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domingo, 30 de junho de 2019
Tinto com cuscus
São ambos holandeses. Ela filha de pais portugueses no papel e angolanos no coração. Ele filho de pais argelinos muçulmanos. Conheceram-se nos noventa no liceu em Roterdão. Namoraram e seguiram viagem.
Ela por volta do dois mil foi para Londres fazer um curso de cozinha vegetariana. Ele acabado o liceu começou a trabalhar com o pai como técnico de frio.
Não se viram durante vinte anos.
Reencontraram-se no facebook.
Ambos tinham trabalho, ambos sem filhos, ambos separados de fresco.
Voltaram ao febril amor da adolescência via skype.
Combinaram passar um fim de semana em Paris na primavera de 2016.
Falavam um com outro em holandês mas amavam em português com sotaque angolano e árabe com sotaque argelino.
Voltaram juntos para Roterdão onde ele tinha casa e decidiram continuar juntos. Ela depressa abriu uma empresa de catering vegan. Ela em casa não cozinhava e ele todos os dias fazia comida argelina adaptada ao gosto e às restrições alimentares dela.
No verão vieram a Portugal passar férias a Corroios onde vive a família dela.
Ele não bebia alcool. Ela usa saias curtas a mostrar as lindas pernas mulatas. Ele tem um irmão mais novo que passa os dias na mesquita a recitar o Corão. Ela tem primas da mesma idade deusas da kizomba do Ondeando.
Ele provou vinho e tentou dançar.
Ela apanhou o sol da fonte da telha e conheceu parentes de Benguela.
Quando o verão de 17 acabou voltaram juntos para Roterdão. Ela levava uma gravidez a fazer-lhe inchar as mamas.
Ele levava o gosto pelo tinto alentejano e uma vaga memoria de uns passos de dança.
Em Roterdão ele encontrou um supermercado que vendia garrafas de vinho alentejano.
Chegou rápido o outono ele continuou a beber. Trabalhador, responsável, e pontual, chegava a casa as cinco embebedava-se até as oito, comia a sopa que ela fazia com mais um copo de vinho e as nove ia para a cama ressonar e destilar o Borba.
Ela perdeu o bebé na altura do natal.
Ele bebeu para esquecer.
Ela lixada, meteu-lhe os cornos com a vizinha do lado, uma alemão parecida com a Ikko Ono, nascida no Vietname.
Ele continuou a beber.
Ela mudou-se para casa da Iokko Ono.
O irmão mais novo levou-o para a mesquita e ele deixou de beber.
Ela e a namorada, juntaram uns cobres e vão abrir um restaurante vegan na costa.
Ele continua a ser um excelente técnico de frio, bem pago e financia uma escola no Iemenn.
Ela está bem, já quase que fala português sem sotaque e ri-se dos galantes avanços dos primos sobre a namorada.
Ele sente a falta do cheiro do cabelo dela quando se deita às nove da noite.
Ela sente a falta do cuscus com grão e sumo de laranja que ele fazia para ela.
...
Que se foda o banco central europeu mais as suas politicas economias. Mas nunca em nenhum momento da historia foi possível amar em tantas línguas do mundo como nesta Europa que vivemos.
...
Pra semana vou a Costa comer caril vegan com chucrute!
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Solidão partilhada
A Vanda vive com o fantasma de uma velhinha. Moram as duas no setimo direito.
Começou a ver a velhinha uns meses depois de se ter separado. Enquanto casada, a angustia das da ausencia do marido e os ciumes com que ardia, nao adeixavam ver mais nada. Depois do Paulo sair de casa, começou a ve-la. Passou a ter mais tempo para olhar por ela, para ela e para as coisas á volta. A velhinha apareceu numa noite de terça-feira, depois adormecer no sofa. A Vanda acordou sobressantalda e com frio, levantou-se e foi para a cama. Foi ai que lhe percebeu a silhueta recortada na porta da cozinha, parecia parada atrás de uma especie de mesa de ferro sem tampo. Não teve medo. Para dizer a verdade, nem pensou no assunto, caiu na cama e continuou a dormir e a sonhar com o ex-marido. Só na manhã a seguinte se deu conta que a velha não foi sonho.Viu-a. Ao final da tarde, nesse dia, a fazer o jantar na cozinha e a pensar na silhueta, ouviu os passos leves ponteados por uma especie de bengala e sentiu uma presença a atravessar a sala.
Devo estar a ficar maluca.
Estava. Afinal de contas, estamos todos. Nessa noite, a Vanda foi sentar-se a comer a sopa detox adelgacante que bimby cozinhou. Sentou-se no sofa da sala e fugiu ao mundo nos episodios sucessivos de policias fortes, lindos, inteligentes e americanos. O fantasma da velha pairou-lhe na mente mais uns dias.
Umas semanas depois, dessa vez, bem acordada, num sabado de manha, enquato aspirava o chão da sala, viu-a bem. Inteirinha, nem esfumada nem nada. A imagem completa, refletida no espelho em frente à porta da rua. Era enrugada, magra e pequenina. Tinha o cabelo encaracolado branco e marcas nos braços de quem passou muito tempo a soro. Um vestido leve tipo bata clara com flores azuis e um andarilho de aluminio à frente. Viu-a por um instante. Mas viu bem. Curiosamente não se assustou. Continuou a aspirar. Depois comeu uma sandes de queijo fresco e foi tomar banho.
À tarde contou à sua amiga Rita, que faz reiki e é assim meio espiritual.
Caraças, pá miuda, temos de ver o que é isso e quem é essa velha!!!
A Rita ficou entusiamada e marcaram logo uma “sessão energetica” para essa noite. Inclusive a Rita, até desmarcou um jantar que tinha com um mais-ou-menos namorado. Ligaram à Maria João, uma amiga da Rita que é mais graduada no Reiki e nos anos de solteira.
Jantarm as tres frango assado e nem beberam o vinho verde que gostam porque a João, disse que o espirito podia ficar ofendido. Sentaram-se a volta da mesa da sala, acenderam umas velinhas redondas de por dentro de copos (eram as unicas que tinham), apagaram a telivião e deram as mãos à volta da mesa. A João presidia a cerimonia com uma voz profunda.
–Espirito que aqui vives nesta casa, por favor apresenta-se aos teus irmãos vivos e da-nos um sinal. (Pausa) Espirito que aqui veves nesta casa, por favor apresenta-se aos teus irmãos vivos e da-nos um sinal.
Nada.Nem vozes, nem corrente de ar, nem velas a apagar. Nada.
Apenas um silencio frio e desconfortavel.
A João voltou a repetir o apelo, um apelo sério...como aqueles dos carros mal estacionados nas caves dos hipermercados... mas em tom mais lento e pesado. E um esprito timido, as vezes acontece, sobretdo se são mulheres....
Na cozinha, um copo cometeu suicidio lancçando-se para o chao, do alto do escorredor onde estava deitado acabado de lavar e à espera de secar.. Um copo grande de agua com riscas amarelas. Vidro grosso.
Gritaram as tres o susto. A João sorriu conhecedora e a Rita ficou arrepiada.
A Vanda foi a correr acender as luzes e varer chão da cozinha. Acabou-se logo ali a sessão.
Decidiram sair. Foram a um bar ouvir musica brasileira e beber umas caipirinhas que custaram os-olhos-da-cara-mas-um-dia-não-são-dias. A Vanda nessa noite acabou por ir dormir a casa da Rita que ficou impropria para conduzir.
Depois da sessão e do copo a partir-se, a velhinha começou a aparecer mais vezes. Passou a ser uma presença quase la em casa. A vanda foi-se habituando ao perfume madeiras do oriente.
Passaram-se meses desde que o copo caiu do escorredor.
Uma tarde destas, cruzou-se com a João na rua.
– Vanda, temos que fazer outra sessãozinha la em tua casa, mas desta vez, levo uma defumação, para expulsar o espirito...
A vanda indignou-se!
– Expulsar?? Nem pensar nisso, faz-me mais companhia que o meu ex e dá menos trabalho que um gato, não preciso de lhe andar a ver as mesagens do telemovel nem de lhe mudar a areia da caixa!!!!
terça-feira, 30 de abril de 2019
Jamaica
Já se adivinhava...
Nas últimas vezes que passei pelo Cais e vi aqueles betos todos de aquário na mão, a beberricarem gin onde só falta o peixinho vermelho, percebi que o Cais do Sodré já não era ali...
Partiu para outro lugar.
Dizem que vai fechar o Jamaica.
É tanga. O Jamaica é eterno.
Uma vez os americanos mandaram um exército invadir o Jamica e levaram na boca.,. Agora vem estes bacanos da taimeaute com ideias...
Nem pensar.
Uma noite no final da primavera de 1991, estiveram quase a invadir o Jamaica. Um porta-aviões americano ancorado no Tejo despejou no Cais centenas de marines a caminho da guerra do golfo. A coisa começou com uma troca de palavras entre um casal de lésbicas e um americano bêbado que não conhecia as regras da educação. Como o gringo não sabia como falar com senhoras, as senhoras viraram bichos maus e ensinaram-lhe. Os amigos do gajo quiseram interromper a lição. Vieram os porteiros, dois armários negros deste tamanho para pôr os camones na Rua. Os armários eram grandes mas os americanos eram de muita arrumação e não queriam sair. O resto do pessoal ajudou na expulsão.
Sei que foi assim porque estava lá e vi.
A porta fechada e cá fora o grupo dos camones cresceu aos pontapés. Vieram as putas, os cientes e os gandins mais os porteiros do Texas. Ninguém chamou a polícia mas eles apareceram também. Juntaram-se mais gringos e estava o caldinho armado.
Foi até de manhã.
Pela primeira e única vez polícias, ladrões, chulos, prostitutas, comerciantes, porteiros, barmens e notívagos, todos lado a lado. Todos do lado certo. Muralha de aço abençoada pelo Santo António que é padroeiro de Lisboa e aparentado com o diabo.
Até o vendedor de jornais participou com a tranca do quiosque na mão a enxotar marines.
Todos contra os americanos.
Das noites mais lindas da minha vida. Com pedras da calcada, cadeiras e garrafas de sagres pelo ar. Pareciam pássaros a voar contra os invasores. Aquilo era bonito.
Durou até de manhã com os marines a retirarem pela 24 de Julho direcção a doca da Rocha.
Épico.
Lavei as mãos e a cara na estação e apanhei o primeiro barco para o Barreiro de coração cheio percebendo que pertencia a um povo de heróis.
Tenho a cicatriz de um corte na minha mão direita como recordação permanente dessa noite e do Jamaica. Para sempre. Podem demolir o Jamaica. Talvez seja melhor assim! Mas os americanos não entram!
Elogio da Mentira
O ELOGIO DA MENTIRA
O Pedro e o Miguel eram amigos. Mas amigos a sério. Do peito. Amigos de copos e da vida. Viviam ambos no Barreiro e noite sim, noite sim saiam para viver e desfrutar ter vinte e tal anos.
Não me lembro, nem isso interessa para a história qual deles conheceu a Cintia primeiro. Nem qual deles a primeiro levou para a cama. A Cintia era uma morena trintona, baixinha com o rabo e as mamas de um tamanho acima do resto do corpo, uma boca carnuda que dava vontade de dar dentadas e um nariz entre o arrebitado e o abatatado.
O certo é que ambos os amigos se envolveram com a Cintia. E era bom para os três. O Miguel e o Pedro, amigos e confidentes depressa articularam um sistema de escala e de encontros e substituicoes. De sinais e rituais, que ambos conheciam e que a Cintia ignorava.
A Cintia enganava os dois. E os dois enganavam a Cintia.
Havia muitas coisas que a Cintia desconhecia sobre a amizade. Havia muitas coisas que a Cintia ignorava, porque de génio, não tinha nada, a não ser o mau. O mau génio, entenda-se. Mas como dizia o Miguel, quando estavam juntos não lhe pedia ajuda para fazer exercícios de matemática. Nem para falar dos efeitos da perestroika na economia russa, acrescentava o Pedro.
A Cintia, ria e sorria feliz porque acreditava que encornava os dois amigos. Cerrava os olhos empurrava as maminhas generosas para cima e punha a lingua de fora mordida entre os dentes brancos. Os dois amigos, felizes na partilha dos prazeres da vida, que é a melhor forma de celebrar uma amizade.
Claro que tinham regras e formas. Porque a boca da Cindia era carnuda com uma lingua que se metia onde nao era chamada, as vezes em lugares impróprios, estabeleceram ambos como habito permanente de higiene oral dar-lhe de beber ( o ideal seria faze-la bochechar) quantidades navegaveis de vodka. Eram os tempos em que a absolut entrou no mercado das bebidas e arrazou com as outras marcas.
Encontravam se, as vezes os três, um deles partia e o outro pedia vodka ao balcão. Com gelo e mais nada. A Cintia sorria e beberricava molhando a ponta da lingua na bebida transparente e minutos depois a magia acontecia.
A relação dos tres foi seguindo os animados dias e intensas noites daqueles anos noventa, com encontros nos bancos de trás do carro de Miguel, num armazém do qual o Pedro tinha a chave, na praia de Alburrica, no jardim dos franceses e às vezes numa pensão que funcionava por cima do café barreiro.
Um dia, os dois amigos, amantes da Cintia e da liberdade, conscientes que só a verdade é revolucionária, decidiram deixar as hipocrisias e terem os três uma conversa franca.
Foi feio. A Cintia sentiu-se enganada e nesse momento mostrou aos dois que de facto tinha uma lingua mesmo porca. Aos dois, mais à empregada do bar, aos clientes no balcão e nas mesas, aos vizinhos de cima, dos lados e a metade do Barreiro, porque os gritos se ouviram desde as fabricas da ufa até à baía do seixal. A coisa sujou...
Tristes pela perda de um tão confortavel amor, os dois amigos beberam os vodkas de um trago e a partir desse dia, as ousadias da Cintia passaram à doce qualidade das recordações.
Conto-vos esta história para fazer a defesa da mentira. Apesar da mentira ser uma senhora de pernas ligeiramente curtas e que depressa é alcançada por esse corredor chamado tempo, há vezes em que as formas arredondadas da mentira são preferiveis aos angulos abrutos e secos da verdade.
O Pedro e o Miguel que o digam.
Ou o Silvestre, que é o gerente de um banco e só agora entra na história porque se casou com Cintia já tarde... e que vive feliz com o passado que a lingua da Cintia não contou.
Dias de bruxas
Diz que é dia delas. Não lhes tenho medo. Às bruxas. Conheço bem o género.
De beber poções mágicas tenho vasta experiência e cicatrizes nos órgãos internos. E não fosse as vertigens já tinha a carta de condução de vassouras. Esconjuros já me fizeram de todas as maneiras e feitios, todos sem efeito. De pragas rogadas faço o meu pequeno-almoço.
Aprendi a viver com bruxas e no terror eminente da presença dos mortos-vivos. (É certo que para isso contribuíram os mandatos do Professor Cavaco Silva.) Agora se me faltando o bruxedo, até sinto saudades. Do Professor, nenhumas!
Mas chateia-me esta cena do dia delas, das bruxas. Chateia-me a violência da invasão americana. Às tantas e afinal, andamos todos mascarados de gringos a brincar às bruxas por dois ou três dias… quando bruxas e bruxos somos o ano inteiro.
Ta e qual elites financeiras latrino-americanas, há quem ache que se nos mascararmos de gringos e se fizermos o que eles fazem, nos transformamos neles. Mas não.
Por mais idiotas que nos forcemos todos para ser… temos todo este mar aqui à frente e o vento salgado que lava as ideias de trampa que tratam nos importar para nos servirem requentadas.
Por isso vos digo: querem celebrar as bruxas? Convidem a vossa bruxa (ou bruxo) favorito para jantar e procurem aproveitar a lua em crescente para fazerem todo o tipo de doces travessuras.
Deixem as crianças com os avós que aprendem mais numa noite de conversa com os mais velhos do que nos meses de copypaste onde os ensinam a ser uma coisa que não são.
Beijinhos e abraços às bruxas e bruxos.
Cuidado com a água benta e com os inquisidores.
picnic
Estava sol e ela tricotava com os dedos. Foi dos primeiros dias quentes do ano. Práí Abril ou Maio.
As crianças que já não são crianças, tambem estavam: o mais velho, dormia e a mais nova, na pré-adolescência, exagerava num recem-adquirido pânico das formigas. Os cães que ainda era só a cadela, delirava com os cheiros da mata e com todo aquele espaço para correr e saltar.
Foi num sábado. Saí do trabalho à uma, passei por casa e apanhei todos. Tínhamos combinado ir almoçar no mato.
Levamos farnel e comemos sentados na manta. Depois tirei fotografias, apanhei pinhas e brinquei com a cadela.
Tinha acordado cedo e deixei-me adormecer. Ao sol. Ignorando as moscas, os protestos por causa das formigas e os apelos da cadela para passear.
Acordaram-me para ir para casa nem meia hora depois de me ter deitado. Mesmo no melhor do sono.
Porque está muito calor, diziam.
Levantei-me e disse profético:
-- Pois ainda vão sentir muito, a falta deste calorzinho!
Passaram meia dúzia de meses.
Agora chegou Dezembro a dar-me razão.
Eu bem avisei.
Natureza em Execsso
Estava muito frio.
Subimos na direcção dos Lagos da Covadonga, naquela estrada estreitinha e inclinada que causa vertigens a quem é de sentir vertigens.
Largamos o carro e continuamos a pé pela montanha.
Um bocado, devagar, sem exageros.
Depois vimos o Lago.
Entre nós e o lago, um enorme prado verde.
O céu estava enevoado naquele cinzento metálico a ameaçar neve mas quando chegamos ao prado o sol abriu tornando ainda mais apetecível o caminho. Seguimos a direito aquela extensão do único quilometro plano do passeio.
O prado, a meio fez-se um lodaçal e de um momento para o outro ficamos enterrados em lama gelada até às canelas.
Voltar para trás ou avançar.
Quando mais andávamos na direcção do lago, mais fundo o lamaçal ia ficando. Com lama gelado pelos joelhos sugeriste, suavemente e emocionada, que se calhar era melhor voltarmos para trás que a lama, a agua e o gelo nas pernas e pés te eram desconfortáveis.... Também disseste qualquer coisa como não tínhamos condições de lavar roupa e estávamos ja cheios de lama....
Como não sou de conflitos, acedi e retiramos.
Molhados e com fome, caminhamos até ao supé do monte atrás do qual tínhamos deixado o carro.
Subimos outra vez.
La em cima, sentamos-nos virados para aquela mancha clara no cinzento do céu que devia ser o sol.
Tirei o farnel da mochila e dispus a mesa em cima de uma pedra. Atrás de nós uma murada construída não sei por quem nem para que efeito, protegia do vento.
comemos tâmaras, amêndoas, passas de figos, triangulos de queijo e chouriço que cortei com a navalha. Bebemos chá bem quente que tirei de um termo agasalhado dentro de várias meias de lã (ainda estão para inventar melhor forma de proteger os termos!!).
Depois de limpar a navalha, fui fazer xixi e tirei-te a fotografia.
Apesar das botas não deixarem entrar água, as calças entre os joelhos e os tornozelos estavam ensopadas... e agora que tínhamos parado fazia realmente frio...
Quando voltei a sentar-me ao teu lado, entre o zangada e o cansada, num tom que não admitia mais conversa, disseste:
-- Helder, já chega de Mãe Natureza, está bem?!?!?
Campismo
Iamos por meados de um março seco e frio. Saímos do barreiro depois de almoço. Era um sábado. Material, cadela e criança arrumada no carro. O mais velho não foi por alguma razão dos seus compromissos. O Dylan a cantar e os quilometros a escorrerem debaixo das rodas. Chegamos à Serra ao final da tarde. Escolhemos um sitio fixe junto a uma lagoa com arvores num terreno plano. Afastado da estrada de alcatrão e numa aberta entre os pinheiros.
Montamos a tenda já quase de noite. As meninas tiraram as coisas de dentro do carro e eu fui apanhar lenha com a cadela, essa sim, que parecia desfrutar tanto como eu do contacto com a natureza. Acendi já no escuro, um lume que fizesse o jantar e aquecesse a noite que se previa fria.
Noite cerrada jantamos à luz das lanternas. Peitinhos de frango temperados dentro do saco de plastico e grelhados nas brasas ali aos nossos pés. Café e chá feito na fogueira. Estrelas num mágnifico céu e frio. Depois tirei a fotografia que partilho.
-- Pai, não há televisão e não tenho luz para ler...
-- Amor, tá um bocado de frio...
-- Pai, se vier um lobo a Luna luta com ele?
-- Amor, a louça suja vaia atrair formigas e outros insectos.
-- Pai, quero ir fazer xixi, vou aonde?
-- Amor, já pensaste que romantico que é um quartinho quentinho num hotel ou numa pensão, mesmo baratinha?
-- Pai, podiamos ir para dentro do carro e eu dormia la atrás.
O proprio céu, contrariado, começou a ficar carregado de nuvens.
Eu ia falando e contando historias. Tentava entreter a dificil audiência. Falava sobre ursula menor e sobre as dimensões do universo, a distancia das estrelas e os cosmonautas. Sobre o encontro entre o Che e o Fidel na Cidade do Mexico. O conflito entre o nobel Cholokhov e o Stalin. A brilhante estratégia do heroico Ho Chi Min. O papel do Bougard no casablanca. A infancia do Charlie Chaplin. Anedotas velhas de elefantes e de cocó nas paredes. Nada parecia anima-las...
Estoicamente ignorei as primeiras gotas que cairam.
– Tá a chover! Vamos para dentro da tenda.
Disseram as duas em coro.
A cadela concordou e tambem se levantou.
Foram para dentro da tenda e eu fiquei a arrumar as coisas na mala do carro.
Quando cheguei ensopado à tenda, vesti o saco-cama e deitei-me. A cadela ficou num tapete abrigada pelo avançado.
A chuva aumentou o ritmo de batidas no tecido. Dormimos embalados pelo bater da chuva nos pinheiros.
Amanhaceu e continuou a chover. Torrentes.
Fui ao carro buscar coisas para o pequeno almoço, mas ao contrário do previsto e desejado, o ambiente não era de festa.
Fiz-lhes a vontade: viemos embora!
Quando se ama, é assim, fazemos sacrificios... uns fazem o sacrificio de ir, outros fazem o sacrificio de vir embora... a chuva simplesmente forçou o equilibrio da coisa!
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Mulheres
Nada é por acaso. Como não é por acaso que “justiça”, “resistencia” e “luta” são todas palavras nascidas meninas com nomes de mulheres. Porque as mulheres são, como nunca deixaram, nem deixarão de o ser, o corpo da palavra LIBERDADE, que é, a palavra mais linda que os labios tocam.
Os homens são apenas os meninos que as mulheres têm de carregar. As mulheres carregam os homens na barriga por nove meses e, depois de paridos (alguns mal paridos inclusive), carregam-nos pela vida toda. As mulheres têm de nos ensinar tudo. As mulheres têm de nos ensinar como se aquece a sopa, onde estão os lençóis, onde mora o clitóris, como funciona a máquina de lavar roupa, como é ficar em silencio de mãos dadas, como se dobra uma camisa, como se beija na boca sem pressa, como se preenche o impresso, como se abraçam os que sofrem, como se acalma uma dor…
Até a comer são as mulheres que ensinam os homens, metendo o bico da mama na boca do bebé chorão, coitados dos homens!
Serão sempre as mulheres a carregar nas suas malas ao ombro a carga do valores que sustentam o melhor da humanidade. Ser mulher, é além de ser professora universal de todas as disciplinas, ser também a carregadora de todas as coisas misteriosas, uteis e inuteis. Entre escovas de cabelo, analgésicos fora do prazo, pensos rapidos e dos que se fazem esperar, as fotografias dos filhos e dos sobrinhos e de outras crianças da vizinhança, amostras de perfume, uma parte partida de um batom, lenços de papel, um porta-moedas quase sempre vazio, as chaves de uma casa onde não vai há mil anos, a carteira com os documentos, os folhetos de promoções do hipermercado, a conta da luz que tem de ser paga e todos os sonhos desfeitos de quem nasceu princesa num castelo onde mandam os reis e os moços de estrebaria. Entre tudo isso, trazem tambem nas malas ao ombro misturados entre os lenços de linho, remotos e herdados, bordados à mão com ternura, toda a força e resistencia necessaria para viver os dias, as semanas, os meses e os anos. Porque ser mulher é ser a guardiã do segredo que empurra para a frente a humanidade.
Essa mesma humanidade bastarda, feita de mais mulheres que homens, mas que eles gostam de chamar por O Homem.
Isso de ser mulher é ter nacisdo com a capacidade de ser mãe do mundo. Ser mãe de um mundo que os homens acham que lhes pertence. Um mundo onde as mulheres ganham menos trabalhando mais horas. Um mundo tão injusto, em que os homens são valorizados pelo número de mulheres com quem fodem (incluindo as que comem mal comidas) e as mulheres são desvalorizadas pela mesmissima razão. Precisamente nesse mundo de guerras justas e injustas, onde vivemos enquanto humanidade. Uma humanidade desesperada por colinho.
Porque os homens tambem não sabem pedir colo... Por isso inventam, fabricam, vendem, cobram, emprestam e roubam coisas que lhe compensem a falta do aconchego de uma mae quente e segura.
Cada mulher traz dentro de si toda a humanidade, por isso o óvulo é mil vezes maior que o espermatozóide. Porque cada mulher traz em si todos os sentimentos e cores do mundo. Por isso, o mundo das mulheres muda com um telefonema, uma música que se ouve por acaso na rua ou com a memória de um perfume. O mundo das mulheres muda em função de um sonho bom que se teve na noite pouco dormida e que se quer construir como futuro. É por isso que as mulheres se juntam para lutar com a mesma certeza com que cozinham para a família. É por isso as mulheres saem de casa antes do sol nascer para colocar comida na mesa com a mesma determinação que saem para ir buscar o futuro.
Ser mulher é ser mãe do futuro. Os homens esperam o futuro que as mulheres trazem no bucho e na alma.
Porque todas mulheres estão geneticamente preparadas para a partilha e pensam naturalmente em coletivo. Uma mulher sabe por instinto fazer os milagres de crescimento económico tal como sabe divir a galinha assada em tantos pedaços como as bocas sentadas à mesa.
Alguns homens dizem que o lugar da mulher é ao lado do homem. Mentira. Toda as mulheres sabem que os homens se dispersam. O homem precisa de ser conduzido. E como todos os homens são apenas meninos grandes, só vão em frente se forem levados pela mão, mas convencidos que são eles quem decide por onde se vai.
O polvo
É ela que leva o polvo ou o é o polvo que vai com ela?
Definitivamente, que foi ela quem entrou no quintal do polvo.
Temporariamente sereia permanentemente mulher. O corpo é a tela de um pintor de agulhas. Tem um soberbo rabo onde o polvo aplica beijos de ventosa.
Uma boca desenhada na nadega esquerda trinca uma bala.
O polvo esse, viajou na prisão do aquário e foi lá posto para a composição. De propósito para te mostrar melhor o desenhado rabo da sereia. E te fazer invejar ter ventosas na boca e mãos tentaculares para abraçares determinados rabos.
O fotografo, molhado, carregado de equipamento e em subaquático equilibrio instável põe os olhos profissionais e a camara onde muitos desejavam por as unhas.
Para me vingar do Inverno, hoje planeio comer salada de polvo e com sorte dormir a sesta com uma sereia.
segunda-feira, 29 de abril de 2019
Só para homens
É sabido que isto de mudar as mentalidade demora mais que passar na triagem do hospital.
Vem a propósito esta elevada reflexão sobre a discussão do tema do género. Cavalheiros e damas bem-pensantes, ficam chocados quando se diz que o “género” e falo nesta coisa de ser homem, mulher, bicha, machona ou casto, não tem tanto a ver com a biologia, mas sim com a vivência e as escolhas de cada um.
Os cavalheiros conservadores, ficam chocados e retorcem os olhinhos para cima, quando se diz que não faz sentido segregar as mulheres na carreira das armas, segregar os bichas no desporto ou segregar quem quer que seja pela sua escolha de género.
Damas, assumidamente católicas, esquecem a tolerância e o amor ao próximo, quando o próximo é por opção lésbica, ou travesti, ou poligamo, bissexual, promiscuo por opção ou exibicionista.
Pessoazinhas sempre prontas a criticar a promiscuidade dos outros e a apontar o dedo aos tempos modernos, de "eles e elas misturados", eles que são elas e elas que são eles.
Educadores bíblicos que determinam o que são as coisas de homem, e o que são coisas de mulheres, porque não há misturas.
Há uma mole de fascistas em botão, dispostos a impor a sua hipocrisia sexual nos moldes de uma realidade fabricada à imagem da burguesia de uma Inglaterra vitoriana, com damas para um lado, cavalheiros para outro. E ai de quem ficar no meio que depressa é condenado à amputação social da identidade porque não sendo nem homem nem mulher, é uma aberração.
Encontrei esta fotografia do inicio do século XX que mostra um balneário masculino com sauna. A foto foi tirada num clube para comerciantes e profissionais liberais de Londres. Daqueles clubes onde não podiam entrar mulheres e todos os sócios tinham dinheiro suficiente para serem classificados como cavalheiros dignos.
Sem querer entrar em detalhes burgessos e javardolas, digo-vos que pessoalmente me descontraía mais depressa num balneário misto,... porque esta coisa de "só para homens de barba rija" não faz o meu género.
Coboiada
"Não gosto de arame farpado, nem de quem o usa", assim falou o Kirk Douglas.
O meu avô Zé era relojoeiro. Quando o meu avô era chavalo, trabalhou num cinema como ajudante de projecionista, mecanico de optica, projecionista e empregado de bar. Assistiu projectados a todos os grandes classicos em directo nas noites em que estreavam no cinema la da terra. E nas noites seguintes tinha de voltar a ver os mesmos filmes até saber de cor estando sempre atento às marcas para mudar a bobine.
Foi ele quem me ensinou a gostar de cinema e a ver filmes. O genero preferido do meu avô, eram os westerns. Com ele vi e revi todos os filmes de cobois.
Muitas vezes, porque conhecia os filmes de cor, adormecia ao meu lado e eu tinja de o acordar, abanando lhe o braço:
-- olha agora, olha agora!
Ontem, porque o Tejo não estava para pescas, vim para casa e quando cheguei toda a minha familia viva dormia.
Acendi a televisão estava a dar uma granda coiboiada na Fox. O Homem Sem Rumo, um filmaço do caraças, do King Vidor. Um hino à liberdade e à resistencia contra os poderosos e representados no arame farpado. Fiquei a rever.
Foi então que meu avô lá de onde está a descansar, veio sentar-se ao meu lado para assistir ao filme comigo. Estivemos os dois até às tantas
Sempre que eu estava prestes a adormecer, o meu avô Zé abanava-me o braço e dizia:
-- olha agora, olha agora!
Gostei muito do filme e da companhia.
Já tinha saudades de ver uma boa coboidada.
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Sessenta Verões
Conheci a Mariana em 1953, numa terça feira, na sala de matematica do Liceu Nacional de Faro. Tinhamos dez anos e passava das oito da manha.
Era o primeiro dia no liceu mas o comboio que me levou Olhao, decidiu atrasar-se. Corri e entrei pela primeira porta que vi aberta. Procurei a sala 3...Pentei a franja e com a coragem dos resignados, bati e esperei.
-- Entre.
Entrei e vi-a. Vi a Mariana mais uma turma de meninas da minha idade e uma professora que depressa me corrijiu o erro. Aqui era a seccao feminina, tinha de sair para a rua, dar a volta ao edificio e entrar por outra porta. Tudo isto me foi dito em tom de raspanete. Eu muito ao longe porque toda a minha atençao, interesse e sentidos foram sugados pelos olhos escuros da Mariana.
Ela era de muito longe lá da serra, para os lados de Alcoutim. Mais tarde fiquei a saber que estava a morar com a familia de um senhor chamado Alfredo que era chefe de qualquer coisa na Camara de Faro. O funcionario e a esposa eram devotos catolicos e tinham uma filha da nossa idade, a Maria da Luz. O padre Saraiva que tinha estado em Alcoutim, conhecia a Mariana e a inteligencia da menina e por isso convenceu o Alfredo e a Dona Gloria a aceitarem em casa a Mariana para que a menina pudesse estudar em Faro no liceu. A familia da Mariana, proprietarios de algumas terras na serra, nao tinham muito dinheiro, mas quinze em quinze dias faziam chegar um carregamento de generos alimenticios que suplantavam largamente o consumo da pequena.
A Mariana era magra e seca como os serros à volta do Guadiana. Um sorriso cheio de luz e uns olhos que se riam mesmo quando ela nao se queria rir...
Quando conheci a Mariana em 1953, conheci tambem o Luis. Meu melhor amigo do liceu e companheiro de aventuras.
Desde aquela manha de outubro de 53 ate ao ano fatidico de 1958, todos crescemos juntos. Eu, a Mariana, o Luis e a Maria da Luz.
Hoje sei que foram os melhores cinco anos das nossas vidas.
A nós cresceram-nos quase bigodes e a elas cresceram as maminhas. A nós cresceram as pernas e os braços para nadar quando nos baldavamos às aulas. A elas cresceram as nadgas para nos enloquecerem quando dançavamos nos bailes da sede do Farense.
Quando em outubro o Luis fez 15 anos o pai deu-lhe ordem para fumar e ofereceu-lhe uma chata. No primeiro sabado, saimos os quatro no barco pela ria com as raparigas clandestinas. Atravessamos a ria e aproamos à praia. O paraiso prometido em bilhetes ousados escritos nas folhas de caderno e segredinhos no saguao dos predios abriu-se quase em simultaneo para os quatro. Dois a dois, sem misturas nem confusões, que estavamos nos anos 50.
Esse foi o inverno mais quente da minha vida. Sempre que nao chovia iamos os quatro para a ilha dos amores.
Seguia com a Mariana por entre as dunas e os arbustos rasteiros até uma cama de areia branca onde descobrimos juntos e felizes o jogo de amar.
As vezes ouviamos a Luz e o Luis. Imagino que tambem eles nos ouvissem a nós. Todos ouviamos o mar.
Quando chovia, coisa rara, ficavamos no armazem onde estava o barco.
Nesse ano, eu,a Mariana e a Luz preparamos-nos para o exame do 5° ano, com sessoes de intenso estudo. O Luis que em março já tinha decidido ficar no quinto ano outra vez, mas solidario no esforço, em imprescindivel no jogo a pares, tambem ele participava no estudo.
Em maio, pela pascoa, a Luz começou a engordar.
Ao mesmo tempo começaram os enjoos..
O Luis e a Luz estavam grávidos. Nalguma tarde de final de inverno a coisa acontecera.
O Alfredo da Camara dizia que matava. A Maria da Luz chorava e a Dona Gloria calada a pensar. Isto contou-me a Mariana que se foi esconder no quintal quando a coisa se soube la em casa.
A Dona Gloria conhecia uma parteira em Vila Real que fez o desmancho. O exame do quinto ano estava marcado para quarta-feira dia 4 de junho. No domingo dia 1 de junho, dia da crianca, a Maria da Luz foi abortar.
A coisa correu mal e a Luz sangrou durante dois dias. Trouxeram-na para Faro na manha de segunda-feira. À tarde veio o médico. Falou claro, repouso absoluto nos proximos tres dias.
E o exame?
Nem pensar em exame dizia o medico.
Mais inteligente que o medico a Mariana decidiu: o exame para as meninas era de manha e o exame dos rapazes era feito à tarde... Entao o Senhor Alfredo. Pai da Luz só tinha de escrever uma carta a pedir para a filha ir exepcionalmente ir fazer o exame à tarde porque chegaria nessa manha de Lisboa. Ela, Mariana entregava a carta em mão ao reitor e à tarde ia fazer o exame, fazendo-se passar pela Maria da Luz levando o documentos da Luz. Fazia o mesmissimo exame que tinha feito de manha com o juri das professoras, desta vez num juri de professores e numa sala de rapazes. Os professores nao conheciam as alunas por isso nao havia problema.
Assim foi.
So que a cabra da professora de matematica das raparigas era a dignissima esposa do professor de frances dos rapazes e ja o exame ia a meio, entrou a docente pela sala para levar uma sandes ao marido e imediatamente reconheceu a Mariana, sua aluna que tinha feito exame durante a manha.
Chamaram o reitor. O reitor, zangado por ser incomodado, chamou o policia. O policia,sem saber o que fazer, chamou o conissario. O senhor comissário, sem se intimidar com os doutores, chamou criminosa à Mariana. porque identidade falsa é crime na republica portugesa.
A Mariana foi expulsa do liceu e voltou para Alcoutim.
Nunca mais a vi.
A Luz ficou esse verão em casa, recuperou mas não teve filhos. Foi trabalhar para a loja de uma tia em Lagos e casou-se com um ingles mais velho que tinha um veleiro.
O Luis desistiu de estudar e continou o negocio do pai com traineiras.
Eu fui trabalhar como escriturário na CP.Saí de Olhão, vim para Santa Apolonia e cheguei a chefe de seccao.
Casei, tenho dois filhos e tres netos. Vivo na Amadora e estou viuvo ha dois anos. Nao durmo as noites porque fico acordado a sonhar com a Mariana.
Se por acaso a virem por aí, digam que o Artur gostava de se encontrar com ela, para tonarmos uma cafe ou coisa assim. Afinal só passaram sessenta verões.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
Quando o sporting joga fora
Trabalhavam as duas na secção de recuperação de crédito. Tinham a mesma idade com diferença de 3 dias, uma nascida a 5 a outra a 8 de Fevereiro. Começaram novinhas no banco mais ou menos ao mesmo tempo. A vida fê-las colegas e elas tronaram-se amigas. Depois, porque foram educadas para isso, uma delas casou-se com um rapaz que trabalhava nas finanças, e a outra, um ano depois casou-se com um moço sargento da marinha em permanência no Alfeite. Uma delas católica quase quase praticante, tinha sido catequista e tudo. A outra menos praticante, mas igualmente conservadora filha de um gnr e de uma senhora jeová. Escolherem maridos do tipo bom moço trabalhador, moderadamente ciumentos e luso-machistas sem excessos.
Os maridos tornaram-se também eles grandes amigos.
Por alem das esposas trabalharem no mesmo sitio, os rapazes tinham em comum um grande amor ao sporting. Ambos sócios encartonados com cotas em dia. Assíduos nos jogos a puxarem um pelo outro assim como puxavam pela equipa.
Vieram as crianças: dois meninos gémeos com a trombinha do sargento e uma menina que era a alegria do gajo das finanças. As gravidezes quase simultâneas aproximaram ainda mais as duas amigas.
Os dois casais começaram a passar ainda mais tempo juntos. Juntavam-se todos os fins de semana. Quando o sporting joga em Alvalade jantam no sábado e no domingo eles vão os dois à bola e elas ficam juntas em casa, porque não são de sair. Quando o sporting joga fora, eles vão no sábado e elas ficam com as crianças alternadamente na casa de uma da outra. Um domingo em Alvalade, o outro domingo em viagem por este imenso pais de futebóis. Os homens chegam ao final do domingo, eufóricos ou lamentando arbitro, a equipa o presidente... Depois eles ficam a ver os comentários na televisão e elas arrumam a cozinha. Moram a dois quarteirões de distancia.
No segunda-feira voltam a encontrar-se as duas na copa, para beber café e arrumar no frigorifico pequenino, as caixas de plástico com o almoço que partilhavam.
A coisa é assim há mais de quinze anos.
Até que um dia, uma quinta-feira de manha, estava eu na garagem do banco entretido a ler a bola quando desceu o Senhor Gonçalves responsável pela logística e chefe da manutenção, por isso meu chefe. Vinha de cenho fechado e sem dizer bom dia perguntou logo de mau humor:
Não tem nada para fazer? A manutenção deste edifício está em pausa?
-- Senhor Gonçalves, estou a espera que cheguem as tomadas para ir substituir la em cima na administração... devem estar ai a chegar.
Respondi modesto mas rápido, afinal de contas, trabalhava na manutenção há tempo suficiente para ter sempre umas cuecas de aço vestidas quando o chefe chega de mau humor...
-- Olhe homem, vá mazé lá a baixo à subcave onde temos o arquivo-morto e veja la o que se passa com a luz, porque já se mudou a lâmpada e não é da lâmpada...
O arquivo morto estava sem luz há três semanas. Tínhamos ficado e substituir toda a infraestrutura elétrica no próximo mês de agosto. O cabrão do Gonçalves sabia isso muito bem... Mas chefe é chefe, dobrei o jornal e fui.
Desci pelas escadas para fazer tempo e com a lanterna grande na mão. Agora é que lhes deu a pressa!!! Abri a porta com um encontrão, zangado de estarem a inventar coisas para me mandarem trabalhar. Foi então que as vi.
No canto entre prateleiras cheias de dossiers. Estavam as duas despidas da cintura para cima. Abraçadas, uma com a mão direita debaixo da saia da amiga que tinha as cuecas junto aos sapatos de médio salto. A outra com os cabelos soltos e a cabeça deitada para trás.
Ficaram tão chocadas quanto eu. Ou melhor ficaram mais chocadas que eu...alem de chocadas, encadeadas pela luz da lanterna e gelaram pela travagem brusca na auto-estrada amor que seguia em excesso de velocidade.
Sai tão depressa como entrei.
Fui chamar o elevador que se chama monta-cargas porque é maior e menos limpo. O monta cargas demorou o tempo suficiente para que elas chegasse ao pé de mim.
--Não vi nada. E têm a minha palavra que vou guardar o segredo do que não vi.
Guardei. Não falei disto a ninguém. Entre nós os três cimentou-se uma profunda amizade e respeito mutuo.
Ficamos amigos até eu me reformar do banco.
Mas brincadeiras à parte, digo-vos uma coisa: eu sabia sempre que o sporting jogava fora pelo despertar do leve sorriso de satisfação nos rostos sério e contidos das duas amigas.
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
O bichinho filhodaputa
Há um bichinho filhadaputa que se mete nas fendas do peito e fermenta nas fendas do corpo, chama-se amor e serve a humanidade.
Quando o Fonseca acabou o ato físico de amar, abraçou-se ao corpo da Lúcia. O quarto da pensão promovida a motel, pareceu-lhe ser um lar. Nesse preciso momento, sem que se apercebesse, a mulher com quem estava casado, passou à condição de ex. E foi então, que aquela que até ali era a outra, impulsionada pelo bichinho filhadaputa que é o amor, subiu de estatuto e passou a ser a sua. Naquele dia, à hora de almoço, o caso que era apenas um caso, deixou de ser um caso. Duas semanas depois daquele êxtase controlado entre a saída para o almoço e o café na copa, o Fonseca sairia de casa com duas malas e um entendimento mais ou menos resolvido com a mãe dos filhos, sobre dinheiro, educação das duas meninas e propriedade da casa hipotecada ao banco. Passariam dois meses e a Lúcia, seria assumida como namorada. Menos de um ano depois do encontro furtivo, estariam a viver juntos. O bichinho filhdaputa do amor, iria empurra-los um contra o outro como as pessoas são empurradas e apertadas nos autocarros às seis da tarde. Mas os amantes, àquela hora e naquele lugar, não sabiam de nada disso.
Enquanto o Fonseca lhe beijava os ombros nus, ela deu-se conta que ao contrário do que era habitual nele, depois da função cumprida, não se levantou para ir fazer xixi.
A Lúcia, aperceber-se dessa mudança assustou-se. As mulheres são mais sensitivas e percebem melhor as movimentações do bichinho filhadaputa que é o amor. Por pressentir o amor a instalar-se gelaram-lhe as costas e ela enroscou-se em si própria abraçando os joelhos a pensar que podia coordenar a secção de processos. O Fonseca abraçou-a e sentiu-se protetor e gostou. De olhos abertos, fitava uma mancha de bolor no abat-jour do candeeiro da loja dos 300, e o bichinho filhadaputa do amor, a abancar-se silencioso dentro dele. Estes minutos do pós coito, de cabeça vazia eram uma ginástica mental, uma ioga da hora de almoço... Espaço aberto para quebrar regras numa existência regrada e focada em objetivos. São estes espaços de cor e luz, precisamente os mais propícios para o bichinho filhadaputa do amor se desenvolver...
O caso deles começou com uma proeza que o discreto Fonseca exibia a si próprio: a conquista do cobiçado rabo redondo da Lúcia. Para Lúcia era a junção agradável de uma necessidade fisiológica com a hipótese de incrementar a sua pontuação no complicado sistema de avaliação de desempenho. Passou a ser para os dois, um momento de escape diário.
Naquele dia o Fonseca percebeu que afinal havia ali mais qualquer coisa do que uma mancha secreta de prazer na sua existência de fatos cinzentos, registos e assinaturas. Sem perceber bem porquê abraçou-se a essa coisa como um naufrago se agarra a uma boia ou um cão abandonado se apega a quem lhe der comida. Por isso, naquele inicio de tarde, sem saber dos efeitos secundários do bichinho filho da puta do amor, o Fonseca, persistia agarrado às costas da Lúcia que tinha noção que se ia atrasar, mas tinha a certeza absoluta que chegaria antes do chefe.
Um carro buzinou na rua. Ele despertou da sua letargia e beijo-lhe a nuca. A Lúcia sentiu um beijo como um sinal da hierarquia para avançar com o processo: levantou-se, limpou-se com as toalhitas de aloé que tinha na mala, vestiu-se, beijou-o e saiu. Ele deixou-se ficar deitado mais três minutos contados no relógio que fez pipi, sem pensar em nada, apenas a padecer da febre do bichinho filhadaputa. Depois foi urinar, vestiu-se, agitou a gravata, pagou a pensão e voltou digno para a companhia.
Meia hora depois, no escritório, os olhares deles cruzaram-se e ela disse:
– Doutor Fonseca, vou lá a baixo a tesouraria, precisa de alguma coisa?
– Deixe estar Lucia, vou descer consigo que tenho de falar com o Doutro Ferrão.
Desceram juntos no elevador cheio com mais três colaboradores engravatados e uma senhora de uma empresa externa que fazia as limpezas e empurrava o carrinho e que era invisível para os outros cinco. Apensar do elevador sobrelotado, os amantes sentiram-se sozinhos no mundo. Lado a lado. As suas mãos tocaram-se. Sorriram para si mesmos e a vida continuou com o bichinho filhadaputa a fazer das suas.
Ela continuou trata-lo por senhor doutor e ele continuava a pedir-lhe as fotocopias “por gentileza” mas entre os dois uma ponte feita de cuspo do bichinho filhadaputa do amor cresceu como os formigueiros em Africa. O que antes era apenas tesão, vaidade, e empenho na progressão da carreira, evoluiu mais qualquer coisa que não se sabe muito bem o que seja e que logo a começar por isso mesmo é muito melhor do que as coisas que se definem facilmente, se medem e se podem indexar.
Viveram felizes para sempre durante cerca de dois anos. Então o Fonseca foi promovido a diretor de sinistros e a Lúcia coordenadora da secção de processos. A vida, o trabalho e o igualitarismo dos dias, enxotou o bichinho filhadaputa. A Lúcia reencontrou no facebook o David Santos seu ex-colega de liceu que voltou do Luxemburgo para abrir um stand de carros importados semi-novos. O Fonseca andou uns meses amargurado e revoltado com a facilidade com que se transferem as matriculas. Passou-lhe a revolta e voltou para casa da mãe das filhas no dia em que viu em que a ex-mulher lhe deixou as meninas em casa para para sair maquilhada com as colegas professoras. Ele ficou com as miúdas e o bichinho filhaputa instalou-se devagar. Meses depois voltava para a casa onde viviam a ex e as filhas, que de todas as formas nunca deixou de ser ele a pagar a hipoteca.
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