domingo, 26 de julho de 2020
Raça dos homens mortos
domingo, 5 de julho de 2020
O telegrama de Estaline
Partindo de Samarcanda, no Uzbequistão no século XIV, Timur-i-Lenk criou um império.
Quando o Timur-i-Lenk, aos sessenta e nove anos morreu sem avisar, os vivos de Samarcanda fizeram-lhe um túmulo proporcional à majestade da monumental cidade. Depois dedicaram-se a matar-se uns aos outros para ver quem é que ficava com as pratas.
A coisa manteve-se permanentemente instável durante seiscentos anos. Vieram os turcos, os chineses, os ingleses e os russos. No Uzbequistão, lá metido no túmulo de Samarcanda, o velho tirano repousou durante seis séculos, alheado às invasões, convulsões e revoluções.
Quando a Revolução Soviética aconteceu, em 1917 o Uzbequistão era uma província do império Russo. Em 1918 foi fundada a primeira universidade do país, em Tasquente.
Em 1924, os uzbeques comunistas criaram a República Soviética do Uzbequistão.
A universidade de Tasquente desenvolveu um trabalho importante ao nível da arqueologia em toda a Ásia Central.
Os arqueólogos de Tasquente no início dos anos trinta do século vinte, começaram a estudar, registar, catalogar e preservar o imenso tesouro que é Samarcanda.
Por volta de 1935 pediram autorização para abrir o túmulo do Timur e exumarem o corpo.
Quando se soube das intenções dos arqueólogos, surgiu algum desconforto e descontentamento entre os uzbeques. Os mais tradicionalistas e supersticiosos, diziam que era mau abrir o túmulo de um tirano. Os mais pragmáticos, achavam que haviam outras prioridades.
A burocracia já se sabe é transversal; às eras, impérios e ideologias. A autorização demorou a chegar. Quando finalmente veio a carta com o papel carimbado a autorizar vivia-se o final de 1940.
É sabido que o inverno por aqueles lados é duro.
Só já no final da primavera de 1941 foi possível reunir os meios materiais e humanos e levar pessoas e equipamento para Samarcanda.
Na Segunda-feira, dia 16 de Junho de 1941, os arqueólogos começaram a trabalhar no túmulo de Timur-i-Lenk. No dia 20, uma sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos, chegaram ao corpo do Timur e tiraram o que restava para fora do caixão.
Nas ruas de Samarcanda, nessa sexta e nesse sábado, a população manifestou-se indignada. Tumultos que foi preciso reprimir. As pessoas, sobretudo as mais antigas, falavam na maldição do Timur-i-Lenk. Que uma grande desgraça iria cair sobre uzbeques e russos. Os arqueólogos tiveram de se esconder na esquadra da policia.
A delegação local da NKVD, o serviço de informações e segurança, mandou um telegrama para o Kremlin a relatar o sucedido.
Um dos comissários levou o assunto às mais altas instâncias em Moscovo. Não pelos factos em si, mais para apresentar trabalho feito e porque lhe tinham dito que era preciso estar muito atentos às provocações.
Na noite de sábado para domingo, a Alemanha Nazi atacou a União Soviética.
Na madrugada desse domingo dia 22 de Junho de 1941, foram acordar o Estaline. As noticias da invasão chegaram primeiro, depois o líder máximo do comunismo cientifico, quis saber de tudo o que se passava em todo o lado. Já que estava acordado, não ia perder tempo, mandou vir a si os relatórios de todas as republicas. E claro que tambem soube dos tmultos em Samarcanda e da Maldição do Timur-i-Lenk.
Acontece que o homem era oficialmente ateu, absolutamente pragmático mas secretamente guardava a alma supersticiosa do camponês da Geórgia que nunca deixou de ser...Deu as ordens necessárias para proteger a União Soviética e iniciou aquilo que a história vai a chamar a Grande Guerra Patriótica, a seguir, mandou ele próprio um telegrama para Samarcanda a determinar que enterrassem o Timur e selassem o túmulo.
A guerra foi o que foi.
Morreram 20 milhões de soviéticos.
O Estalin morreu oito anos depois da vitória sobre o nazi-fascismo.
O Uzbequistão tornou-se independente em 1991 três meses antes dos russos declararem o fim da União de Sovietes.
Muita coisa mudou, mas ninguém voltou a abrir o túmulo do Timur-i-Lenk depois do telegrama do Estaline para Samarcanda.
As suas campanhas militares atravessaram as estepes e chegaram às portas de Bagdad. Pelo caminho, os seus exércitos de tajiques e uzbeques, aviaram nos turcos e venceu imperador otomano, Bajazeto I. Timur e o seu exército de facínoras matavam, roubavam e violavam por onde passavam. A única excepção eram os escultores, arquitectos, pedreiros e pintores. Poupava-lhes a vida e recambiava esta malta para Samarcanda onde os punha a trabalhar. Samaracanda tornou-se a mais monumental das cidades da imensa estepe.
domingo, 28 de junho de 2020
O banco do Carlos Paredes
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Baquaqua a andar por aí

A lei criada em Lisboa, não impediu que Baquaqua fosse escravizado em Uidá por esse esclavagista minhoto e posteriormente vendido para o Brasil. Tudo com a conivência participação e protecção das entidades oficiais portuguesas. Viajou raptado dentro de um navio negreiro que saiu de uma fortaleza militar portuguesa em 1844.
Mahommah Baquaqua era já bilíngue quando foi raptado, falava e escrevia em árabe e ajami, a sua língua materna. Aprendeu português da pior maneira com os seus raptores.
No Brasil, esteve em Pernambuco, onde ele foi comprado por um padeiro português. O padeiro usou a sua mão de obra escrava para construir uma padaria e fornos de pedra. Baquaqua tentou fugir duas vezes, foi capturado pela policia militar de Pernambuco, torturado pela policia, foi depois entregue ao padeiro que também o torturou. Recuperado fisicamente das torturas, tentou o suicídio. O padeiro fez as continhas, avaliou o potencial prejuízo pela morte do homem que escravizava e decidiu vender o Mahommah Baquaqua. Calhou-lhe como dono um capitão de um barco que fez dele marinheiro sem salário a trabalhar por restos de comida e água estagnada.
Farto de maus-tratos e espancamentos, Baquaqua teve oportunidade de fugir em Nova York depois de descarregar um navio de café, por volta de 1849. Aproveitou e desapareceu nas docas.
Nos Estado Unidos, sem documentos mas também sem dono a reclamar a sua propriedade, consegue embarcar para o Haiti. Alguém lhe disseram que era um país novo criado por homens como ele que tinham sido escravizados. Em Port au Prince, aprendeu a falar e escrever em francês para alem do criolo haitiano. Do Haiti seguiu para o Canadá onde alem de melhorar o seu francês, teve oportunidade de estudar inglês e história. No Canadá trabalhou com o editor o editor Samuel Moore, que o incentivou a escrever.
Voltou a Nova York em 1854, desta vez com documentos canadianos, onde publicou um livro autobiográfico sobre a sua condição de escravo: “An Interesting Narrative - Biography of Mahommah G. Baquaqua”
Cinco anos depois, por volta de 1860, viajou para a Inglaterra na esperança de voltar ao Benin. O último registo histórico sobre Mahommah G. Baquaqua é de 1857, numa carta escrita em Inglaterra para o seu amigo e editor no Canada, Samuel Moore. Baquaqua explica que a luta pela liberdade e justiça não se resumia à luta legalista pelo fim da escravatura, havia muito mais a fazer.
Desde esse ano de 1857, até hoje que não se sabe por onde anda o Baquaqua. Eu cá, acho que o gajo anda por aí... porque ainda há muito por fazer!
sábado, 13 de junho de 2020
A menina e a obras do Regime

A menina que era a minha avó, não andava na escola. Nos últimos quatro anos da sua vida , andava à costura na casa de uma senhora que era costureira na rua Aguiar, ao lado da Vinícola do Barreiro, onde mais tarde veio a ser um prédio, onde funcionou a sede da Mocidade Portuguesa e depois do 25 de Abril a UEC e a seguir a JCP. Vivia no Alto do Seixalinho, em casa de uma irmã vinte anos mais velha, operária corticeira sem filhos. Dormia num divã, aqui no quarto onde vos escrevo. Depois do trabalho como ajudante de costureira, vinha ajudar na lida da casa. Os pais não tinham dinheiro para sustentá-la. A mãe era operária corticeira e o pai era pescador. Os irmãos, um estavam na tropa, outro era operário na cuf, as duas irmãs casadas trabalhavam como operárias corticeiras.
Aqueles anos do início da guerra, foram particularmente duros para as pessoas que viviam do seu trabalho no Barreiro. No inverno de 1939, tinha havido muitos despedimentos na fábrica da CUF, em que os operários trabalhavam precários. O rio andava fraco de peixe e os salários eram rasteiros. Era o tempo da sardinha a dividir por tres, da lamejinha roubada ao rio mexida com dois ovos para alimentar as bocas que se sentavam à mesa. As notícias da guerra chegavam alarmantes e os boatos corriam pelas ruas.
No início do ano começou-se a falar no assunto. Do Barreiro, havia alguns operários da construção civil que lá trabalhavam. Trabalhavam a mata-cavalos, sem direitos, sem as mínimas condições de segurança e debaixo de grande pressão. Construíram a Exposição do Mundo Português. Obra máxima do fascismo em Portugal. Ideia copiada da monumentais edificações de propaganda nazi que o todo poderoso secretário Antonio Ferro importará decalcando o conceito.
A exposição foi inaugurada a 23 de Junho de 1940 pelo Senhor Presidente do Conselho António de Oliveira Salazar. Também estiveram presentes a figura decorativa de estado Óscar Carmona e o idolatrado Ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco. Além destes cabrões fascistas, no dia da inauguração esteve lá a minha avó.
O nazi António Ferro organizou a mobilização de muitos milhares de crianças de Lisboa e dos subúrbios. Do Barreiro foram numa imensa excursão de crianças e adolescentes. Vestidinhos de lavado e organizados em rebanho. Quando chegaram deram-lhes uma bandeirinha portuguesa em cartão presa num pauzinho. Deviam bater palmas e abanar a bandeira. Em pagamento pelo trabalho de fazer cenário para as fotografias, tinham direito a um lanche de pão com manteiga e podiam ver a exposição. O Padrão dos Descobrimentos era a mais impactante dos objectos expostos. Agente pequenina, cá em baixo, olhava para cima e tinha de dizer haaa...
A minha avó viveu quase noventa anos impressionada com a Exposição do Mundo Português. Recordou o dia que foi à exposição até ao fim. Os jardins, os pavilhões, o padrão dos descobrimentos, as delegações das províncias ultramarinas. Sobretudo recordava a dimensão e a riqueza ostentada na propaganda do regime comparada com a pobreza e a miséria que era o dia a dia que ela conhecia.
A exposição recebeu cerca de três milhões de visitantes, dizem os números oficiais. Dizem os historiadores que constituiu a mais importante iniciativa cultural do regime. A narrativa da história para contemplação e inspiração dos presentes. O grandioso espírito português. O maior acontecimento cultural do século XX em Portugal.
Se calhar foi. Para a minha avó que lá esteve, foi muito marcante.
Os meninas e meninos do barreiro como a minha avó que foram levados em rancho para a exposição do mundo português, amadureceram depressa nos anos de guerra. A maioria destas crianças e adolescentes trabalhavam por migalhas, e era de migalhas que viviam.
Mas a vida é dinâmica e o mundo anda às voltas. Por mais grandiosa, sofisticada e promovida que fosse a propaganda fascista, abanar a bandeirinha nacional já não chegava para manter a malta satisfeita. Esse fascismo que criou a narrativa do orgulho luso e queria o povo como espectador passivo da narrativa historia que lhe contava, já não tinha pão com manteiga suficiente para matar a fome.
E a fome é do caralho!.
Três anos, depois em 1943, muitos das crianças e adolescentes que viram a exposição do mundo português com a bandeirinha na mão, estavam organizados numa greve a exigirem salários que lhes permitisse comer. Deixaram de ser espectadores e passaram a ser actores e agentes da própria história. E o mundo avançou mais um bocadinho.
Quando a fome aperta, as pessoas lutam e o mundo avança. Por mais narrativas, estátuas, monumentos e lendas de heróis que se construam para atrasar o avanço do mundo. Por mais televisões, vídeos, comentadores, opinadores, influenciadores, historiadores, apresentadores, e outros especialistas de tudo, que nos venham dizer que está tudo bem, que nos venham dizer que é mesmo assim que temos de nos aguentar...Por maior que seja o padrão edificado a glorificar um passado grandioso na mentira e a prometer o céu na terra...
Quando não há que comer, agente tem de se fazer à vida. Isto ensinou-me a minha avó. A menina filha de pescadores que durante oitenta anos apurou o arroz de lambejinhas para acompanhar peixe frito.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
O Homem da Cortiça
Fui depois de almoço. O homem tem cara séria e rosto curtido. A expressão de quem já passou por tudo e já viu tudo o que tinha que ver. Ao fim da tarde vim a conheço melhor, acho-o assim, duro por fora , macio por dentro, como a cortiça que tem desenhada na linha da vida. Setenta anos feitos e vividos quase sempre no Alentejo.
Conheci três Alentejos, diz o homem, o Alentejo da miséria dos latifúndios, o Alentejo das cooperativas e o Alentejo vazio de gente e cheio de javalis. Agora um homem pode passar uma semana a andar por esses montados e não vê ninguém. Javalis, raposas, texugos e mochos a habitar as ruínas. Mas não vê ninguém.
Fomos falando. Sobre cortiça e rolhas. Da verdade absoluta de dê o mundo as voltas que der, enquanto se beber vinho, vão haver operários corticeiros porque não se conseguem rolhar garrafas diretamente nos sobreiros.
Ao lado um camião onde foi preciso por dez toneladas de cortiça. O filho do homem, foi quem neste dia feriado, foi na qualidade de empresário negociar o valor daquela cortiça com o proprietário da herdade. Comprou de manhã e era preciso carregar à tarde.
O homem, continua a acompanhar o negócio, mas está mais retirado. O tempo deu-lhe memórias que é seu dever partilhar. O filho tratou de carregar o camião. O homem teve o trabalho de me contar como foi. Como foi o caminho que fez de rapazinho pelos montados do Alentejo até chegar ali. Contou-me da guerra colonial em Angola e da escola para quadros em Cuba. Contou-me das árvores do Uíge e dos dois sobreiros que plantou em Havana.
E contou-me a retorcida história que fez dele um dos últimos moicanos dos industriais corticeiros. Contou-me como depois do vinte e cinco de abril, com outros operários corticeiros e agrícolas fundou a cooperativa corticeira. Contou-me como foi haver direito a férias e a subsídios pela primeira vez. Como foi ter direito a baixa por doença. Contou-me como foi negociar em nome da cooperativa o preço da cortiça com os grandes proprietários rurais. Falou-me do respeito que a cooperativa ganhou de alguns que diziam: “eu prefiro vender aos comunistas da cooperativa que são de contas certas” . Contou-me como outros fugiram para o Brasil e deixaram buracos financeiros em dívidas aos fornecedores. Contou-me de como era quando havia corticeiras. Trezentas ou quatrocentas fábricas de cortiça por todo este sul. Do Montijo a Silves do Barreiro a Vila Real de Santo-António.
E contou-me da voragem do predador que foi chegando e de como com dentes afiados devorou tudo. Quase tudo. Do grupo que põe e dispõe preços porque detém mais de 98% da indústria corticeira em Portugal, um país onde a constituição diz que não são permitidos monopólios e nenhuma empresa pode ter mais do que uma cota de 49% do mercado.
Enquanto o homem falava, ao nosso lado outros homens atiram a cortiça em malabarismo para cima da pilha que subia nas costas do camião. Entre os carregadores, a atirar cortiça para cima do camião, o seu filho, seu orgulho e seu tesouro.
O homem falou-me do braço de ferro desigual entre grandes e imensos proprietários rurais de como algumas famílias detentoras de meio mundo se endividaram aos bancos que executaram as hipotecas das herdades para entregar a outras famílias já eram donas de mundo e meio.
Contou-me que quando acabou a cooperativa que ajudou a fundar, estava com quarenta anos e não sabia fazer mais nada além de negociar, comprar, arrancar, empilhar, carregar, descarregar, cozer, tratar e cortar cortiça. O homem explicou-me como foi empurrado para a aventura de ser patrão. Como aquilo lhe foi acontecer logo a ele que sempre lutara por um mundo sem patrões nem empregados.
O homem contou-me de como foi continuar a negociar e comprar cortiça não para a cooperativa mas para ele. Da luta que é hoje exigir que as pessoas que trabalham com ele sejam sindicalizadas e desta contradição tremenda de ser patrão e ter de politizar os trabalhadores!
Enquanto o homem falava, o camião a aumentar de volume com a cortiça que voava e era arrumada em tetris lá nas alturas. E o homem a mostrar-me como se carrega o camião. A falar-me com afeto daquela camião. Um carro que chegou a ser da cooperativa e que ficou com um credor e que ele conseguiu comprar e recuperar, uma máquina com 40 anos que transporta dez toneladas sem sobressaltos.
O homem explicou-me quanto ganham os carregadores. Lamentou-se que não são trabalhadores da corticeira. No tempo da cooperativa, os carregadores eram da corticeira e ganhavam todos o mesmo com salários estabelecidos pelo sindicato. Agora são todos de empresas independentes, empresas que se criam sazonalmente para andar pelos montados a carregar camiões de cortiça. Trabalham de junho a setembro. Ganham entre 160 e 220 euros por dia. O filho do homem, sem parar de trabalhar, de vez em quando ria-se para mim e para o pai, estava a trabalhar tanto como os outros mas não ia ser pago por isso.
Então porque é que está a carregar? Para ajudar a despachar e ele não tem feitio para estar quieto. Trabalha desde os dezasseis anos disse o pai, sem esconder o justificado prazer em contemplar o moço que fazia pontaria com as pranchas de cortiça para cima do carro.
Achas muito os duzentos e vinte euros? Então vê lá o trabalho destes homens. Olha lá para eles. Hoje nem está muito calor. Estão com sorte! Agora imagina isto com temperaturas que rondam os 40 graus, empoleirados nas pilhas de cortiça.
Nós a falar e os homens sem parar, à volta do camião que vai enchendo em altura.
Todos os anos há acidentes. Agente avisa que precisam de ter seguro. Mas a maioria é malta que está ilegal e acha que está a ser muito bem paga!!! É verdade que chegam a ganhar seis mil euros pr mês... sem feriados sem folgas... no pico do verão e trabalho feito ao calor...e depois no inverno? Alguns poucos, com mais juízo, orientam as coisas e no inverno têm um pé de meia que dá para se irem vivendo. Outros, gastam tudo em bebedeiras e raparigas. Sabes que, atrás desta malta vêm sempre uma industria paralela de chulos e moças a fazem vida do que eles ganham... Mas vái lá tu falar-lhes em sindicalizarem-se... até se riem, não me mandam à merda que eu sou velho e eles têm-me respeito!
Equipe multi-étnica entre africanos e sul americanos fala pouco enquanto trabalha. Mas trabalha muito e depressa. Quer despachar a carga. Ganham à carga, 55 euros cada carga. Chegam a fazer três e às vezes no pino do verão, em época alta quatro cargas por dia. Um camião demora entre três a cinco horas a carregar. Realmente duzentos e vinte euros por trabalhar vinte horas por dia em pleno verão no Alentejo, não é bem pago...
O filho do homem a ouvir-nos sem parar de trabalhar.
Depois o homem contou-me de como ali, no Alentejo Litoral, as herdades gigantes que resultaram da concentração e anexação de outras grandes herdades. Como nos últimos quinze anos, vinte anos os grupos bancários, donos associados destas super herdades, assumiram os interesses no imobiliário. E de como se fizeram campanhas autárquicas milionárias com aviões a sobrevoar terras de gente pobre a prometer mundos e fundos. De como empregados dos bancos vieram durante quatro, oito, doze anos serem presidentes das câmaras para cozinharem as leis que permitem aos ricos comprar casas nas dunas e que obrigam os pobres à resignação de morar em armazéns convertidos em dormitórios coletivos... De como se foram embora e voltaram para os conselhos de administração dos bancos deixando as autarquias falidas.
Não me contou mas percebi-lhe a angústia que todo este desmoronar de uma região lhe causava.
O camião estava finalmente carregado. Dez toneladas. Ao lado ainda ficou outro tanto.
O filho a coordenar a operação colectiva de prender a carga. Uma ciência de precisão onde não pode haver erros. Física presa com cabos de aço que determina a segurança de quem vai na estrada.
O filho seguiu no jipe. Nós entramos juntos no camião.Afinal é ele o empresário, riu-se o pai!
O empresário como o pai lhe chamou, foi à fábrica buscar um saco cama e dois rafeiros alentejanos deste tamanho e de boca grande para irem dormir com ele no montado ao lado da cortiça que ainda lá ficou. Foi lá passar a noite porque o Alentejo esvaziado de gentes tem ladrões por todo o lado. E a cortiça que ali está, já está paga, cortada e pronta a carregar.
Eu e o homem seguimos juntos por uma estrada vazia. Fomos pesar a carga a uma balança para camiões. O contabilista criou a guia no computador e mandou a referência por sms.
Já cúmplices, deixamos de falar de política para passarmos a falar de amor.
Contou-me de como o partido e a cooperativa lhe roubou tempo que era da família. Tempo para amar a mulher e os filhos como eles mereciam. De como os anos e anos de reuniões e lutas lhe ficou com muitas horas do mais precioso que a vida lhe deu que são as pessoas que ama. Não lamenta o tempo perdido, mas diz que se fosse hoje tinha feito diferente, tinha feito outras escolhas... não são outras escolhas políticas!!! não me interpretes mal! --- como se fosse possível interpretá-lo mal – Mas sério que tinha feito por passado mais tempo com os meus...Tinha feito diferente.
Por cima e atrás estavam dez toneladas de cortiça a testemunharem o momento.
Como se fosse lhe possível ter feito diferente....
sexta-feira, 5 de junho de 2020
Preto, magrebino, cigano, judeu, monhé
sábado, 23 de maio de 2020
Quando o medo matou
Trabalhava desde miúdo. Eram uma família numerosa nos arredores de Montemor-o-Novo e era precisa dar de comer a todas as bocas. Tinha sido preso em 47 por ser comunista. Comunista foi até ao seu ultimo dia. Ficou com a tarefa de organizar as lutas dos trabalhadores rurais no Alentejo. Conhecia bem a região, era disciplinado nos procedimentos da clandestinidade e não se queria deixar apanhar.
Na primavera de 1954 estava pelo Baixo Alentejo. Ficava numa casa nos arredores de Beja, perto da estação dos comboios e junto a uma estrada secundária onde era fácil o acesso na sua bicicleta.
Preparava-se uma jornada de luta por mais salário contra a fome e a precariedade.
O funcionário comunista, profissional da revolução, foi fazendo o seu trabalho. O Primeiro de Maio foi de luta em Beja. Nos dias a seguir, a chama da mobilização alastrou pelos arredores.
O trigo estava a crescer bem, mas as ervas daninhas regadas com as chuvas e crescidas com o sol daquele Abril, ameaçavam as espigas. Eram precisas muitas mãos para mondar. Mãos de mulheres. Eram a mão de obra mais barata e no conceito obtuso dos donos da terra, era um trabalho “leve”. Porque não implicava força física, era entregue às mulheres que trabalhavam ao dia, dizia-se à jorna... Como se andar sete, oito, ou nove horas dobrada entre as espigas do trigo a arrancar ervas à mão, fosse um tralho leve... O que é certo é que as mulheres ganhavam quinze tostões por dia, os homens ganhavam vinte e cinco. As mulheres estavam a lutar por um aumento. Queriam dois escudos por dia.
De Baleizão, chamaram-no para reunir com as mulheres. Ouvir as razões das mulheres, partilhar a sua experiência, aprender com elas e ajudar na organização. Foi para Baleizao varias vezes naqueles Maio.
A mobilização foi fácil, a organização foi mais difícil. Eram indisciplinadas. Falam todas ao mesmo tempo e sobre vários assuntos. Ao inicio havia algumas receosas, depois, umas com as outras perderam o medo e ganharam força, disciplina e coragem. Queriam dois escudos por dia. Passaram muitas horas a falar até que combinaram que não trabalhavam por menos de dezanove tostões. O funcionário clandestino, explicou que era essencial chegaram a um acordo entre elas e soldarem a aço esse acordo, depois era uma questão de negociação com o patronato.
No dia quinze de Maio, foram falar com o feitor que contratava. Iam umas seis. A Catarina, da família dos Eufémia, foi nesse grupo. A Catarina levava o miúdo de oito meses ao colo e os outros dois rapazitos atrás.
O feitor do lavrador disse logo que não ao aumento e manteve os quinze tostões por dia. Depois fez três telefonemas do telefone da herdade: telefonou aos patrões donos da terra, telefonou para a guarda em Beja e e depois telefonou para a pide a contar-lhe tudo.
As mulheres voltaram tristes mas não vieram derrotadas. Falaram entre si e decidiram continuar a luta. Falaram em greve. Reuniram com o clandestino que chegou à noite de bicicleta. Encontraram-se num ermo no meio dos montes, longe da GNR e da pide. O revolucionário explicou que era preciso terem a certeza que queriam avançar, que uma greve não se faz com indecisos. Aqui não há indecisos porra! Assim disseram elas.
O funcionário clandestino pedalou entre o contente e o apreensivo. Sabia que as mulheres quando se juntam numa vontade, fazem acontecer. Em Baleizão diz-se que a mulher quando quer faz o ninho na cabeça de um alfinete. Não era para tanto... mas sabia ia ser difícil.
Na tarde de dezassete de maio, na aldeia de Baleizão correu o boato que o Lavrador do Monte das Oliveiras ia contratar um mulheres que vinham do Ribatejo ou da Beira Baixa para mondar por quinze tostões. Vem um rancho delas para nos furar a greve, disseram na venda.
No dia dezoito não aconteceu nada. O funcionário explicou que nesta fase o importante não era hostilizar as trabalhadoras que vinham para trabalhar, mas sim falar com elas e ganha-las para a luta dos dois escudos por dia.
Na manha de dia dezanove de Maio, chegaram as fura-greves de camioneta. As mulheres decidiram ir falar com as novas. Queriam convence-las a aderir à greve. O feitor tinha pedido protecção da guarda para as fura-greves. As grevistas foram em grupo, uma dúzia delas. Vieram a pé de Baleizão, ai a uns dois quilómetros até ao monte. A Catarina, vinha à frente com o bebé de oito meses ao colo.
A cortar-lhes o caminho, a guarda.
O tenente falou para as ceifeiras:
– O que é que vocês querem daqui?
Foi a Catarina que lhe respondeu:
– Queremos pão para os nossos filhos.
– Não quero aqui politica, tá a dispersar!
As mulheres não dispersaram. Mantiveram-se unidas. Queremos pão gritaram.
O tenente, assustou-se com a força e a coragem daquelas mulheres.
Pálido, ameaçou:
– Vão-se embora ou eu mando disparar!
As mulheres mantiveram-se firmes e
gritaram palavras de luta.
O militar da guarda que comandava, teve
ainda mais medo.
Tinha medo dos lavradores que o ameaçavam com um
desterro longínquo se não resolvesse imediatamente a situação.
Tinha medo da pide que lhe dizia que ele tinha de mostrar força com
os comunistas. Tinha medo que os seus homens o achassem um merdas
porque não conseguia por na ordem meia dúzia de mulheres. Tinha
medo dos comunistas que lá da Rússia mandavam agentes disfarçados
de ceifeiras. Tinha medo das ceifeiras que não tinham medo dele.
Tinha muito medo das mulheres sem medo. E naquele momento o seu maior
medo era o medo de não ser capaz de dominar o seu medo.
Na mão a
pistola-metralhadora a dar-lhe o estatuto de oficial da Guarda. Na
boca a secura e no ânus o aperto do medo. O medo a invadir-lhe a
digestão. O medo a revolver-lhe o estômago e as tripas.
Atrás o feitor. `À frente as ceifeiras. À volta os seus homens armados e a seara. A convulsão do medo exigia uma saída. Ou vomitava na biqueira das botas dos seus subordinados, ou defecava na farda de tenente.
Os dedos apertaram o gatilho. A arma disparou-se. O medo fê-lo esquecer-se de tudo menos de como se mata.
Disparou à queima roupa.
Caiu a moça da frente que lhe tinha virado as costas para dizer algo às companheiras. A que tinha uma criança ao colo. Magra mas bonita. Vinte e poucos anos. Caiu ela e o miúdo. Magoou-se a criança. Assassinou-se a mãe.
O choro e os gritos acalmaram o medo ao tenente da guarda. O cheiro a pólvora e a sangue devolveram-lhe a compostura marcial de pilar do regime.
Veio uma ambulância buscar o corpo e o bebé ferido.
As outras ceifeiras gritavam.
Vieram mais guardas.
Nesse dia não se trabalhou.
O relatório da autopsia descreve o cadáver da mulher de vinte e seis anos, de estatura mediana (1,65 m), de cor branco-marmóreo, de cabelos pretos, olhos castanhos, de sistema muscular pouco desenvolvido. Mais à frente, na frieza dos dados clínicos, o mesmo relatório tem impresso que a vitima foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima deixou um rasto de queimadura. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima".
O funcionário clandestino, chorou de raiva enquanto pedalava. Abalado, fez da emoção coragem e organizou um funeral digno da dimensão da tragédia.
O tenente da gnr, foi transferido de Beja para Aljustrel. Na lógica do regime, uma mão firme como a do tenente era o ideal para lidar com os mineiros. Numa farsa de julgamento foi absolvido o o tenente que matou por medo. Morreu em 1964.
A Catarina Eufémia foi sepultada em Baleizão há sessenta e seis anos e nunca morreu.
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Malunguinho
Quem se faz ao mar oceano e vai por aí a baixo, passando a Madeira tem as ilhas do Cabo Verde. Seguindo em frente, mais um bocado, virando à esquerda está Luanda - a Bela. Se virarem à direita, e seguindo sempre a direito, está o Recife, capital do Pernambuco. Mesmo ao lado do recife, está a cidade de Olinda. O nome já diz o que é. sábado, 11 de abril de 2020
Noites covid
domingo, 5 de abril de 2020
Pobres dos três -- de uma noticia num jornal
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Debaixo da crosta do heroi
segunda-feira, 30 de março de 2020
Desculpa lá pá!
Quero pedir-te desculpa por te ter chamado tantas vezes de estúpido.
Agora, está decidido, vou ser como tu.
A sério.
Vou deixar-me de politicas e de pensamentos críticos que não levam a lado nenhum só incomodam quem lê.
Vou deixar-me desta mania entranhada de ser sempre do contra. Vou passar a odiar os holandeses tanto como tu. Vou odiar os holandeses, e os espanhóis, e os alemães e os russos e a puta que os pariu a todos eles que não são portugueses de corpo e alma como tu e como eu.
Vou passar a odiar todos os estrangeiros que não respeitarem a lusitana alma de brumas e memórias. E se o primeiro ministro de Portugal (Portugal com maiúsculas, vês como aprendo depressa!), digo, se o primeiro ministro de Portugal se mostra zangado com um camone, seja ele de que país for, eu fico logo ainda mais zangado que o primeiro ministro, serei daqueles que pela pátria ergue a voz. Porque apesar da pele morena e cheiro a caril, o homem continua a ser o Nosso Primeiro Ministro. O Primeiro Ministro de Portugal, desta Nação Valente e Imortal. Afinal e contas também nasci e vivo debaixo da bandeira verde e rubra, com o escudo amarelo no meio.
Mais, e digo para te tranquilizar, a partir de hoje, só digo mal das coisas em grande consenso todos dissermos mal.
Melhor ainda, só vou estar contra as coisas a que o meu patrão estiver contra.
Se um gajo quer estar bem, tem de começar ser como os que estão bem. Agir como eles agem até se transformar num deles.
Vou deixar-me de criticar à toa, se o meu patrão, chefe, gerente ou administrador disser que é azul, para mim passa a ser azul, quero la saber da cor que vejo. Afinal e contas são eles é que me pagam.
E um dia compro um carro como o dele, se o banco me emprestar o dinheiro.
Também decidi que vou passar a ser um gajo mais sereno nas escolhas.
Vou passar a odiar os ciganos. E os pretos, todos todos não, mas a maior parte dos pretos. Pelo menos todos aqueles que não se comportarem como brancos. E os brasileiros que invadiram isto tudo.
E vou ficar solidário com os gajos do sef, que enraivecidos do governo vir dizer que agora com esta merda do vírus os emigrantes estão todos legais, na semana passada mataram à porrada um ucraniano. Esses, os ucranianos, também estavam bem era na terra deles, la na Rússia, vejam la se na Rússia há algum problema, com o cabrão do Putin andam todos direitinhos que nem um fuso. Ouvi dizer que o Putim...., esqueçam ia outra vez falar de politica e a politica deixou de me interessar no momento em que decidi ser como tu....
Não vou defender a pide nem o caraças, mas o que é certo é que o Salazar fez coisas bem feitas! Aprendi contigo a frase e vou repeti-la até à exaustão. Vou dizer como tu dizes que esta malta aprende é à porrada. Vou pedir cargas policiais para quem sair de casa. E vou assinar a petição a defender o gnr que matou o miúdo.
Na volta, se calhar até deixo de votar. Tu sempre me disseste que eles são todos iguais. Por isso quando são as eleições não pôes lá o cu.
Vou começar a aprender de futebol. Aprender o que é um fora de jogo,o que é um livre, um pontapé de meio campo e essas coisas todas interessantes. Vou passara ser de uma equipa daquelas que ganha. Ou do Benfica ou do Sporting, porque vivo cá em baixo, se morasse la em cima era do Porto ou do Boavista.
Vou ficar a ver o telejornal e comover-me com os funerais a que os jornalistas não podem ir.
Como tu, vou ser contra as cunhas, contra todas as cunhas que não me favoreçam. E vou ser contra a corrupção e contra todos aqueles que não conseguir corromper com o meu baixo poder de compra.
Vou deixar-me de livros que têm escritas coisas que custam a entender e que é preciso ler várias vezes para perceber.
Vou ter pena dos velhinhos metidos em lares a morrerem de pneumonia contagiosa por essa província fora. Esses velhinhos tratados por trabalhadoras que ganham o salário mínimo e de fidelidade canina ao padre e ao presidente da junta que é quem manda lá no sitio e lhes arranjaram emprego. Esquece a parte do salário mínimo, tive um recaída!
Bem já chega de conversa.
Agora vou vestir-me de ladavainho e vou ao banco. Falar com o gerente, a ver se me arranja um ventilador que me aguente seis meses sem pagar a prestação da casa onde moro e que é do banco. Não levo gravata mas levo camisa, um homem tem de estar ao nível das coisas que faz.
Até vou convidar o gerente para beber um cafezinho. Mesmo que ele quisesse o café está fechado e por isso fico bem no retrato.
Já te disse, que vou ser diferente.
Vou ser como tu. Vou ser tu.
Só que não.
…
Não dá.
Mesmo que eu consiga engolir o teu almoço de macpizza sem vomitar. Mesmo que eu cerre os dentes e tranque a garganta para não te cuspir. Mesmo que eu te aguente no estômago, e te faça descer pelo digestivo canal de contemporânea submissão... Não consigo entranhar em mim essa tua essência de borrego manso que alimenta o fascismo dos dias. Lamento, mas vou ter de te parir. Vou parir-te naquelas dolorosas e involuntárias contracções do intestino, e sairás de mim num jorro sujo.
Logo agora que estamos numa fase de poupar o papel higiénico.
quinta-feira, 26 de março de 2020
Velhos sem medo da pandemia
quinta-feira, 12 de março de 2020
As decisões de poupança e a revolta dos Sipais
domingo, 23 de fevereiro de 2020
Obrigado Zeca
Em Fevereiro de 1987, estava eu a duas semanas de fazer quinze anos.
Ouvia cassetes de heavy metal que o Miguel AcDc me aconselhava. Gravava canções do programa de rádio que passava ao domingos à tarde do António Sérgio que se chamava Lança Chamas. Tinha deixado crescer o cabelo e fazia o possível para sobreviver às hormonas, ao acne e aos problemas de roldanas que marcavam aquela avassaladora adolescência em físico-química suburbana. Era estudante na escola dos Casquilhos, andava no oitava ano e não sabia que a vida era precisamente aquilo que estava prestes a acontecer-me.
Na manhã do dia 23 de Fevereiro quando chegamos a escola logo às oito da manhã percebemos que se passava alguma coisa de diferente. Vivia-se um ambiente estranho. Alguém disse que morreu o Zeca Afonso e que a escola estava de luto.
Eu sabia quem era o Zeca Afonso e associava as suas canções ao 25 de Abril. Nos intervalos os colegas mais velhos da associação de estudantes começaram a mobilizar para irmos todos ao funeral. Acho que foi o Nani quem organizou a lista de quem queria ir. Só da escola onde eu andava foram uns três autocarro.
Entre os cento e cinquenta estudantes, também eu estava.
Lembro nesse dia de um professor politizado me dizer que o Zeca Afonso não era comunista e que a sua obra era património de todos os democratas. Na altura não o entendi e achei que me estava a tentar usar o cadáver do Zeca ainda morno para atacar o PCP. Eu, que nessa manhã ainda não era comunista, não gostei da conversa nem da manobra. Não mandei o professor à merda mas tive vontade.
Às duas horas chegaram os autocarros que a câmara do Barreiro disponibilizou. O presidente na altura era o Hélder Madeira que eu só viria a conhecer vinte anos mais tarde, mas que fiquei a ser admirador dele desde esse dia.
No caminho para Setúbal éramos adolescentes em excursão. Íamos todos para um funeral, mas não deixamos de ser adolescentes. Todos juntos éramos a festa para onde quer que fossemos.
Chegamos quase em cima da hora. Em Setúbal alguém nos disse que a governadora civil que era do PPD queria proibir o funeral. Claro que era mentira, quis só impedir o velório na escola secundária.... De qualquer maneira aquelas três ou quatro camionetas de estudantes do Barreiro traziam os nervos à flor da pele.
Quando nos fundimos com a massa de gente que ia no cortejo sentimos todos que aqueles momentos que estávamos a viver seriam históricos.
Momentos de grande emoção colectiva. Quando espontaneamente, aquela multidão cantou o Grândola acho que todos nos emocionamos. Quando o caixão do Zeca Afonso, coberto com uma bandeira vermelha, entrou no cemitério de Setúbal o dramatismo da cena marcaria todos os presentes. A emoção que se viveu naqueles momentos, ultrapassava a própria morte de um homem. Era mais do que a morte de um cantor. Era mais que a morte de um artista. Aquele momento era o terminar de uma certa época. O fim de uma maneira de viver e fazer as coisas. Era o ponto final de todo um processo.
Nessa tarde ouvi a um dos esquerdalhos presentes dizer: isto hoje aqui é o 25 de Novembro cultural.
Ou outra senhora, uma mulher simples de sotaque serrado a dizer : morreu o vinte cinco de Abrril!
Eu tinha quatorze anos e tudo aquilo simultaneamente me marcou e me passou ao lado.
Afinal era uma excursão da escola com tudo o que envolvia uma excursão da escola..havia os beijinhos, as curtes, os abraços nos bancos de trás do autocarro, as mãos metidas das debaixo das roupas, os copos, os cigarros e as passas e as loucuras próprias de centenas de adolescentes juntos.
Lembro-me que chovia e que um dos colegas caiu dentro de uma campa aberta. Lembro-me da lama amarela do cemitério que sujou as minhas botas e as calças. Lembro-me que ficamos muito tempo dentro da camioneta a espera de alguns que ainda estavam perdidos. Lembro-me ao que sabia a boca de uma colega que vim a beijar desde Azeitão até à chegada ao Barreiro, vinte quilómetros de beijo pela estrada velha. Não me lembro do nome nem da cara. Lembro-me do sabor do beijo e da presidência com que empurrava para baixo a minha mão impedindo o desejado toque nas maminhas.
E lembro-me do Grândola.
Lembro-me daquela gente toda a cantar o Grândola. O Grândola entoado à entrada do cemitério de Setúbal fez-me sentir como se fizesse parte de alguma coisa. De uma coisa importante. De uma coisa muito maior que eu. Uma coisa imensa em que a insignificância que eu era, por mais pequena que fosse, contava e fazia parte.
Essa coisa grande de que fiz parte ali, à entrada do cemitério de Setúbal vai manter-se enquanto memória pessoal e confunde-se com a memória colectiva.
Obrigado Zeca Afonso.











