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quinta-feira, 26 de março de 2020

Velhos sem medo da pandemia

Dizes que já nasceste sem medo. 
Que a morte não te pega porque sabe que não tens medo. 
 Que não tens medo da morte que te levou pais e irmãos ainda não tinhas dez anos. Lembras dos Invernos eternos dos anos quarenta descalço e com uma sardinha cozida a dividir por três. Dizes que não tiveste medo do frio nem da fome. Dizes que não tens medo das coisas certas. Que nunca tiveste medo nem da morte nem do trabalho. 
Lembras-te dos bufos dentro da fábrica e dos encarregados lambe-botas e dizes que nunca tiveste medo de nenhum deles. Lembras-te da PIDE a farejar na esquina e da GNR a varrer a cavalo pela rua. Dizes que nunca tiveste medo nem de uma nem da outra. 
Lembras-te de começar a guerra lá nas colónias e de te terem mandado combater, matar e morrer pelas riquezas dos outros. Dizes que foste, que viste a morte debaixo do teu pé direito e que a calcaste com a bota da tropa. Dizes que a morte desistiu de te matar e por isso voltaste inteiro sem medo. 
Lembras-te da revolução e de quando diziam que estava um porta-avioes dos americanos no Bugio pronto a atracar na Fonte da Telha e arrasar a península de Setúbal e acabar com isto tudo. Não tiveste medo do porta aviões nem dos americanos nem dos boatos e aos sábados ias ajudar na reforma agrária sem medo.
Lembras-te do 25 de Novembro e quando outros fugiram como ratos foste dos que ficaste até ao fim, disciplinado e disposto ao que fosse preciso, porque não tiveste medo. 
Quando nos anos oitenta te começaram a meter medo com a crise e a acenar com meia dúzia de contos para saíres da fábrica, tu não tiveste medo, mandaste os gajos porém o dinheiro na peida e ficaste até ao fim.
Quando o médico te descobriu a mancha nos pulmoes causada por décadas a respirar o bafo da indústria química misturada com o sg gigante diário ... Falou-te no cancro e quis-te meter medo. Tu mudaste de médico, enganaste o cancro e continuaste a fumar. Sem medo. 
Hoje vi-te a tentar a sorte enquanto raspavas um cartão colorido a ver se te saía alguma coisa. 
Falei-te no bicho e mandei-te ir para casa. 
Tu disses-te que não lhe tinhas medo. E voltaste a falar-me na GNR, na PIDE, na guerra e no cancro que não te mataram. E disseste que não tens medo ao bicho. Que a ti não te pega. Que nem as doenças venéreas te quiseram nem a tuberculose que habitava na miséria que te matou a infância. 
Fiz o que tinha a fazer. 
Educadamente, com o respeito e carinho que me mereces, e de forma a tu compreenderes, disse-te: 
-- Olha lá velho de um cabrão, meu teimoso da merda, gostaste dos resultados das últimas eleições? Gostaste? ... Então vai para casa para poderes votar nas próximas. 
E tu, surpreendentemente, foste .

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Cães de espeto

Isto de virar frangos é coisa ibérica. Os europeus a sério, os do norte, há muito que inventaram os espetos rotativos. A peça de carne, ao rodar sobre as brasas ou metida num forno às voltinhas, deixa o assado muito mais homogéneo e permite guardar os sucos da carne. É por isso os ingleses criaram mecanismos complicados de rotação das peças de carne em espetos garantindo num assado lento e de rotação continua, uma degustação cinco estrelas. A chatice era estar ali a dar à manivela sempre a mesma velocidade durante horas seguidas, pois quanto mais lento é o assado, mais saborosa fica a carne... Os ingleses do renascimento, os ingleses ricos, entenda-se, tinham em casa umas gaiolas pregadas à chaminé com umas rodas grandes, tipo daquelas dos hamsters, mas com um metro de diâmetro onde punham cães a correr para rodarem a carne... Desenvolveu-se mesmo uma raça de caes especialistas nesse trabalho, que são os antepassados dos teckel, vulgarmente conhecidos pelos salsichas, cães de caça alemães descendentes esses canitos de pernas curtas e corpo comprido, adaptados para a roda do espeto. Mais tarde, já no século XVII, algumas casas inglesas, substituíram-se os cães pelos gansos. Menos inteligentes que os cães, não se escondiam ou fugiam, quando chegava à cozinha carne para assar. Os gansos eram mais lentos na roda, não davam tantos problemas como os cães. Na colónia norte americana, a introdução dos gansos não foi tão bem recebida, e nos estados americanos, sobretudo da costa leste, qualquer burguês que se presasse tinha na cozinha uma gaiola com dois ou trâs cães de porte pequeno, especializados na roda do espeto. Os cães ficavam fechados na jaula e quando saiam, já se sabia que era para assar a carne. Quando os estados unidos, entraram na modernidade, deixaram de ser uma colónia, tornara-se independentes, assinaram uma constituição e exterminaram os índios, mas continuaram a ser os cães a assar-lhes as peças de lombo. Entretanto apareceu o Henry Bergh, um cavalheiro que era empresário e embaixador, e que viveu cheio de boas intenções. Na sua carreira de diplomata, conheceu em Londres uma organização que tinha sido recentemente criada: Sociedade Real da Inglaterra para a Prevenção da Crueldade contra os Animais. Quando voltou lá à terrinha dele, o Bergh propôs à Assembleia Legislativa do Estado de Nova York o reconhecimento da Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais. Isto aconteceu em 1866 no ano a seguir ao final da guerra civil. Esta associação que ainda hoje existe, foi quem fez aprovar uma das primeiras leis contra a crueldade sobre animais no mundo. Foram este activistas ligados ao Henry Bergh quem exigiu pela primeira vez a criação de ambulâncias para cavalos feridos e quem mais violentamente se manifestaram contra a utilização de cães nas cozinhas e rodas de espeto. Fez-se mesmo uma campanha contra os cães de trabalho nas cozinhas dos restaurantes. O Henry Bergh dominava bem as relações com a imprensa que fez com que pouco a pouco se deixassem de usar cães nas cozinhas para assar carne. Esta sociedade de protecção dos animais fazia visitas surpresas aos restaurantes e se verificasse que tinham cães nas cozinhas a fazer rodar os espetos, os jornais denunciavam a situação e o pessoal da defesa dos animais fazia campanha para que o publico boicotasse os restaurantes em causa. Finalmente, por volta de 1870, foi aprovada uma lei e os restaurantes e deixaram de usar cães nas cozinhas. Com o fim da guerra civil chegaram às grandes cidades do norte, dezenas de milhares de famílias que vinham dos campos do sul, agora arrasados. Pessoas que tinham sido escravizadas e chegavam sem nada de seu, em vagas, em busca de trabalho e um sitio para dormir. A lei contra os maus tratos dos animais pressionou os restaurantes, mas foi a economia com os seus argumentos de marreta esmagaram a questão: ficava mais barato ao dono do restaurante contratar crianças negras e pagar-lhes com os restos da comida que sobrava, do que ter gaiolas e cães a rodar o espeto! Os cães a trabalhar nas cozinhas passaram definitivamente a ser coisa do passado. A primeira lei contra o trabalho infantil nos estados unidos foi aprovada em 1938.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Maia datcha

Aqui há umas duas semanas tive uma reunião de trabalho num daqueles edifícios antigos e remodelados da Graça. Fantástica vista sobre o rio e margem sul. Mesmo por cima da estação de Stª. Apolónia. Atravessei o rio cedinho e decidi-me por andar até à estação de comboios que era ponto de encontro marcado. O sol de finais de Julho por volta das oito da manhã ainda não queima e Lisboa de manhã convida ao passeio. Cruzei o Jardim do Campo das cebolas na direcção à casa dos bicos. Entre duas palmeiras crescidas e protegida pelos contentores do lixo ficou organizada a instalação – arte pós moderna: Um carro de supermercado cheio de garrafas vazias. A estrutura que resta do que foi um aparador de sala. Uma mesa de esplanada da em plástico branco com uma perna partida. Caixotes de papelão dobrados a fazer de cama e um cobertor imundo em cima. Sentado sobre uma lata de tinta vazia estava um eslavo enorme com uma bebedeira ainda maior que ele.  Descontente com a organização do mobiliário urbano, empertigava-se um policia. Indiferente e à espera, uma equipe de trabalhadores câmara de Lisboa. Pressionado pelos taxistas e na insegurança dos seus vinte anos e estatura mediterrânea o jovem policia com sotaque do porto que disfarçava, tentava impor respeito ao gigante russo: -- Bamos lá a desocupar a bia que as funcionarias camarárias querem fazer o trabalhinho delas!!! As três senhoras fardadas de verde da CML falavam entre si em crioulo e assistiam à cena como se fosse uma telenovela. O russo fingia que não ouvia o bófia e ia-se rindo... Por insistência dos taxistas, lá abandonou o seu posto permitindo às empregadas da limpeza armadas de ancinhos arrancarem a merda de pombo à relva do jardim!!! O policia impressionado com a insolência do russo que se foi sentar num dos bancos do jardim a despejar um pacote de vinho pôs-se na conversa com os taxistas. Um fogareiro dos mais velhos, desabituado de ter a autoridade tão próxima sem ser para passar multas, ia comentando: -- Olhem para isto, até tem limpeza ao domicilio de borla!!! Casa com jardim , vista para o Tejo, um policia a fazer segurança e três pretas para lhe limparem o jardim. Parece um ministro!!! É para isto é que eu ando a pagar impostos!!! Solidário com a gargalhada geral dos taxistas e do bófia, o russo respondeu; -- Eta maia datcha bled, eta maia datacha!!! Como nem o policia nem os taxistas percebem russo continuaram com as gargalhadas de sarcasmo. -- O russo traduziu: é minha casa de campo, pá, é minha casa de campo!!!! Todos rimos. Com esta ideia de casa de campo do mendigo eslavo segui para o meu trabalho deixando os taxistas mais o policia e as jardineiras a rirem ao sol... À medida que a manhã foi aquecendo a gravata foi sufocando. À minha memória voltou várias vezes o russo bebado e sorridente. Com a subida da temperatura à hora de almoço, desenvolvi uma inveja furiosa do russo privilegiado que acorda para beber!!! Com esta ideia politicamente incorrecta e com ganas de auto agressões hepáticas continuei a trabalhar o resto do mes para pagar ao banco a hipoteca da casa onde moro. Mas há uma vozinha dentro de mim que me manda correr para a casa de campo em frente à casa dos bicos. Sinto uma vontade persistente de ficar a embebedar-me com vinho ordinário. Despir a camisa e ir respondendo em russo aos sarcasmos dos policias e dos fogareiros e ficar deitado no banco de jardim a desfrutar do sol de Lisboa.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Tempero para a isca

Estava calor e humidade. O ar cheirava a gasóleo, a mar, a estufa, a lixo e a fruta podre. As baratas do tamanho de pardais, voavam à volta do candeeiro da rua que iluminava e o grelhador improvisado numa lata com a luz amarela. Na cozinha que dava directamente para a rua, a mulher do amigo preparava o funge e de tomate picado com cebola e gindungo. Nós vigiávamos a galinha no churrasco e emborcávamos minis tiradas de um bidon com agua e icebergues do tamanho de melões. Éramos os dois convidados da dona da casa, uma mulata gorda, cunhada do meu amigo e irmã mais velha da sua mulher. Desde quinze anos quinze anos que toma conta dos irmãos. Aos vinte já tinha o peso e a postura das matriarcas africanas. Fala calmo e severa e toda a gente à volta naturalmente lhe obedece. Preparava-se para sair. Tomou banho e o seu perfume chegou-nos antes de a ouvir falar claro: -- Vou no aeroporto buscar o Elias. Não deixem chegar o fogo na galinha nem fiquem bêbados logo antes de chegar o Elias. Especialista diplomado em churrascos, o meu amigo respondeu: --- Vai na boa que eu mantenho debaixo de olho os dois inimigos presentes: não deixo o fogo chegar à galinha nem o branco chegar às cervejas... Partiu com uma gargalhada inesperada na sua expressão sempre severa e nós abrimos mais duas minis. --- Mas quem é o Elias que ela vai buscar? Perguntei na minha ingenuidade --- É o namorado da minha cunhada. Namoraram na infância lá no mato, daqueles namoros de putos e não se viram durante uns 12 anos. Quando foi da guerra ela deixou de receber as cartas. Depois veio a Internet e reencontraram-se. No ano passado ela foi ter com ele a Luanda. E agora, não estão mais de seis meses sem se ver... Da cozinha veio a irmã da dona da casa dar pormenores românticos à historia. Fomos bebendo e falando. Parece que o rapaz foi raptado pela Unita que atacou a aldeia onde morava... teria uns treze anos e fizeram dele soldado à força. Passou um bocado...viu matar familiares e amigos... Ficou com eles sete anos até conseguir fugir e juntar-se às Fapla. --- Então e como é que os gajos do MPLA souberam que o tipo está a dizer a verdade e não era um provocador, um infiltrado??? Um gajo que trai uma vez... Perguntei eu, que gosto de livros de espiões, enquanto fazia xixi atrás de um carro para não usar a casa de banho da casa que alem de ser longe estava imaculada. ---Não sei... mas o gajo deve estar ai a chegar e depois perguntas... Metemos o terceiro cadáver de galinha na grelha sobre as brasas e bebemos para evitar a desidratação. Não esperamos muito mais. Estavam a chegar. Ao contrario do rambo que eu esperava ver chegar, o Elias não tinha físico para apanhar duas estaladas. Negro retinto e muito magrinho, enfezado, com o peito para dentro e uns cinquenta e cinco quilos no máximo. Saiu do carro e caminhou na nossa direcção um pouco dobrado para a frente. Trazia com um bigodinho ralo e um olhar triste, uns ténis nike brancos e calças de ganga. Vinha a dançar dentro de uma camisola do Futebol Clube do Porto tamanho M que lhe ficava três números acima. A dona da casa comandou as operações: -- Fica aí com esses dois a beber uma cerveja. O preto é caboverdiano, meu cunhado e vive com a minha irmã mais nova, o outro, o pula é amigo da família e está de passagem. São fixes mas muito abusados... Vê se não começas já a ganhar os maus hábitos. Rimo-nos os três uns para os outros. Abrimos mais cervejas passamos-lhe uma gelada. -- Xii dói o dente do frio da cerveja... não tem ai menos fria?? Desabituei de beber cerveja gelada... Quando tava no mato não tinha agua quase nunca e não tinha cerveja quase sempre... Fui à cozinha e tirei uma mini da ultima grade que metemos no frigorífico. Estava praticamente morna. Voltei à rua com a garrafa na mão. Abri e dei-lha. Como sou um descarado, perguntei-lhe. -- Olha lá Elias, ouvi dizer que estiveste na mata com a unita e depois voltaste para as Fapla. Como é que convenceste os tipos do MPLA que não eras um provocador nem um espião infiltrado? Olhou para mim e sorriu o sorriso tímido que mostrava os dentes brancos regulares: -- Pois não foi fácil. Mas eu fiquei firme. Sete anos até ter a confiança dos chefes, só faltava conhecer o Savimbi. E quando eles já confiavam tudo em mim, eu trouxe uma patrulha de doze para perto de um quartel dos nossos capturei eles. – Capturaste doze homens armados sozinho? – Sozinho não! Foi com a ajuda do feiticeiro que eles tinha que também não queria ficar e eu disse nele que nas Fapl pagavam mais no feiticeiro ! Então o kimbanda fez um chá com raízes para por na comida, que pôs todos eles para dormir. Depois nós dois, foi só amarrar eles. O bruxo ficou a tomar conta dos inimigo e eu fui chamar as Fapla. Quanda as Fapla chegou mandou eu mais o bruxo matar todos para mostrar que não éramos traidor. E nós mandamos eles cavar um buraco assim de grande (os braços abertos envolvendo a enormidade do buraco) sentamos eles lá dentro a dizer que tinha de ficar a espera do transporte que os levava para a prisão em Luanda para serem trocados por outros prisioneiros.. com duas granadas matamos e enterramos todos no mesmo tempo!!! Ficamos em silencio com o pragmatismo e a simplicidade da resposta. Só se ouvia a gordura da galinha a chiar nas brasas. Para desanuviar o meu amigo perguntou: -- E esse feiticeiro que estava contigo? Agora também está em Luanda? -- Não. Eu chamei ele para falar comigo no mato, ele veio e eu só matei ele. Eu matei ele logo mesmo. Era um feiticeiro ruim. Vi fazer muita coisa má, tinha de matar mesmo! Era um Quimbanda do Zaire. Dei tiro nele. E com a faca do bruxo cortei o pescoço dele para separar cabeça do corpo, abri todo ele para tirar o fígado e comer, tinha que comer-lhe o fígado para tirar-lhe a força!E te digo maninho, este era um bruxo mau mesmo! Tinha no fígado muito amargo, muito amargo, muito amargo. Teve que levar bué da sal e bué de gindungo... Vocês não sabe, mas eu explica. Eu sabe dessas coisas que eu sou do mato. Quando é uma pessoa é boa o fígado não sabe amargo, sabe bem, como fígado de gazela que não tem maldade.. Quando é uma pessoa má o fígado é muito amargo amargo mesmo. Porque a maldade e a força da pessoa estão no figado. Eu tinha que comer o fígado dele se não o espírito dele ia me empatar a vida e vinha na minha traz para me fazer mal! Voltamos a ficar em silencio, não consegui dizer nada. A dona da casa, chegou sem avisar, descompôs-nos aos três por estar a deixar queimar a galinha e levou-nos em coluna para mesa. Na sua autoridade de metro e meio, avisou logo que não queria conversas nem de guerra, nem de politica ao jantar. O Elias, obediente, ainda antes de se sentar perguntou entusiasmado: --- e o Engenheiro Pinta da Costa continua sendo o presidente do Porto, verdade? Sem pausas e com o mesmo sorriso tímido prossegue com um verso: Carne de galinha é boa, carne de vaca também, mas a melhor das carnes é a carne que agente chama e ela vem!!!! Rimos todos. E a sua gargalhada escancarada e sincera afastou definitivamente todos os espíritos malignos e todas as memorias de guerras passadas e futuras. As mulheres riram da piada que interpretaram como brejeirice de quem tem fome de amor de namorada. O jantar continuou animado e não voltamos a falar de guerra nem de politica. No dia seguinte, segui viagem e não voltei a ver o Elias. Mantive-me vegetariano durante quase uma semana.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Jamaica

Já se adivinhava... Nas últimas vezes que passei pelo Cais e vi aqueles betos todos de aquário na mão, a beberricarem gin onde só falta o peixinho vermelho, percebi que o Cais do Sodré já não era ali... Partiu para outro lugar. Dizem que vai fechar o Jamaica. É tanga. O Jamaica é eterno. Uma vez os americanos mandaram um exército invadir o Jamica e levaram na boca.,. Agora vem estes bacanos da taimeaute com ideias... Nem pensar. Uma noite no final da primavera de 1991, estiveram quase a invadir o Jamaica. Um porta-aviões americano ancorado no Tejo despejou no Cais centenas de marines a caminho da guerra do golfo. A coisa começou com uma troca de palavras entre um casal de lésbicas e um americano bêbado que não conhecia as regras da educação. Como o gringo não sabia como falar com senhoras, as senhoras viraram bichos maus e ensinaram-lhe. Os amigos do gajo quiseram interromper a lição. Vieram os porteiros, dois armários negros deste tamanho para pôr os camones na Rua. Os armários eram grandes mas os americanos eram de muita arrumação e não queriam sair. O resto do pessoal ajudou na expulsão. Sei que foi assim porque estava lá e vi. A porta fechada e cá fora o grupo dos camones cresceu aos pontapés. Vieram as putas, os cientes e os gandins mais os porteiros do Texas. Ninguém chamou a polícia mas eles apareceram também. Juntaram-se mais gringos e estava o caldinho armado. Foi até de manhã. Pela primeira e única vez polícias, ladrões, chulos, prostitutas, comerciantes, porteiros, barmens e notívagos, todos lado a lado. Todos do lado certo. Muralha de aço abençoada pelo Santo António que é padroeiro de Lisboa e aparentado com o diabo. Até o vendedor de jornais participou com a tranca do quiosque na mão a enxotar marines. Todos contra os americanos. Das noites mais lindas da minha vida. Com pedras da calcada, cadeiras e garrafas de sagres pelo ar. Pareciam pássaros a voar contra os invasores. Aquilo era bonito. Durou até de manhã com os marines a retirarem pela 24 de Julho direcção a doca da Rocha. Épico. Lavei as mãos e a cara na estação e apanhei o primeiro barco para o Barreiro de coração cheio percebendo que pertencia a um povo de heróis. Tenho a cicatriz de um corte na minha mão direita como recordação permanente dessa noite e do Jamaica. Para sempre. Podem demolir o Jamaica. Talvez seja melhor assim! Mas os americanos não entram!

Empreendedorismo Lisboa South Bay.

Ó Orelhas anda cá ver isto. Hoje porque é sexta-feira, a santa, a malta vai jantar. Marisco. As amêijoas mais mirradas que não conseguirem vender vão acabar à mesa de quem escarafunchou no lodo para as apanhar. Ó Orelhas anda cá ver e perceber como é o empreendedorismo no Barreiro, que quando a fome rosna nos calcanhares de um homem, a malta faz-se à maré. Seja proibido ou não. Ó Orelhas anda cá ver os mafiosos em carrinhas a comprar por tutimeia o que se arrancou ao rio. Anda ver marisco pribido ser levado para espanha. Vem cá Orelhas, vem apanhar a baixa mar das seis da manhã. Entrar no rio as cinco e comecar a andar na direcao das luzes de santapolonia. Anda cá Orelhas, anda meter-te no lodo até meio das pernas. Beter os dentes com o frio que te deixa os teus famosos abanos roxos. Anda dar voltas e mais voltas com o chalavarro. Deixa que o nevoeiro te envolva até que nem a puta da ponta do cigarro ves debaixo do teu nariz. Dá mais umas voltas enleado no saco de rede. Depois olhas para cima e já não sabes para que lado é o clube naval nem para que lado é Lisboa. Anda lá Orelhas, faltam ainda umas quantas macheias para encher o balde e a maré tá a subir. Agora Orelhas, tens de correr para fugires ao rio que sobe. Vá Orelhas que é a parte mais perigosa em que um gajo vem carregado e cansado e qualquer erro é fatal. Anda Orelhas, negociar a um, um e vinte, um e trinta o quilo de amêijoa. Leva o balde pra carrinha com os dedos congelados e as galochas a fazer xapxap. Anda contar o pagamento. Senta-te a fumar na muralha mas nao fiques a pensar nos que não voltaram da maré e nos que o rio levou pro mar. Fuma sem pensar Orelhas. Se a teca foi boa podes ate beber um copo. Só depois da praia mar empurrar para casa todos os mariscadores, ai sim, podes encher a boca para falar de como o desemprego é uma excelente oportunidade.

Elogio da Mentira

O ELOGIO DA MENTIRA O Pedro e o Miguel eram amigos. Mas amigos a sério. Do peito. Amigos de copos e da vida. Viviam ambos no Barreiro e noite sim, noite sim saiam para viver e desfrutar ter vinte e tal anos. Não me lembro, nem isso interessa para a história qual deles conheceu a Cintia primeiro. Nem qual deles a primeiro levou para a cama. A Cintia era uma morena trintona, baixinha com o rabo e as mamas de um tamanho acima do resto do corpo, uma boca carnuda que dava vontade de dar dentadas e um nariz entre o arrebitado e o abatatado. O certo é que ambos os amigos se envolveram com a Cintia. E era bom para os três. O Miguel e o Pedro, amigos e confidentes depressa articularam um sistema de escala e de encontros e substituicoes. De sinais e rituais, que ambos conheciam e que a Cintia ignorava. A Cintia enganava os dois. E os dois enganavam a Cintia. Havia muitas coisas que a Cintia desconhecia sobre a amizade. Havia muitas coisas que a Cintia ignorava, porque de génio, não tinha nada, a não ser o mau. O mau génio, entenda-se. Mas como dizia o Miguel, quando estavam juntos não lhe pedia ajuda para fazer exercícios de matemática. Nem para falar dos efeitos da perestroika na economia russa, acrescentava o Pedro. A Cintia, ria e sorria feliz porque acreditava que encornava os dois amigos. Cerrava os olhos empurrava as maminhas generosas para cima e punha a lingua de fora mordida entre os dentes brancos. Os dois amigos, felizes na partilha dos prazeres da vida, que é a melhor forma de celebrar uma amizade. Claro que tinham regras e formas. Porque a boca da Cindia era carnuda com uma lingua que se metia onde nao era chamada, as vezes em lugares impróprios, estabeleceram ambos como habito permanente de higiene oral dar-lhe de beber ( o ideal seria faze-la bochechar) quantidades navegaveis de vodka. Eram os tempos em que a absolut entrou no mercado das bebidas e arrazou com as outras marcas. Encontravam se, as vezes os três, um deles partia e o outro pedia vodka ao balcão. Com gelo e mais nada. A Cintia sorria e beberricava molhando a ponta da lingua na bebida transparente e minutos depois a magia acontecia. A relação dos tres foi seguindo os animados dias e intensas noites daqueles anos noventa, com encontros nos bancos de trás do carro de Miguel, num armazém do qual o Pedro tinha a chave, na praia de Alburrica, no jardim dos franceses e às vezes numa pensão que funcionava por cima do café barreiro. Um dia, os dois amigos, amantes da Cintia e da liberdade, conscientes que só a verdade é revolucionária, decidiram deixar as hipocrisias e terem os três uma conversa franca. Foi feio. A Cintia sentiu-se enganada e nesse momento mostrou aos dois que de facto tinha uma lingua mesmo porca. Aos dois, mais à empregada do bar, aos clientes no balcão e nas mesas, aos vizinhos de cima, dos lados e a metade do Barreiro, porque os gritos se ouviram desde as fabricas da ufa até à baía do seixal. A coisa sujou... Tristes pela perda de um tão confortavel amor, os dois amigos beberam os vodkas de um trago e a partir desse dia, as ousadias da Cintia passaram à doce qualidade das recordações. Conto-vos esta história para fazer a defesa da mentira. Apesar da mentira ser uma senhora de pernas ligeiramente curtas e que depressa é alcançada por esse corredor chamado tempo, há vezes em que as formas arredondadas da mentira são preferiveis aos angulos abrutos e secos da verdade. O Pedro e o Miguel que o digam. Ou o Silvestre, que é o gerente de um banco e só agora entra na história porque se casou com Cintia já tarde... e que vive feliz com o passado que a lingua da Cintia não contou.

O milagre da luz

Apascentava eu cervejas e memórias quando apareceu uma senhora banhada de luz. Luz forte e amarela que vinha do candeeiro pendurado na viela. A senhora disse: --- queres vir? Por medo, vergonha, pudor e falta de dinheiro, sorri-lhe e balbuciei, qualquer coisa como: hoje não. Fica pra proxima. Cravou-me um cigarro, pegou-me na mão e retribuiu o sorriso com simpatia. -- prometes amor? Respondi gingão que não faço promessas nem me ajoelho para rezar... A gargalhada que soltou foi um grito de alegria na noite fria e triste de um Maio chuvoso. -- a esta hora se aparecer alguem que me oriente para pagar a renda vinha caído dos céus... já estamos a dia 13... Sem saber o que dizer, voltei a sorrir-lhe. Foi então que aconteceu. Aproximou-se um casal de ben-aventurados. Dois pombinhos. Novos, com dinheiro e curiosidade. Ele nuns imberbes dezoito anos e ela dois anos mais afoita. -- E voces, meus lindos, alinham aqui com a Maria? Afastei-me para dar espaço ao milagre. Subiram juntos para o céu do terceiro andar, que diz quem conhece é o paraiso na terra. Eu continuei o meu caminho satisfeito com o fenómeno da fé e lá segui a semear beatas pelas pedras da rua. Ao nascer do dia o sol dançou para mim.

A cor das hortas

À e tal as hortas são modernas e todos deviam ter uma. A pessoa ouviu isto e tal como viu na internet, decidiu reciclar garrafas pet e fazer uma horta vertical na varanda. Muito giro. A pessoa gosta da ideia. A pessoa não gosta é da horta onde o vizinho do bairro de baixo cultiva legumes para acompanhar a pobreza. A pessoa, a essa horta, já acha mal. A pessoa fica na sua varanda de três por um a achar mal. Fica a ver ao longe o vizinho do bairro de baixo a cultivar o milho e a mandioca, a cultivar os tomates, couves, alhos e cebolas. Vê às vezes senhoras com bebes às costas a bater com um pilão dentro de latas. A pessoa fica zangada com as mamas que saltam livres e cheias debaixo do pano de chita e fica ofendida com o sono tranquilo do bebe embalado pelo balanço do pilão. A pessoa não gosta de ver ao longe o vizinho do bairro de baixo fazer uma coelheira com o que foi um frigorífico estragado. Há uma raiva a germinar que lhe substitui o tédio, enquanto a pessoa, acende mais um cigarro que não fuma até ao fim. A pessoa volta para dentro para fazer zapping e gostos da face enquanto estoicamente ignora os gritos das crianças que são suas. Passam os dias cinzentos e iguais. O vizinho do bairro de baixo rega e poda a horta que fez. Dobrado sobre si mesmo enquanto fala alto e gesticula para os outros cultivadores de hortas. Falam e gritam numa língua desconhecida onde a pessoa identifica palavras. É então que a pessoa faz o mail para a junta e para a câmara a dizer que não é admissível. A inveja e o ódio crescem como os legumes da horta clandestina do vizinho. Meses de tédio e raiva contida decorrem. Ao final do dia, sentada ao volante, a pessoa pará na passadeira para deixar passar os vizinhos do bairro de baixo. Vêm das hortas com latas à cabeça vazias de tinta e cheias de legumes e frutas. Às vezes trazem galinhas a bater as asas penduradas pelas patas. A pessoa não quer saber que a horta é um terreno privado nem quer saber que o dono do terreno se desresponsabilize da limpeza do espaço que é feito pelo hortelão. Não quer saber de nada disso. É pessoa é obrigada a parar na passadeira. A pessoa comprou uma casa ali e está a pagar ao banco, mais cara do que no bairro quinhentos metros a baixo porque lhe prometeram viver em sistema de condómino quase quase fechado. Todos os meses leva a facada do banco que mal se aguenta com a prestação da casa mais a do cartão de crédito… A pessoa diariamente vê a família do vizinho do bairro de baixo, passar com um avio tirou da horta e que nem sequer pagou. A pessoa reclama do viver do vizinho do bairro de baixo e do rendimento mínimo. Reclama dos refugiados e dos transportes. Mais uma vez manda email para a junta, telefona para a câmara, e ameaça com a julia pinheiro. A pessoa indigna-se. Os dias continuam a passar. A horta do vizinho de baixo cresce enquanto os coentros e a hortelã agonizam na garrafa na varanda três por um. Domingo de manha, a pessoa foi fazer a caminhada e viu impressionada o vizinho do bairro de baixo a fazer xixi junto da vedação da horta que construiu. Na volta da caminhada estava a vizinha do bairro de baixo a esfolar um coelho sentada numa cadeira que alguém pôs no lixo. Um fogareiro aceso e uma panela grande em cima que liberta odores a óleo de palma e especiarias. A pessoa chega da cansada, suada com uma raiva surda de viver no 5º esquerdo. Carrega no botão com força. Sobe no elevador com outra pessoa clonada de si e igualmente insegura do seu suor das duas horas de caminhada. A pessoa sorri forçada um bom dia e segue em silêncio olhando para o smarphone. A pessoa queria ter uma moradia sem vizinhos e com um jardim onde pudesse ficar sentada a beber um colonial gin com colegas do escritório. A pessoa fecha os olhos do sonho da moradia e por instantes vê a imagem do vizinho do bairro de baixo a fazer xixi. -- Porcos! Desabafa entre dentes. -- O quê? Perguntou outra pessoa de vida igual à sua. -- Estes porcos das hortas. -- E a polícia não faz nada. As duas pessoas clonadas entraram nos seus apartamentos iguais e fecharam as idênticas portas reforçadas à chave. A raiva e o ódio a envenenar os almoços nas semelhantes cozinhas ikea. Bacalhau com natas do restaurante que serve para fora. E sopa feita na bimby. Na horta do vizinho do bairro de baixo o almoço foi servido à sombra do telheiro na mesa comprida feita com uma tabua que foi uma porta em cima de tijolos. Bebe-se cerveja fria tirada de um bidom com gelo. Para o almoço chegaram parentes e família. E mais amigos. E mais vizinhos do bairro de baixo. Há um radio que canta alimentado pela bateria de um carro. A festa torna-se me farra. No sofá que outra pessoa deixou há dois meses encostado ao contentor há um casal a namorar e uma senhora velhota sentada a abanar-se coma tampa de um tacho. A pessoa depois de almoço queria dormir a sesta. A pessoa fica na cama deitada a ouvir ao longe as gargalhadas das mulheres e os gritos de alegria das crianças. A pessoa não consegue dormir. Tem azia da comida de plástico. A raiva cresce porque não é podada e azeda-lhe o estômago. E o ódio aumenta-lhe nas veias. A pessoa levanta-se e vai directa para a varanda. Zás. As garrafas pet e a terra mais os vasos, mais as sementes de morangos, tudo para o lixo. Acende um cigarro que não fuma até ao fim e vai sentar-se ao computador para mandar mais um email para a junta, para a câmara e para a julia pinheiro a reclamar das hortas. A pessoa procura à volta um escape para despejar o ódio inveja e raiva. Não encontra e zanga-se. Falta sempre qualquer coisa à pessoa. Se ao menos pudesse ir às compras para passar esta neura… Enquanto isto, longe. Muito longe dali. Um proprietário ignora que os terrenos que comprou com esperança de se valorizarem produzem mandioca, tomate e ódio

Animais nos restaurantes

Há muito que os animais são presença assidua nos restaurantes. Não se justifica tanta polemica. Da sala de jantar à cozinha, da parte de trás do balcão à parte de dentro dos pratos, atrás das maquinas, nas gavetas dos talheres, no interior dos fornos, dentro dos frigorificos, no cotão do umbigo do proprietario ou atrás das orelhas da empregada, sentados em cadeiras ou deitados no chão...por todo o lado, dentro do restaurante estão os animais. Há animais na ementa, nos pratos e travessas, sob a forma de bitoque ou assados no forno. Nas bifanas e nos ensopados há animais. Há animais na cozinha na forma latente de cadáver, desmanchados e já arrumadinhos dentro dos frigorificos e das arcas. Há animais escondidos, vivos de olhos espertos, pequeninos e com pelo cinzento e que correm depressa para se abrigarem atrás dos fogões. Há animais presistentes que evitam os venenos deixados estrategimante. Há animais que vivem no panico da chegada periódica e obrigatória do gajo do controlo de pragas. Há animais a abrigarem-se no calor das traseiras das maquinas de café, a por os ovinhos minusculos pretos e a comer tudo o que vai caíndo. Há o animal que se levanta antes do sol nascer para fazer as compras e trazer a comida que vai alimentar os outros animais. Há animais que contratam as pessoas que chegaram sem papeis, há animais que pagam com comida e a promessa de um contrato, há animais que deixam familias recem chegados ao trabalho-escravo, a dormir no chão dos restaurantes, em cima de umas mantas, como animais. Há homens e mulheres, tratados como animais, alojados nos armazens entre grades de refrietente e a alimentarem-se das sobras dos jantares. Há animais mortos a apodrecer entre o pó que se acumula em cima dos tetos falsos. Ha animais que vivem nas caxias de esgoto que esperam os despejos de comidas azedas para se alimentarem. Há animais a contar as notas depois fazer a caixa. Há visceras de animais dentro de uma panela ao lume. Há animais que chegam sedentos pela manha para beber bagaços entre os dedos tremulos antes de irem trabalhar como animais. Há animais voadores a fritar num quadro com lampadas florescentes azuis que se pendura por cima da porta. Há animais sebosos a passar a mão sapuda no rabo da adolescente que veio trabalhar umas horas a servir as mesas. Há animais a boiar dentro da caixa de metal por baixo da grelha da maquina de tirar imperiais. Há animais minusculos a fazer carreiro entre um buraco na parede e as cascas de ovos e outros restos de comida dentro dos baldes homologados para residuos alimentares. Há animais encostados ao balcao a beber café e tomar copos de agua, animais que olham gulosos para os bolos debaixo do vidro gasto do balcão. Há animais que passam na rua olhando de relance a ementa escrita a marcador numa toalha de papel com preços demasiados longincuos para depois do dia dez. São estes os animais que querem entrar e não podem. Há animais a viverem nos cabelos (publicos e privados) da senhora que se sentou na mesa a fazer olhinhos ao empregado ele próprio um belo exemplar animal. Há animais que chegam engravatados a exibir cartões oficias e a fazer vistorias. Há animais a comer sentados à espera que outro animal lhe pague o almoço. Há animais a fugir de fininho. Há o fucinho de animail raivoso do iva a devorar tudo. Há animais a pedir a conta e pasme-se, há animais, a pagar por tudo!!! São estas as razões porque te digo, meu afectusoso animal de estimação, que não te espantes com os animais nos restaurantes, porque não são novidade. Aliás, fica já aqui sabendo que quase não há novidades. A polemica dos animais no restaurantes serve apenas para entreter os borregos. São estorias que te contam para te manter assim mansinho e para que continues a viver alheado do sarrabulho que vão cozinhando com o sangue que pinga das tuas oito horas de doações diárias!

A branca

Ela saiu de casa porque ele abusava da branca. Muitos riscos para uma relação que sempre desejou estável. Saiu de casa na esperança dele mudar de vida. Deixou no apartamento a vontade de regressar numa mala com roupa de verão, sonhos desfeitos e a memória de cinco anos vividos em cima da linha branca que divide a excitação da ansiedade. Ontem ao final da tarde falou com ele. Ele voltou a dizer que ia parar. Ontem nem saiu a noite. Ela teve um jantar com amigas. Eram quatro senhoras entre os trinta e os quarenta e despejaram quatro garrafas de Mateus Rosé. Voltou para casa passando à porta dele. Estava a nevar e ele estava em casa como prometido: tinha o carro cá em baixo. Foi por isso que ela, apaixonada e bebeda lhe escreveu esta mensagem inspirada pelo Mateus Rosé e pelo cheiro que alguns amores deixam no ar.

Menstruação masculina

Num destes fins-de-semana, o ultimo antes da chuva, enquanto servíamos a Causa, dois camaradas e amigos conversávamos. Falávamos sobre as nossas mulheres. De como recorrentemente eramos vitimas inocentes dos transtornos pré-menstruais, menstruais e pós menstruais. Falávamos de como sofríamos com as variações de humor a eles associados. Falávamos desses seres misteriosos e mágicos que são as mulheres, capazes de discutir e gritar como se o mundo fosse acabar porque o prato não ficou arrumado à esquadria dentro armário e no momento seguinte estão a chorar a baba e ranho porque o cãozinho do anúncio do papel higiênico tropeça quando corre. Não é nada fácil e nós temos que nos aguentar. Temos que ser compreensivos e racionais. É preciso sermos seguros e sensíveis. Avisar quando se vai chegar tarde, mas se ela estiver a dormir não podemos acorda-la com um telefonema para dizer o obvio que é que não estamos. Ser conciliador mas não se lhes pode dar razão para acabar com a discussão que elas não gostam. Ter calma para as ouvir e entender que depois de falarem elas não estão dispostas a continuar a discussão. Ser capaz de pregar um prego a direito sem desfazer o estuque, desmontar um esquentador e voltar a montar tudo outra vez em dez minutos porque elas precisam de tomar banho, carregar uma comoda de mogno da bisavó 26 vezes pelo quatro porque fica melhor noutro sitio, montar uma cadeira tipo puzzle com uma chavezinha em L e ter sempre presente e entender que não há essa coisa de tarefas de homens e tarefas de mulheres. Escolher de livre vontade com um sorriso nos lábios ficar sentado num domingo à tarde em frente a televisão a ver uma comédia romântica em vez de ir à pesca, de ir andar de mota, de ir jogar a bola, ou de ir para a praia, ou fazer outra coisa qualquer que seja fixe! Ser capaz de as defender se algum gajo lhes manda uma boca mais feia no trânsito, mas estando absolutamente proibidos de parar o carro, tirar o cinto e abrir a porta, porque corremos risco de se juntarem os dois para nos dar porrada… ela e o gajo que mandou a boca! Temos de ser especialistas e consultores de moda e capazes de dizer que uma determinada roupa lhes fica bem, mas ai de nós se comentarmos que a sua amiga a ou b tá a ficar com um belo rabo, ou o decote da vizinha mostra a curva bem definida da mama. Pois … é complicado. Ainda por cima a menstruação afeta tudo. É a semana do antes, é a semana em que sim e é a semana a seguir… Num mês, só ficamos uma semanita para estar na boa… mas como as probabilidades de ter discutido nas semanas anteriores são elevadas… a coisa fica difícil. Ambos concordamos e cumprimos, um minuto de silêncio em homenagem a todos os homens vitima das variações hormonais das mulheres. Chegamos então à conclusão que, se fossemos nós a estar menstruados as coisas seriam ainda mais complicadas… Se três ou quatro dias por mês, e sangrássemos do dito, se nos doessem os tomates três dias antes, mais os rins e a cabeça durante o sangramento, se nos dessem cólicas e falta de apetite, se viessem caibras e diarreias para piorarem… as coisas seriam muito diferentes. Para já, sangrar do amiguinho-da-cave, dava direito ir a soro para o hospital numa ambulância a fazer tinóni… Não andávamos por ai de um lado para o outro, trabalhar e a fazer coisas. Se menstruássemos, passávamos os três ou quatro dias deitados com a pila enrolada em ligaduras, a tomar medicamentos por via intravenosa para as dores com pena de nos próprios a ligar aos amigos a contar o que nos tinha acontecido. Enquanto coisa durasse estávamos de baixa. Claro que não íamos chatear ninguém com maus humores e hipersensibilidade emocional, dada a grave situação de saúde em que nos encontrávamos… Quando a coisa passasse, ai sim, devagar íamos retomando ao ritmo normal dos dias…mas com a calma necessária aos heróis convalescentes. Depois desta elevada reflexão, ainda pálidos do pânico que chegou com a ideia de ter de desenrolar o bicho só para fazer xixi… sem combinarmos, pegamos ambos nos telefones e ligamos para as respetivas super-mulheres que nos acompanham! -- Tou mor? Era só para mandar um beijinho e saber que esta tudo bem! Precisas de alguma coisa?

Invisivel

Contou-me que veio da Serra Leoa sem papeis. Encontramos-nos ao final da tarde junto à seca do bacalhau. Eu fui pescar. Ele acabava a faina de mariscador fugindo à maré que subia. Estava frio e o homem vinha molhado. Arrastava atrás de si uma saca de rede com uns quinze quilos de ameijoa. Num frances manhoso perguntou-me se tinha um cigarro. Eu tinha. Ficamos ali os dois a fumar e a olhar o poente. Um minuto de silencio pelo dia que morria. Depois falamos. Da vida, de barcos, de cães, marés e mulheres. Ficou de noite. -- Já posso ir embora, já está escuro. -- Porquê? -- Porque lá em cima não gostam de ver um homem negro a passar à porta das casas. Têm medo. Por isso vou quando fica escuro, para as pessoas não me verem. E assim seguiu invisível na noite gelada.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

sobre o mal

Aqui há uns dias, vi numa madrugada improvável, prá i, no noticiário de sábado ou domingo das sete da manha, uma noticia em que o Papa Francisco, alertava para o perigo do Demónio e das suas tentações. Não, não estou a brincar...Vi mesmo. Dizia o Papa Chico para as camaras e microfenes, e dizia a sério, sem ter cara de ter bebido, fumado ou cheirado o que quer que seja, que o Diabo "sussurra tentações ao ouvido e que é preciso muito força para lhes resistir"... A coisa, talvez pela hora, talvez pela desproporcionalidade de época, ficou-me na cabeça a remoer... E não foi tanto o tema do Diabo, esse não me assusta especialmente. O Chico terá o dele tal como eu tenho o meu e tu tens o teu. Há por Diabos disponiveis para todos nós... Nem sequer a dentada apetecida na maçã madura das tentações. O que despertou a minha inquieta refleção foi o sussuro. Ou melhor, as tentaçõe susurradas. É que eu, tal como o resto da humanidade, tambem padeço do mal das tentações, mas é que a mim, o Diabo não me sussura. A mim o Mal grita-me e agita-me com os apelos das tentações. Não há cá subtilezas de susurros e segredinhos:é mesmo à bruta. Quando as sete e meia da manhã o alarme começa o dia ao lada da cama, lá vem o Demonio tentar-me e gritar as suas ideias malignas: deliga essa merda que está a fazer um granel do caraças, fica mais um bocadinho e se saires atrasado, vai em exesso de velocidade... Se por exemplo aparece na visão do meu casto olhar, um decote mais profundo, ou um rabo apelativo a a subir as escadas a dois palmos da minha cara, é mais que certo que há-de vir o diabo gritar-me: mete a mão, mete a mão, mete a mão a ver se está quente!!! Tambem é frequente, ao folhear do facebook, ler uma ou outra aleivosia de direita, racista e fascisoide. Quando isto acontece, salta o Diabinho Vermelho, esquerdista e agitador, lá do fundo das minhas entranhas, a tentar-me com as suas sugetões e falar-me grosso: arrasa ja esse cabrão desse fascista, chama-lhe grulho e quando o apanhares, parte-lhe os cornos... Ou quando na fila do supermercado, uma daquelas velhinhas arqui-megeras vem subtil meter o carrinho das compras à frente do meu..., de certeza que vem o Diabo justiceiro tentar-me, falando alto na minha cabeça, com a insistente ideia: avança com o carro das compras e manda a velha mais o carrinho e as mercearias todas com o caraças e vai-te embora sem pagar!!! Claro que eu, contido e bem-comportado como sou, resisto quase sempre as tentações do maligno. Mas de qualquer maneira, não são tentações sussurradas, são tentações ditas em alta voz interna, com o megafone da ressonancia de toda a caverna onde o Diabo vive. Sem me querer vangloriar, nem acho que isso faz de mim candidato a santo, devo dizer-vos que este vosso amigo, resiste quase sempre, a quase todas as tentações. Ora, pela noticia percebemos todos, que ao Papa Chico de Roma, o Diabo vai tentar com sussurrozinhos e em vozinha baixa. Até parece que o Diabo vai envergonhado. E não sou eu que digo... é o proprio Chico. E isto meus amigos, é muito grave, porque, se na escala das tentações, o Chico ainda só vai na fase dos sussuros, isto só pode querer dizer duas coisas: Ou alguem dentro do vaticano anda a mandar remessas de ouro tirado do saco azul para os aquecidos cofres do Inferno, untando assim as unhas ao Diabo para facilitar a vida ao Papa... Ou quer dizer que o Diabo, fala baixo em sussurros porque, simplesmente, não precisa de falar alto para ser compreendido e obedecido... Isto, não é um assunto de somenos importancia. Na realidade levanta uma questão teologica grave: assim que o Diabo começar a falar um bocadinho mais grosso, ou se gritar com voz de comando, a cristandade corre graves riscos que Sua Santidade mije no medo do halito de enxofre e vá a correr fazer o que o Esquerdino lhe manda... Até porque, sejamos honestos, para o Papa resistir tentações, não precisa de fazer grande esforço: aquilo é canja. Vejamos: Acorda quando quer e sem despertador, mal fecha os olhinhos e a respiração se torna mais pesa, começa logo a pradaria toda naqueles corredores encerados a andar em bicos de pés para deixarem sua santidade arrochar. Decotes no vaticano, bem...estamos falados. Rabos, só os ressequidos traseiros dos cardeais e por pudor, não quero desenvolver o tema. Com o facebook não tem arrelias, há dezenas de gajos especialistas em qualquer coisa, sentados à frente de computadores topo de gama, no imenso gabinete de imprensa, a tratar da comunicaçao de sua santidade, prepar-lhe as noticiazinhas para ler e a filtar as opiniões que Sua Santidade deverá conhecer. Compras não existem e as mercearias, é um padre que as traz e lhas arruma directamente no frigorifico, sua santidade nem sequer tem de pagar os dez centimos do saquinho de plástico... Que tentações tem este homem? vá lá, digam-me, que tentações tem o papa? Nesta minha mente de suburbano que sobrevive num país de católicos, começou a desenhar-se uma ideia: sem querer fazer auto-promoção, sem querer abrir um processo de campanha, sem me querer canditatar-me, nem sequer prefilar-me para um proximo conclave, não posso deixar de pensar, e de partilhar convosoco, que, perdoem-me a imodestia, este vosso amigo, daria um Papa muito melhor do que o Chico, porque se o problema é resistir às tentações, estou muito mais capacitado para faze-lo. Mais que não seja porque estou mais habituado à presistencia do Mal

Crime Passional

Ele só queria era correr. Primeiro por motivos de saude. Depois por vicio. Ela ao inicio até lhe deu força. A seguir foi a bicicleta. Milhares de euros na porcaria da bicicleta que custa mais que um carro. Mais, muito mais que o carro dela. Ele quase não parava em casa. Do trabalho seguia para os treinos. Depois as manias da alimentação. Só como isto e nunca aquilo. Saia antes do sol nascer. Nao ajudava nada em casa e ainda chegava com a roupa suada e suja de lama. Ela a queixar-se da lama e da falta de atenção. Ele completamente focado nos planos de treino. Ela deixou de se queixar. Ele começou a ganhar medalhas. Ela sozinha com a televisão acesa e andar para baixo com o dedo e a fazer gosto nas fotografias do facebook. Ele a treinar. Ele mais medalhas e mais reconhecimento. Ela encontrou outro afecto. Ao principio só atençao, depois tesão e por fim paixão. Ele ganhava taças. Ela percebeu que o dinheiro estava na bicicleta, nos tenis e no equipamento dele, afinal era todo todo dele. Todo dele. Se ela saísse não tinha direito a nada. Ele continou focado nos resultados. Ela fez as contas e com muito amor e os pés assentes no chão, preparou tudo. O outro que lhe dava atenção a ela, ajudou a mata-lo a ele. Ela tomou banho e chorosa telefonou para a policia e para os hospitais procura dele. Os jornalistas fizeram a novela. A policia prendeu-a ontem. Muitas vozes de especialistas domesticos disseram: "eu sempre soube que foi ela! A gaja nem chorou" Ele continua morto e enterrado a desfazer a ideia que diz quem faz desporto vive mais anos. Mas cá para mim o que o matou foi o preço da bicicleta.

O safio

Há umas noites atrás, numa das margens esquerdas do Tejo, naquelas vazantes de sorte, apanhei um safio. Um safio com uns dois quilos. Não se pode dizer que fosse o maior safio do mundo, nem sequer do tejo... Mas um safio com dois quilos, já é um peixe que dá muita luta e mete respeito pendurado num anzol, sempre a tentar morder tudo e todos. Para mim foi uma grande captura, definitivamente o maior safio que apanhei. O alarido que o meu safio fez a morder o isco, com cana a abanar e a puxar a linha atraiu os outros pescadores presentes. Sempre que há um peixe maiorzinho na linha, quem está próximo, por norma, quem está ao lado, chega-se à frente, para ajudar caso seja necessário, ou mais que não seja por curiosidade. Nessa noite, enquanto tirava ao safio, chegaram-se os presentes, entre eles um daqueles pescadores especialistas, sempre prontos a dar sentenças! Tinha passado o tempo todo desde que chegou, a criticar a pesca dos outros e a explcar como é que se faz... O especialista, excepcionalmente, quando o meu peixe picou, ficou calado. Enquanto a malta dava palpites: puxa mais, dá-lhe linha, cuidado com as pedras, faz isto, faz aquilo... O pessoal à volta todo animado e o especialista calado... Quando o safio ja estava cá fora e eu extasiado desengatei o fecho do estralho, esticando o braço e mostrando o peixe, todos admiramos o tamanho e a força daquele safio... O especialista, olhou, avaliou entendido e sentenciou: -- aí está um bom safio, tem pra í metade do tamanho do safio que apanhei a semana passada!!! E pronto é tudo. Acho que todos nós conhecemos e lidamos todos os dias com especialistas destes!!!!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O radar dos pássaros

Li uma vez um livro que conta como um militar, angustiado e inquieto com a guerra colonial, com o medo, com o peso dos cornos mais o tédio, carregado de whiskie marado, ia despejar a raiva e a G3 nos flamingos das praias de Maputo, quando os colonos ainda lhe chamavam Lourenço Marques. Matava os pássaros pousados e em voo sobre as águas. Uma metáfora sobre a angustia do viver fardado a matar e morrer pelo absurdo do império colonial. Muitos verões passaram depois de ler o livro e vem a realidade, essa alternadeira louca e desvairada, mostrar-nos a todos, mais uma vez, que as metáforas dos livros bebem leitinho morno comparadas com as estaladas de bagaço com que a realidade bate. Isto porque grupo de pessoas importantes, depois de muito pensar e refletir, decidiu espetar-nos com um aeroporto pelas trombas. Aqui mesmo em cima da Ilha do Rato. Com os pés de asfalto a pisarem o rio e os gritos mecânicos mais o bafo a borracha queimada e a gasóleo a bater. Aqui no Xangai, no Lavradio e no Altoseixo. Um aeroporto que dizem que é no Montijo mas que nos cai mesmo ao colo sem a malta ter chance de dizer pára lá aí meu! Um bicho grande de ferro e betão que vem saindo da da base do Montijo e avançando pelo nosso Tejo adentro. Desprezando a Ilha, o rio, os peixes, as pessoas e todos todos os pássaros. A estrada larga de alcatrão da pista de aterragem a violar as águas e as marés. Os aviões a violar os ares e as criaturas que voam. O som dos motores a violar as areias, a violar as águas, a violar todos e cada um dos peixes. Os aviões a aterrar a levantar de dentro das nossas casas, de cima da mesa da cozinha. O aeroporto a violar partindo todas as janelinhas das marquises e arrancando da corda a roupa estendida. Com os bichos de ferro a passar a cada cinco minutos, de dia e de noite, a abanar-nos os copos nos armários, os vidros das molduras nas paredes. A violar os telhados com detritos e os alicerces todos com vibração. O fumo a enegrecer-nos as cortinas, a violar-nos os olhos e os dias dos nossos netos por nascer. Os homens importantes e engravatados com a futuro deles a sair pela braguilha aberta, a violarem-nos os pássaros e o futuro. O oficial cornudo do livro da Lídia usa a metralhadora, estes não usam metralhadoras. Mas tal como no livro, também estes homens matam. Também eles, igualmente imponentes para amar, escolhem matar. Também eles embriagados de poder, bêbedos do seu próprio cuspo, vieram para nos matar. A começar com os flamingos nas praias da gente. Nas hélices dos motores, vão misturar-se as tripas dos pássaros, as escamas dos peixes e o que sobrar dos nossos sonhos. Vão misturar-se, as cabeças dos peixes, as penas cor-de-rosa, fragatas, pescadores envelhecidos, os bicos curvos, as patas, e os ossos ensanguentados ou ressequidos, com ameijoas extintas, lambujinhas, óleo de motor e sal. Dizem que a chuva de leite e mel vai ensopar a terra de guito. Dizem que vamos deixar de ser pobres e de andar a contar os trocos para o tabaco. Prometem que vai chegar dinheiro para todos aqueles dispostos a trabalhar na mina próspera do turismo. E contam-nos historias luminosas. Por isso muitos seguem adormecidos nas camas do sonho. Feito múmias embalando asco na fantasia do possível sem ouvir o som dos motores que se aproximam. Nas aguas fundas do Tejo salgado, nadam corvinas, sargos, robalos e douradas. Nadam misturadas com as Tagindes do Camões, com as Oxuns nigerianas e quinhentistas escravizadas e importadas pelos navios negreiros. Mais as Kiandas que soldados e emigrantes trouxeram de Angola. Mais velhas ninfas neolíticas com colares de conchas. Nadam enguias atomizadas da central nuclear de Almaraz. Nadam as almas penadas dos marinheiros de todas as nações que aqui desaguaram. Aqui, onde nas madrugadas de nevoeiro soam os gritos dos mariscadores afogados em invernos passados e que permanecem eternamente perdidos nos lodos das marés vazias de nevoeiro e miséria. Por cima de todo este Tejo, planam os pássaros que quando pousam nas areias que o vento e as marés tonam a cada manhã novamente virgens, alisam as penas e falam uns com os outos em linguagem de pássaro. Os pássaros, que são entidades de facto superiores, juntaram-se num bando denso e em unanimidade, decidiram assombrar o voo dos caças da base-aérea. Então, os homens dos aviões, avisados pelo clamor das populações, crédulos em presságios de morte vinda dos céus, e assustados com o frenético piar dos pássaros foram falar com os donos da pista que se quer estender: Os aviadores perguntaram aos homens que mandam --Mas e os pássaros? É que sabem, com os pássaros é perigoso aterrar... Sempre preparados, os homens que mandam, com o sorriso beato dos que transportam a luz no cartão de crédito platina, disseram iluminados: – Isso é simples, faz-se um estudo e impacto e põe-se um caralho qualquer a tomar conta dos pássaros. – O quê? Perguntaram os aviadores, quase chocados, porque sendo homens de estudos estavam pouco familiarizados com o desbocado vernáculo, distantes em alojamento e linguagem das casernas dos praças. Os homens que mandam corrigiram: – Um radar!! põe-se um radar! Então os senhores pilotos não sabem que um radar é um caralho dos tempos modernos!!! E o falava em nome dos que mandam, continuou a sua iluminada dissertação do caralho: – Um radar é um caralho no sentido mais literal do termo, vernáculos penianos à parte. O caralho era cestinho que servia de ponto de vigia no cimo dos mastros das caravelas. Isso mesmo, senhores pilotos, o cestinho no mastro chama-se caralho. Era onde os marinheiros ficavam à procura do voo das aves que servia para indicar aos nossos nobres e bravos antepassados, heroicos navegantes, a presença tão desejada de terra firme... Assim, com o radar, vemos os bandos dos pássaros a chegar à distancia... E com o silencio que se fez, ficou o senhor importante contente a sorrir para os outros senhores importantes presentes, também eles contentes e esclarecidos com o caralho. --E quando vieram os bandos de pássaros? Como se faz? Insistia o piloto de aviões que é assim uma espécie de motorista com conhecimentos de mecânica mas que é engenheiro. -- Aí é simples, enxotam-se os pássaros com o barulho do motor, ou então não se voa! – Enxotam-se os pássaros?? ou não se voa??? repetiram os aviadores ainda encaralhados com a ideia do radar!!! --Então e para que serve um aeroporto onde não se pode voar? Perguntaram os homens dos aviões.... -- Bem, os senhores são pilotos sabem de pilotagem. Nós que decidimos, damos-vos o aeroporto, damos-vos lições de historia do caralho e ainda querem lições de economia? Deixem-se de merdas e vão mazé trabalhar. E eles foram.