
Acordaram nos a meio da noite. Precisamente no imenso nada da Argentina rural.
Tínhamos que mudar de autocarro. Vinha atrasado mas estava a chegar.
Carregamos as duas mochilas e arrastámos as duas inesperadas ressacas para a noite quente.
Não se podia fumar.
A minha companheira de viagem e de vida, tem, na generalidade despertares difíceis. Aquele estava a se-lo especialmente.
Pegou no cigarro.
Eu avisei:
-- olha que é proibido fumar...
-- aí é? Então olha para mim a prevaricar! Chama a polícia e manda-me prender.
Confesso que considerei a sugestão. Mas como não sou de alimentar discussães, disse-lhe:
-- É por isso que te amo.
Surpreendentemente sorriu.
Aproveitei para fotografa-la.
No Rajastão com Lorca
No Rajastão com os herdeiros do Lorca. Em finais de 2003 inícios de 2004 voei para o norte da Índia. Era a terceira vez que pisava o chão da Mãe Índia que é assim que lhe chamam essa imensa multidão de indianos.
Cheguei tarde a meio da noite. Tinha feito umas quinhentas escalas para poupar uns trocos o que fez aterrar em Nova Déli pelas quatro da manhã.
As minhas anteriores experiências na Índia, tinham ensinado que Déli é uma cidade maravilhosa para chegar e para partir...mas não devemos ficar por lá muito mais tempo porque a cidade já está cheia com os 20 milhões de habitantes. Por isso, segui directo do aeroporto para a estação de comboios. A ideia era comprar bilhetes para o norte, no próximo comboio que saísse.
Acontece que a bilheteira da estação estava fechada mas estavam abertas as quinhentas mil micro agências de viagem a funcionarem 24 horas por dia à volta da estação.
Entrei numa dessas casas que eram agência de viagens, loja de fotocópias, ciber café, pensão, armazém e outras valências inarráveis.
Não dormia há uns dois dias...tinha fome sono e frio, mas também tinha a noção que quanto mais conseguisse centralizar as compras dos bilhetes de comboio maior seria o desconto... A pessoa que ia comigo, aterrou em cima da mochila e adormeceu no chão. Eu fiquei sentado numa mesa baixinha com o gajo da agência a negociar e planificar os preços dos bilhetes de comboios para três semanas de viagens. Lugares, percursos, horários, paragens e preços.
Pelas dez da manhã saímos da agência no caos de Déli num Tata, um carro indiano que fazia lembrar o antigo Renault 5 mas todo em plástico. Por menos rúpias do que as viagens de comboio, aluguei o carro mais o seguro.
Conduzir à esquerda no caos de Déli e sair da cidade tiraram me completamente o sono.
No carro havia um rádio com leitor de cassetes. No leitor uma cassete. E na cassete estavam os Aguaviva.
Rodamos quase quatro mil quilómetros entre o Rajastão e os estados do Norte da Índia. E a banda sonora foi sempre a mesma.
Por uma estranha alquimia de memórias, associo o Rajastão aos aguaviva. Quando ouço esta música particularmente, fecho os olhos e cheira me a caril.
conversa do santeiro
Há nove anos atrás estava em Cuba no Festival Internacional de Cinema de Havana.
Foram uns dias intensos.
Como fui convidado a participar no Festival e fiquei mais uns dias, quando me pediram para dar uma ajuda na produção de um documentário disse logo que sim.
Era uma coisa para a Cubavision e fomos filmar para Habana Vieja. O tema era um projecto social de apoio a crianças e jovens desenvolvido num terreiro de Santeria. Os técnicos andavam a por as luzes e a testar o som e eu fiquei a falar com o Santeiro. Ao contrário do que esperava, não era negro, velho e de sotaque serrado, mas antes louro de olhos azuis e de sotaque claro como a sua pele.
Ficamos a falar das dez da manhã às três da tarde. Álvaro, que além de babalaorixa é também pediatra falava de tudo incluindo política e Orixás.
Antes de sair e do último trago profetizou:
-- companheiro vais conhecer uma filha de Oxum que vai mudar a tua vida. Dentro de seis meses estão a viver juntos....
Na altura estava solteiro e como se diz agora tinha saído há meses de um relacionamento tóxico. Não andava à procura de nenhuma Princesa para o Castelo...
Sai do terreiro meio cambaleando e contente com a vida. Fui almoçar com amigos.
Foi depois desse almoço que tiraram a fotografia que publico.
Estive em Cuba mais umas semanas. A trabalhar e a "gorachar". Em Portugal tinha os filhos, família e projecto profissional.
Conheci muitas pessoas interessantes.
Durante o dia ia resolvendo, pela internet incipiente, questões em Portugal. À noite vivia La Habana.
Reconheci em decotes vários a medalha da Caridad del Cobre que sendo a padroeira de Cuba é a marca de Oxum.
Estive atento aos encontros.
Nada com perspectivas de continuidade.
Voltei a Portugal.
À chegada, tal como tinha combinado enquanto estava em Cuba, vou encontrar-me com alguém, que não conhecia, para lhe entregar uns documentos que estavam em falta. Era gira. (É gira!) Sentamos-nos à mesa de um café e a conversa corre interessante. Num saco de pano que trazia reluzia uma linda Oxum estampada.
Perguntei:
-- és de Oxum?
Ainda estamos juntos. A conversa no Santeiro foi há precisamente nove anos.
Mobuto
A tasca deve continuar sebosa e com serradura no chão. Já passaram mais de vinte anos.
Estava calor lá fora e na sombra fresca do interior sentei-me a beber cerveja e pensar na vida.
Um cota puxou da cadeira e sentou-se na minha mesa. Era um homem enorme e velho.
-- Tu sabe quem é o Mobuto Sese Seko? Eu conhece ele bem. Se queres que lhe conte a verdade mesmo, põe uma cerveja.
O velho continuava sério e calado debaixo do olhar do patrão, que em silencio dizia: “este-ja-enganou-outro”...
-- Eu não sou o Mobutu.. Mais sou o pai de todos os filhos do presidente Mobuto. (pausa e soluço cambaleado para a frente) comé que pode? Pode porque pode e é verdade. Eu vai lhe contar só.
Pedi mais duas cervejas:
-- Dá mais uma para mim e outra aqui para este mais-velho!!
A cerveja chegou à mesa e em silencio pegamos nas garrafas geladas. Quando olhei o velho pela primeira vez pareceu-me sujo e esfomeado. Estava errado... afinal o homem tinha era sede. Percebi isso pela forma como emborcou a média inteira num só golo.
Também eu emborquei a minha cerveja. Grogue do calor das duas da tarde apesar de já passarem das oito da noite, disparei:
--- Então tu és o soba Mobuto? muito prazer, eu sou o Patrice Lumumba disfarçado de branco e ali o cantanhó atrás do balcão é o Techombé disfarçado de taberneiro.
O cota indignou-se:
--- O quê?? Você não me acreditas? Pois podes acreditar mesmo. O pai dos filhos do presidente Mobuto é este mesmo pai do meus filhos que é eu mesmo na minha pessoa!!!
Perfilou-se e cresceu.
-- Feitinhos todo por mim Diamantino Proença da Purificação, nome de casa Giga. Filho quase preto de pai quase branco em mãe preta. Avô português merceeiro e mãe preta terceira esposa. Nascido em Lisala.
--Tu sabe onde é Lisala?
Eu não sabia onde era Lisala, por isso continuei calado.
-- É a terra mesmo do presidente Mobuto. Terra velha do Congo. Sou mais novo que o Mobotu sete anos e conheço ele desde que conheço eu.
Mandei vir mais duas. Apaziguado o mais-velho, continuou a falar.
-- Então?? Tu não sabe, mas eu vai lhe dizer: o Mobuto tem doença na força que levanta o pau de pilão. Falta força nele para cobrir mulher e por isso não pode faz filhos. É!
A pausa deu dramatismo à conversa e foi aproveitada para beber.
-- Ele com trinta anos já força quase nenhuma não tinha mesmo. Quando percebeu doença que tinha, o curandeiro disse nele que não tinha cura. É coisa de herança de antepassados que só termina quando o corpo morre. E disse nele que se Mobutu quiser filho vai ter procurar quem conhece que fode forte. Só assim podia para engravidar as esposa dele...
-- Como o Mobuto conhecia eu desde que nasci e sabe que eu desde canuquinho tem saúde e força muita para fudê mandou chamar eu. Eu foi lá no palácio e nós fez trabalho com o bruxo.
-- Eu vai dizer-te que tu és sério e não goza: eu e Mobuto fizemos segredo juramento com terra dos mortos e sangue de nós mais sangue de dois touro. Teve de jurar que não falava nem eu nem ele pra ninguém mesmo. Eu só fala porque ele quebrou juramento. Depois do trabalho do curandeiro fiquei viver no palácio dele. Tinha falta de mais nada.
-- E agora ficaste bêbado e sem tesão e o gajo pôs-te a andar... – cortou o taberneiro que era caboverdiano, tinha andado embarcado e quase que não acreditava em feitiços.
-- Negativo Camarada. Negativo. O Presidente Mobutu só rompeu o trato porque arranjou amante do Catanga com mamas assim de grandes e cheia de maldade dentro do peito. E também é bruxa e fez feitiço nele.
O silencio voltou a cair dentro do tasco. Na rua passavam camiões levantando poeira. Ficamos calados a ouvir as moscas a fritar na resistência azul durante uns segundos. Pedi mais duas.
-- Eu conta tudo porque presidente desfez a jura antes de eu! Eu sempre cobri as duas esposa e as três amantes dele com força mas sem abusar. Todos os anos enchia elas cinco com filhos feito por eu. Filho homem crescido tem 18 e mulher crescida tem 12. Não conta os que morreram pequeno nem os netos porque é muitos.
Então presidente Mobutu arranjou amante para fazer politica. Arranjou amante parente de falecido Tchombén e tambem queria que eu engravidasse ela para reforçar a aliança com os do Catanga. Só que a mulher que arranjaram para ele tinha doença dentro do barriga e criança que eu punha lá dentro não agarrava!!! Então presidente levou mulher nos curandeiro é nada. Levou nos médicos brancos e nada. Levou na magia da Nigéria e nada. Todos disseram-lhe o mesmo: que a doença é na barriga do mulher sem cura. Então eu disse nele: Querido presidente, meu mais velho, porque você não pega nessa mulher que barriga não cresce e faz desaparecer ela no tanque que ferve sem fogo? (É ácido pá! Desfaz tudo assim de repente a ferver)
O presidente não gostou que eu falasse no tanque do acido e mandou os segurança baterem em eu. E bateram mesmo. Bateram muito. Bateram tanto que já era desperdício. Como Giga não gosta de apanhar vim embora nesse dia e tenho andado sempre sempre só neste mundo.
O taberneiro, ja também ele interessado na conversa, perguntou:
-- Olhe lá Giga, depois o Mobutu não mandou dar-te caça e apanhar?
-- Não porque ele sabe que fica doente e morre se eu fica doente ou morre. Nós dois está ligado por magia muito forte. Magia da terra. Quando os segurança baterem neu Mobutu caiu na cama três dias que desconseguia de se mexer.
Estava na minha hora, pedi mais duas , meti uns trocos nas mãos do velho e saí para a rua, para o calor e para a minha vida.
Durante um tempo não me lembrei mais do pai dos filhos do Mobuto.
Semanas mais tarde, ao cair da noite, estava reunida uma multidão à porta da tasca do cabo-verdiano. Um camião parado e um corpo imóvel no chão. Assim deitado no chão ainda parecia maior. O motorista do camião disse que não teve hipóteses de parar. Os populares concordaram. O Giga ia completamente bêbado, diziam, nem sentiu a morte chegar.
Bebi uma na tasca, lamentei o cota e fui para casa sem pensar mais no assunto.
Na manhã seguinte, a RDP Africa anunciava que o Mobutu Sese Seko tinha morrido ao início da noite anterior.
Nepal
Está por estes dias a fazer dezoito anos que conheci o Nepal.
Cheguei sujo e catingoso. Foram três dias e duas noites dentro de uma camionete terceiromundista. No mapa da Índia a estrada que separa Varanasi na India de Katmandu no Nepal é um cabelinho curto encaracolado. São segundo o mapa 501km.
Lembro me de entrar no autocarro na estação da rodoviária em Varanasi lavadinho de fresco e bem alimentado. Banhinho quente tomado e pequeno almoço robusto. Levava um farnel substancial para aguentar as quarenta e oito horas previstas para a viagem. Bananas, pão, duas garrafas de dois litro de água, chocolates bouty, duas latas de sardinhas e quatro maços de Camel que ainda sobravam do pacote de dez que há uma semana atrás tinha comprado na free shop em Delhi.
Os primeiros 100 km foram tranquilos. Tranquilos...para estradas da Índia, claro. Com elefantes, vacas sagradas, mercados e paragens em todas as tascas onde o motorista tinha comissão. Entravam e saíam passageiros e mercadorias. A mochila debaixo do banco não incomodava e fui dormitando ao longo do dia.
A camionete ia cheia. Indianos em viagem de turismo ao Nepal, emigrantes nepaleses de regresso, três australianas ruidosas, quatro japoneses silenciosos e este vosso amigo.
A noite caiu e a viagem prossegue. Cada vez mais frio. Tirei a camisola de lã da Nazaré de dentro da mochila. No ano 2000 os polares eram raros.
Começamos a subir.
Esses nas curvas apertadas.
Na manhã do segundo dia já íamos em alta montanha. Os Himalaias.
Um frio do caraças e mais curvas.
Sempre a subir.
Numa curva da montanha, a fronteira.
Mais umas horas de burocracia e vistos e revistas.
Seguimos viagem.
As vezes, quando nos cruzavamos com outro autocarro, porque a estrada é estreita e o precipício ao lado é assustador, saiamos todos do autocarro, para os motoristas com os carros vazios fazerem as manobras necessárias para passarem os dois... Depois voltavamos todos a entrar e seguiamos viagem.
Cada vez mais alto e cada vez mais frio.
Vesti toda a roupa que levava em camadas sobrepostas e embrulhei-me no saco cama.
Houve alguém que me convenceu a levar pouca roupa porque no Nepal a roupa quente é muito barata.
Mais uma noite e mais um dia. Mais frio.
Três dias e duas noites depois de ter saído cheguei finalmente a Katmandu.
Ao final da tarde comprei um casaco bem quente de inverno. Paguei tutimeia. Depois, procurei uma pensão barata em Freakstreet. (Onde havia de ser?!)
Larguei a mochila e pedi para tomar um banho quente. Mais caro, mas as circunstâncias justificavam o luxo.
Lavado e renascido, desci para comer numa salinha de teto baixo e forrada a peles aquecida por uma lareira. Bem aquecida. Tirei a camisola de lã e fiquei com uma t-shirt branca onde tinha uma foice é um martelo.
O empregado ficou a olhar para mim e foi chamar o patrão.
Chegou o dono em pessoa e num inglês de Inglaterra começou a fazer me perguntas sobre a t shirt... E sobre a foice e o martelo.
Claro que lhe espetei logo com o cartão do PCP com as cotas em dia.
O ambiente aliviou mas percebi que estava num país onde podia ser preso por ser comunista. E que o dono da pensão podia ter problemas se a polícia política visse símbolos de comunismo dentro do seu estabelecimento.
Foram dias muito intensos e aprendi muito sobre o Nepal. A mesma história de todas ditaduras militares. Aqui com um rei fantoche, que já não era rei mas que governava, mais a polícia política, mais as prisões arbitrárias, mais as torturas, as mortes e os desaparecidos. A resistência dos intelectuais, as organizações de estudantes e operários e a guerrilha na montanha.
Conheci vários simpatizantes comunistas. Depois de muitas noites de conversa com o dono da pensão, percebi que era um professor de liceu e que estava proibido de dar aulas pelas suas opções políticas. Tinha estado preso. Deixei-lhe a t shirt do PCP. Acho que de uma campanha de fundos para obras num centro de trabalho.
Voltei à Europa e à Tuga.
De longe fui acompanhando a vida política no Nepal.
Vivi remotamente a chegada da democracia e as primeiras eleições.
Agora fiquei especialmente feliz depois da vitória dos camaradas.
Sinto que está na hora de voltar a subir lá acima a Katmandu para ir buscar uma t shirt.
Brasil
Entramos no Brasil num domingo ao amanhecer. Vinhamos de Assuncion e era ainda noite cerrada quando atravessamos o Rio Paraná. Atrás, a mitica Ciudad de Leste capital do contrabando e outros tráficos, à frente todo o Brasilão a começar ali na Foz de Iguaçu. Mais de metade de um continente e toda esta imensidão à nossa frente antes de chegar ao Atlantico.
Na fronteira falaram-nos em português pela primeira vez depois de semanas em castelhano de muitos e variados sotoques. Mesmo com a tensão da fronteira e os guardas armados quase que nos sentimos em casa.
Na estação dos "onibus" não havia autocarros, nem bilheteiras, nem um quiosque aberto. Ninguem. Começou a chover.
Entramos no unico taxi que ali estava parado. Acordamos o preço e seguimos viagem.
Em conversa de circunstancia e porque continuava a chover perguntei:
-- Tem chovido muito?
-- Pensi em chuva! Pensi em chuva bem forti. Pois olhi qui aqui tem chovido mais!
Rimos-nos os tres. Estavamos apresentados.
Tentei falar de política.
Esclareceu que nao tinha partido, mas deixou claro que estava com o Lula.
-- Sabe moço, depois do Lula comprei minha primeira geladeira. Sabe o que é viver no brasil sem geladeira? Hoje é domingo e tou aqui trabalhando, mas tenho um filho fazendo o vestibular e minha filha tá fazendo a faculdade de medicina. Sem o Lula não tinha jeito não. Filho de trabalhador estudar qui nem filho de rico...Isso aí é benção di Lula!
Depois de Foz de Iguaçu muitos quilometros, muitas estradas, muitas cidades.
Tres mil quilometros a norte, em Salvador, Cuiuba Daltro, um amigo mais atento à situaçao politica e às manobras da direita dizia:
-- Ou o Lula dá um jeito, ou o Brasil não tem jeito.
Não tem jeito mesmo, concluo.
Horas de mágoa e melancolia a pensar nesse Brasilão. Nesse Brasilão de gente humilde e trabalhadora com essa secreta e preciosa qualidade de nas piores circunstancias
encontrar a alegria necessária para sorrir e ir levando.
Tamo aí.
encontrar a alegria necessária para sorrir e ir levando.
Tamo aí.
segunda-feira, 29 de abril de 2019
Ratos
Karni Mata. Assim se chama o templo das ratazanas, disse ratazanas e não dos ratos, para não faltar à verdade e não enganar ninguém, que a minha vida não é enganar quem me lê. Karni Mata. Fica em Bikaner, no Rajastão, Oste da India.
Foi no inicio deste seculo, deambulando pelo mundo tropecando, andando e correndo que cheguei a Bikaner onde estive dois ou três dias. Fiquei numa daqueles pensões baratas que nascem como a erva rasteira ao pé das estações de comboios. Aluguei a parte de cima de um beliche e um armario de madeira tipo cacifo do qual me deram um pequeno cadeado com a respetiva chave, coisa que não usei porque naa mochilita levava o meu próprio cadeado!
Estava calor, e este vosso amigo, e mais do que de comer, precisava de um banho. Duchei-me nos balneareos da pensão, mudei de cuecas, meias e camisola. Aproveitei a agua corrente para lavar a roupa suja que estendi numa corda entre dois beliches e fiz-me à cidade.
A grande atração de Bikaner era, e penso que ainda seja, o templo Karmi Mata. Fui lá.
Pelo caminho vi algumas ratazanas, nada de excepcional. Bichitos fugidios entre o lixo que se acumula nos cantos das ruas. É assim em toda a parte do mundo. Verifiquei que à medida que me aproximava do sitio que o mapa em papel dobrado me dizia que estava o templo , a população e o tamanho da rataria foi crescendo. Também a timidez dos roedores se foi desfazendo à medida que me aproximava.
Gordos e descarados saltitavam pelos passeios e tinham definitivamente deixado os esconderijos das sargetas.
Junto ao tal templo, uma multidão de homens, mulheres, crianças e ratazanas. Cheirava a fruta, leite azedo, chulé e a ratos.
Nos templos desse mundo, regra geral, as pessoas entram descalças... Os cristãos são excepção, onde nas igrejas que se pode entrar de botas...mas tirando os seguidores do cruxificado, na casa dos deuses, entra-se descalço.
Em Karni Mata é como vos conto.
Australianos de ambos os sexos amontovam-se à porta com os tenis pendurados ao pescoço. Mais ordeiros japoneses faziam fila com as sandálias na mão e esperavam que uma excursão de reformados ingleses de saida se calçasse.
Homens mulheres e crianças dali mesmo, vendiam redordações do local: fios com medalhinhas de ratazana, estatuas de madeira representando ratazanas, postais com ratazanas, quadrinhos para pendurar com ratazanas, pibturas de ratazanas, batiques com ratazanas, enfim artesano de rataria com fartura.
Outros comerciantes, mais ao nível das artes performativas, mostravam ratazanas inchadas de culturismo e guloseimas que alugavam para tirar fotografias com os camones. E a malta alinhava naquilo, ficavam a rir-se para a maquina com a rata ao colo e para poderem tirar a fotografia davam ao dono da criatura o equivalente ao que eu tinha pago pelo almoço.
Isto para não falar nas banquinhas que vendiam fruta e leite para fazer oferendas aos ratos.
A fila ia avançando neste circo. Chegou a minha vez na fila para entrar. Era preciso descalçar as botas. Olhei para dentro do templo e a contraluz vi os quinhentas mil vultos no chão e nas paredes. Atrás de mim, uma família inglesa pressionava para avançar. Vinham à procura da Índia Mística dos anuncios. Eu procurava outra coisa que definitivamente não estava ali.
Desisti de descalçar as botas e sai da fila. Fui à procura de um sitio longe dali para beber uma cerveja.
Afastado o suficiente para não cheirar a ratos, protegido do sol, bebi uma cerveja morna numa esplanada que me soube tão bem como se tivesse gelada. A seguir fui comparar o bilhete de comboio para sair dali.
Nem sei porque me fui lembrar disto hoje...acho que é por causa do calor que já chegou.
Galatazarai
O Bairro de Galatazarai é o Bairro da Torre. Fica na margem Norte do Corno de Ouro. Na parte europeia de Istambul. Casa antigas, ruas estreitas e praças com sol. Dizem que o Marco Polo viveu aqui.
É uma zona da cidade onde desde a idade média, viveram os genoveses, depois os búlgaros, austriacos e desde o século XVII franceses. Por isso foi aqui que fundaram o liceu francês. Um bairro de pequenos comerciantes e artífices de detalhe tecnológico tipo relojoeiros, tipografos e oculistas.
Já no século XX os "jovens turcos", comandados pelo Kemal Ataturk transformaram o privadissimo liceu francês, num liceu público. Aconteceu na dinâmica de modernizar e criar progresso social afastando no mesmo safanão as veleidades coloniais das nações europeias e os conservadorismo religiosos islâmicos. Foram também " os jovens turcos" que fundaram o Galatazarai Sport Club.
Na ruas estreitas afastadas da Praça de Galatazarai, há cafés onde se está a beber chá, fumar chicha, jogar gamão e discutir política em todas as línguas.
É assim em Galatazarai desde o mais remoto início dos tempos e será assim até à eternidade.
Mesmo debaixo da Ponte de Galata que junta as duas margens do Bósforo e liga o bairro de Galatazarai ao lado de Sultanamed onde estão os principais palácios e onde moravam imperadores, a corte e os seus burocratas, ali mesmo, junto às águas vende-se peixe.
Peixinho bom. Fresco. Peixe humilde para gente humilde: carapaus, cavalas, fanecas e taínhas. São bancas de venda ambulante e cada uma está equipada com um fogareiro que permite assar logo ali o peixe que se comprou. Ao lado outros vendedores em carrinhos vendem sandes de peixe assado que escolhemos na banca do vizinho. Há também quem vendas as bebidas. Iogurte, café e chá.
Estão por ali umas mesas encostadas onde se pode abancar e comer em cima das toalhas de plástico limpas diligentemente com um pano húmido e gotas de limão. Refeições baratas, para gente do bairro, empregados no comércio, trabalhadores das obras, estudantes e ocasionais viajantes sem guita.
Hoje, na rádio não paravam de falar em Galatazarai. Talvez seja por isso que me deram ganas de comer uma sandes de cavala com picante acompanhada de iogurte e chá de maçã..
terça-feira, 12 de março de 2019
A gula dos euforicos
Estávamos sentados na esplanada de uma pisaria barata. Entretidos a ver o mundo passar naquela rua mais ou menos secundária, por trás da estação central. Estava sol e no relvado junto ao canal muitas famílias aproveitavam para expor a pele ao calor. A primavera em Amesterdão acontecia ligeira, mesmo com algum frio, mas com sol. Um sol ainda tímido a empurra todos para ao ar livre. Todas as pessoas da cidade estavam na rua.
Na mesa ao nosso lado, contigua com a nossa, sentaram-se duas amigas. Entre os vinte e cinco e os trinta. Notámos pelo sotaque com que falavam uma com a outra que eram inglesas de Londres. Vinha vestidas de britpop apesar da aparência remeter para a urbanidade inglesa na genética tinham a identificação dos antepassados colonizados no sudoeste asiático. Olhos rasgados, cabelos pretos lisos, pele morena e voz de passarinho. As duas juntas com sapatos, casacos, chaves mala de mão talvez pesassem uns oitenta quilos...
Estavam visivelmente eufóricas. Viviam aquela euforia fumegante de Amesterdão. Na alegria da liberdade que as ruas, lojas e cafés de Amesterdão dão, quando há euros para serem gastos. Falavam alto e riam muito.Pediram pizza e coca-cola.
Entretanto chegou a nossa pizza. Notei numa delas, não a que estava ao meu lado, a outra, que estava em frente, um olhar de gula sobre o meu prato e o queijo que fazia fios... Até comentei:
--a bacana agora que viu a pizza é que lhe deu a fome!!!
Comemos e continuamos a falar, atentos à monumental moca das vizinhas.
Minutos depois chegaram as pizzas das raparias. Fizeram festa com palmas e tudo! A que estava ao meu lado, atacou a pizza como se não visse comida desde os anos oitenta. A do outro lado da mesa, foi mais lenta...gulosa, mas com método, comeu primeiro as bordas de massa que empurrou com coca-cola.
Nós continuamos a comer e a ver o mundo passar. A desfrutar do sol que amornava o dia sem ser suficientemente quente para tirar os casacos.
A gaja ao meu lado, de repente ficou calada e pálida. E os orientais do sudeste asitico, quando ficam pálidos, ficam transparentes cor de papel de arroz... A outra continuou a falar e a rir.. nem teve tempo para se preocupar com a amiga.
De um momento para o outro, da boca da minha vizinha jorrou muito mais pizza que aquela que eu vi comer. Veio a pizza misturada com a coca-cola, café com leite, e uma massa indistinta que parecia bolo de chocolate. Posso descrever a matéria porque vi bem... se não tivesse desviado os pés, tomava um banho grego, ou pelo menos, lavava-me as botas.
A empregada apareceu depressa com um balde e uma esfregona. Mas mais rápido que a empregada, chegaram, não se sabe de onde dois policias. Falaram com a amiga em frente, que igualmente pedrada, que continha o riso e balançava entre o choque e a zanga. Tentava explicar aos policias que a amiga estava bem que não era preciso chamar uma ambulância. De vez em quando, a que tinha vomitado, levantava a cabeça e dizia que estava bem, só um bocadinho cansada...A outra justificava:
--Que a amiga comeu muito depressa, que estava um bocadinho eufórica e foi gulosa... comeu muito depressa e o estômago rejeitou, só isso...
Os dois policias entenderam, mas antes de se irem embora passaram uma multa: por embriagues na via publica e sujar o passeio...
Esta memoria anda há dias a pairar-me na cabeça.
Pode ser da primavera que ai vejo a chegar.
Pode ser vontade de viajar.
Pode também ser uma metáfora para a gula de eufóricos que por ai vejo...
Às vezes, há pessoas que na sua euforia se deixam tentar pela gula desmedida... Mas do que fome é essa vontade de querer comer mais do que a sua dimensão consegue conter. Nesses casos, é preciso ter cuidado, nem sempre o estômago aguenta.
Digo isto, sem maldade nem moralismo. Só naquela... porque me lembro da mocinha que se vomitou toda em Amesterdão
terça-feira, 27 de novembro de 2018
O Tigre
O tigre é feroz, mas a mulher é mais...
Sei do que falo.
Em tempos remotos, estando eu a vadiar neste calhau redondo e molhado de mar, cruzei-me com um tigre. Foi ao nascer do dia no Parque Natural de Ranthambore, no Rajastão, uma antiga reserva de caça de um Marajá Foi uma coutada de luxo de um daqueles marajás que vivia milionário do oficio de lamber o cu ao Ingleses e reprimir o seu próprio povo. O governo da india fez um parque natural onde é possivel caçar bichos de maquina fotográfica.
Tinha chegado na vespera na camioneta da carreira. Viajava com uma mulher que não estava tão receptiva a ideia de conhecer a India profunda quanto eu. Chegamos cansados, alojamos-nos numa tenda alugada nas traseiras de um hotel. Comemos, dormimos, comemos e saímos para ver os tigres. Ainda de noite, da reserva veio um jipe de caixa aberta, onde embarcamos juntamente com um casal de belgas equipados com camaras e aparelhos que davam para filmar no banco do carro a odisseia do espaço, ambos vestidos de camuflado e lavadinhos de fresco.
Lembro-me que estava frio e nós não tinhamos tomado banho porque não tinhamos água quente.
Seguimos umas duas horas por caminhos de terra. Vimos passaros esquisitos, javalis, veados, texugos e bicheza varieda. Finalmente o carro parou à entrada de uma clareira onde um javali chafurdava na lama de um charco. O guia fardado de caçador e turbante avisou no seu ingles "made in India" que o tigre do qual seguiamos as pegadas há horas, estava ali escondido, do outro lado, nos arbustos.
Foi então que se ouviu o rugido. Um rugido petreficante que nos deixou a todos paralisado. Incluindo o javali.
Os belgas dispuseram o equipamento.
Eu pensei, porra, vou tirar a foto da minha vida para mostrar ao puto. O meu filho teria nessa altura uns cinco ou seis anos... Tinha-me pedido um Tigre e eu dei-lhe um gato... Estava na hora de me redimir e "levar" o tigre pró puto.
Sem fazer barulho desci do jepe e aproximei-me da clareira de maquina na mão.
Silencio total. Até os pássaros se calaram para ver o que ia acontecer.
E aconteceu: o rugido que soou naquele momento, pode não ter sido tão intenso como o do tigre... Mas veio em elevados decibeis e em portugues.
-- Foda-se Helder, estou farta desta merda. Venho práqui sem condições nenhumas, dormir numa tenda, sem agua quenta, a ter de fazer cócó num buraco, comer caril de manha, à tarde e à noite, a levantar-me de madrugada e apanhar frio...e para cumulo, agora estás com esta palhaçada de quereres tirar a fotografia ao Tigre! Sabes a quantas horas estás do hospital mais proximo? Tou farta das tuas loucuras Helder! Já chega foda-se! Tou farta. Fartinha! Isto não está a resultar!
Tudo isto, foi gritado ecoando no silencio da selva.
De facto não estava a resultar.
Mas o que tambem é um facto, é que a gritaria não só safou o javali que despertou da parelisia, mas tambem fez fugir o tigre a sete pés, provando definitivamente que em termos de bichos perigosos nada chega à agressividade de uma mulher a quem tiraram a possibilidade de usar o secador.
O guia do parque, mais tarde, na garagem onde lavava a lama dos peneus do jipe onde partilhamos chá e vinho do porto, e falavamos de animais e da vida, deu-me um conselho precioso: arranja outra mulher que esta que tens é muito barulhenta!
Quem se lixou no meio disto foi o tigre que fugiu sem tomar o pequeno almoço, e os belgas que tiveram de voltar a acordar cedo para tentaram o filme no dia seguinte.
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