segunda-feira, 29 de abril de 2019

Ratos

Karni Mata. Assim se chama o templo das ratazanas, disse ratazanas e não dos ratos, para não faltar à verdade e não enganar ninguém, que a minha vida não é enganar quem me lê. Karni Mata. Fica em Bikaner, no Rajastão, Oste da India. Foi no inicio deste seculo, deambulando pelo mundo tropecando, andando e correndo que cheguei a Bikaner onde estive dois ou três dias. Fiquei numa daqueles pensões baratas que nascem como a erva rasteira ao pé das estações de comboios. Aluguei a parte de cima de um beliche e um armario de madeira tipo cacifo do qual me deram um pequeno cadeado com a respetiva chave, coisa que não usei porque naa mochilita levava o meu próprio cadeado! Estava calor, e este vosso amigo, e mais do que de comer, precisava de um banho. Duchei-me nos balneareos da pensão, mudei de cuecas, meias e camisola. Aproveitei a agua corrente para lavar a roupa suja que estendi numa corda entre dois beliches e fiz-me à cidade. A grande atração de Bikaner era, e penso que ainda seja, o templo Karmi Mata. Fui lá. Pelo caminho vi algumas ratazanas, nada de excepcional. Bichitos fugidios entre o lixo que se acumula nos cantos das ruas. É assim em toda a parte do mundo. Verifiquei que à medida que me aproximava do sitio que o mapa em papel dobrado me dizia que estava o templo , a população e o tamanho da rataria foi crescendo. Também a timidez dos roedores se foi desfazendo à medida que me aproximava. Gordos e descarados saltitavam pelos passeios e tinham definitivamente deixado os esconderijos das sargetas. Junto ao tal templo, uma multidão de homens, mulheres, crianças e ratazanas. Cheirava a fruta, leite azedo, chulé e a ratos. Nos templos desse mundo, regra geral, as pessoas entram descalças... Os cristãos são excepção, onde nas igrejas que se pode entrar de botas...mas tirando os seguidores do cruxificado, na casa dos deuses, entra-se descalço. Em Karni Mata é como vos conto. Australianos de ambos os sexos amontovam-se à porta com os tenis pendurados ao pescoço. Mais ordeiros japoneses faziam fila com as sandálias na mão e esperavam que uma excursão de reformados ingleses de saida se calçasse. Homens mulheres e crianças dali mesmo, vendiam redordações do local: fios com medalhinhas de ratazana, estatuas de madeira representando ratazanas, postais com ratazanas, quadrinhos para pendurar com ratazanas, pibturas de ratazanas, batiques com ratazanas, enfim artesano de rataria com fartura. Outros comerciantes, mais ao nível das artes performativas, mostravam ratazanas inchadas de culturismo e guloseimas que alugavam para tirar fotografias com os camones. E a malta alinhava naquilo, ficavam a rir-se para a maquina com a rata ao colo e para poderem tirar a fotografia davam ao dono da criatura o equivalente ao que eu tinha pago pelo almoço. Isto para não falar nas banquinhas que vendiam fruta e leite para fazer oferendas aos ratos. A fila ia avançando neste circo. Chegou a minha vez na fila para entrar. Era preciso descalçar as botas. Olhei para dentro do templo e a contraluz vi os quinhentas mil vultos no chão e nas paredes. Atrás de mim, uma família inglesa pressionava para avançar. Vinham à procura da Índia Mística dos anuncios. Eu procurava outra coisa que definitivamente não estava ali. Desisti de descalçar as botas e sai da fila. Fui à procura de um sitio longe dali para beber uma cerveja. Afastado o suficiente para não cheirar a ratos, protegido do sol, bebi uma cerveja morna numa esplanada que me soube tão bem como se tivesse gelada. A seguir fui comparar o bilhete de comboio para sair dali. Nem sei porque me fui lembrar disto hoje...acho que é por causa do calor que já chegou.

Crime Passional

Ele só queria era correr. Primeiro por motivos de saude. Depois por vicio. Ela ao inicio até lhe deu força. A seguir foi a bicicleta. Milhares de euros na porcaria da bicicleta que custa mais que um carro. Mais, muito mais que o carro dela. Ele quase não parava em casa. Do trabalho seguia para os treinos. Depois as manias da alimentação. Só como isto e nunca aquilo. Saia antes do sol nascer. Nao ajudava nada em casa e ainda chegava com a roupa suada e suja de lama. Ela a queixar-se da lama e da falta de atenção. Ele completamente focado nos planos de treino. Ela deixou de se queixar. Ele começou a ganhar medalhas. Ela sozinha com a televisão acesa e andar para baixo com o dedo e a fazer gosto nas fotografias do facebook. Ele a treinar. Ele mais medalhas e mais reconhecimento. Ela encontrou outro afecto. Ao principio só atençao, depois tesão e por fim paixão. Ele ganhava taças. Ela percebeu que o dinheiro estava na bicicleta, nos tenis e no equipamento dele, afinal era todo todo dele. Todo dele. Se ela saísse não tinha direito a nada. Ele continou focado nos resultados. Ela fez as contas e com muito amor e os pés assentes no chão, preparou tudo. O outro que lhe dava atenção a ela, ajudou a mata-lo a ele. Ela tomou banho e chorosa telefonou para a policia e para os hospitais procura dele. Os jornalistas fizeram a novela. A policia prendeu-a ontem. Muitas vozes de especialistas domesticos disseram: "eu sempre soube que foi ela! A gaja nem chorou" Ele continua morto e enterrado a desfazer a ideia que diz quem faz desporto vive mais anos. Mas cá para mim o que o matou foi o preço da bicicleta.

A dor da Sofia

A Sophia Loren tinha triunfado em Canes na primavera de 1955. Todos ficaram completamente rendidos, encantados, apaixonados e babados pela menina pobre italiana com olhos de gata e corpo de deusa. Chega aos states, contratada pela Paramout vai deslumbrada e deslumbrante no seu papel de vedeta na vida real. A Paramout ainda nesse ano de 1956, organiza um jantar para homenagear a sua nova vedeta. No jantar estão todos os manda-chuvas de hollywood. A Sophia está linda, sente-se o centro do universo e tem razões para isso. Está de vestido preto, rodeada de atencões, criados com bandejas, actores sedutores com salamaleques e produtores ricos com mãos atrevidas. Sentou-se para jantar numa cadeira que alguem puxou. É então que chega uma loura a roubar-lhe a atenção dos homens, das mulheres e dos fotografos que a trabalhar não têm sexo. A loura chama-se Jayne Mansfield e no ano anterior tinha sido a capa da playboy. Chegou já tarde, de vestido branco, saltos altos e superpoderes nos dois mamilos que batiam nas pessoas e nas coisas duas decimas de segundo antes dela chegar e lançavam raios de luz branca e gelada que faziam ricochete na mobilia encandeando tudo e todos. A pessoa que organizou o jantar por venenosa ironia sentou a loura ao lado da Loren. Um dos fotografos presentes, num momento de inspiração disparou. E ficou retratado o sentimento da inveja no olhar da morena e o sorriso de triunfo nos labios da loura. Alem da inveja, a foto talvez explique a razão do trauma da Sophia Lauren que a fez passar os vinte anos seguintes a exibir o decote em todos os filmes em que participou

Só para homens

É sabido que isto de mudar as mentalidade demora mais que passar na triagem do hospital. Vem a propósito esta elevada reflexão sobre a discussão do tema do género. Cavalheiros e damas bem-pensantes, ficam chocados quando se diz que o “género” e falo nesta coisa de ser homem, mulher, bicha, machona ou casto, não tem tanto a ver com a biologia, mas sim com a vivência e as escolhas de cada um. Os cavalheiros conservadores, ficam chocados e retorcem os olhinhos para cima, quando se diz que não faz sentido segregar as mulheres na carreira das armas, segregar os bichas no desporto ou segregar quem quer que seja pela sua escolha de género. Damas, assumidamente católicas, esquecem a tolerância e o amor ao próximo, quando o próximo é por opção lésbica, ou travesti, ou poligamo, bissexual, promiscuo por opção ou exibicionista. Pessoazinhas sempre prontas a criticar a promiscuidade dos outros e a apontar o dedo aos tempos modernos, de "eles e elas misturados", eles que são elas e elas que são eles. Educadores bíblicos que determinam o que são as coisas de homem, e o que são coisas de mulheres, porque não há misturas. Há uma mole de fascistas em botão, dispostos a impor a sua hipocrisia sexual nos moldes de uma realidade fabricada à imagem da burguesia de uma Inglaterra vitoriana, com damas para um lado, cavalheiros para outro. E ai de quem ficar no meio que depressa é condenado à amputação social da identidade porque não sendo nem homem nem mulher, é uma aberração. Encontrei esta fotografia do inicio do século XX que mostra um balneário masculino com sauna. A foto foi tirada num clube para comerciantes e profissionais liberais de Londres. Daqueles clubes onde não podiam entrar mulheres e todos os sócios tinham dinheiro suficiente para serem classificados como cavalheiros dignos. Sem querer entrar em detalhes burgessos e javardolas, digo-vos que pessoalmente me descontraía mais depressa num balneário misto,... porque esta coisa de "só para homens de barba rija" não faz o meu género.

O safio

Há umas noites atrás, numa das margens esquerdas do Tejo, naquelas vazantes de sorte, apanhei um safio. Um safio com uns dois quilos. Não se pode dizer que fosse o maior safio do mundo, nem sequer do tejo... Mas um safio com dois quilos, já é um peixe que dá muita luta e mete respeito pendurado num anzol, sempre a tentar morder tudo e todos. Para mim foi uma grande captura, definitivamente o maior safio que apanhei. O alarido que o meu safio fez a morder o isco, com cana a abanar e a puxar a linha atraiu os outros pescadores presentes. Sempre que há um peixe maiorzinho na linha, quem está próximo, por norma, quem está ao lado, chega-se à frente, para ajudar caso seja necessário, ou mais que não seja por curiosidade. Nessa noite, enquanto tirava ao safio, chegaram-se os presentes, entre eles um daqueles pescadores especialistas, sempre prontos a dar sentenças! Tinha passado o tempo todo desde que chegou, a criticar a pesca dos outros e a explcar como é que se faz... O especialista, excepcionalmente, quando o meu peixe picou, ficou calado. Enquanto a malta dava palpites: puxa mais, dá-lhe linha, cuidado com as pedras, faz isto, faz aquilo... O pessoal à volta todo animado e o especialista calado... Quando o safio ja estava cá fora e eu extasiado desengatei o fecho do estralho, esticando o braço e mostrando o peixe, todos admiramos o tamanho e a força daquele safio... O especialista, olhou, avaliou entendido e sentenciou: -- aí está um bom safio, tem pra í metade do tamanho do safio que apanhei a semana passada!!! E pronto é tudo. Acho que todos nós conhecemos e lidamos todos os dias com especialistas destes!!!!

Coboiada

"Não gosto de arame farpado, nem de quem o usa", assim falou o Kirk Douglas. O meu avô Zé era relojoeiro. Quando o meu avô era chavalo, trabalhou num cinema como ajudante de projecionista, mecanico de optica, projecionista e empregado de bar. Assistiu projectados a todos os grandes classicos em directo nas noites em que estreavam no cinema la da terra. E nas noites seguintes tinha de voltar a ver os mesmos filmes até saber de cor estando sempre atento às marcas para mudar a bobine. Foi ele quem me ensinou a gostar de cinema e a ver filmes. O genero preferido do meu avô, eram os westerns. Com ele vi e revi todos os filmes de cobois. Muitas vezes, porque conhecia os filmes de cor, adormecia ao meu lado e eu tinja de o acordar, abanando lhe o braço: -- olha agora, olha agora! Ontem, porque o Tejo não estava para pescas, vim para casa e quando cheguei toda a minha familia viva dormia. Acendi a televisão estava a dar uma granda coiboiada na Fox. O Homem Sem Rumo, um filmaço do caraças, do King Vidor. Um hino à liberdade e à resistencia contra os poderosos e representados no arame farpado. Fiquei a rever. Foi então que meu avô lá de onde está a descansar, veio sentar-se ao meu lado para assistir ao filme comigo. Estivemos os dois até às tantas Sempre que eu estava prestes a adormecer, o meu avô Zé abanava-me o braço e dizia: -- olha agora, olha agora! Gostei muito do filme e da companhia. Já tinha saudades de ver uma boa coboidada.

Galatazarai

O Bairro de Galatazarai é o Bairro da Torre. Fica na margem Norte do Corno de Ouro. Na parte europeia de Istambul. Casa antigas, ruas estreitas e praças com sol. Dizem que o Marco Polo viveu aqui. É uma zona da cidade onde desde a idade média, viveram os genoveses, depois os búlgaros, austriacos e desde o século XVII franceses. Por isso foi aqui que fundaram o liceu francês. Um bairro de pequenos comerciantes e artífices de detalhe tecnológico tipo relojoeiros, tipografos e oculistas. Já no século XX os "jovens turcos", comandados pelo Kemal Ataturk transformaram o privadissimo liceu francês, num liceu público. Aconteceu na dinâmica de modernizar e criar progresso social afastando no mesmo safanão as veleidades coloniais das nações europeias e os conservadorismo religiosos islâmicos. Foram também " os jovens turcos" que fundaram o Galatazarai Sport Club. Na ruas estreitas afastadas da Praça de Galatazarai, há cafés onde se está a beber chá, fumar chicha, jogar gamão e discutir política em todas as línguas. É assim em Galatazarai desde o mais remoto início dos tempos e será assim até à eternidade. Mesmo debaixo da Ponte de Galata que junta as duas margens do Bósforo e liga o bairro de Galatazarai ao lado de Sultanamed onde estão os principais palácios e onde moravam imperadores, a corte e os seus burocratas, ali mesmo, junto às águas vende-se peixe. Peixinho bom. Fresco. Peixe humilde para gente humilde: carapaus, cavalas, fanecas e taínhas. São bancas de venda ambulante e cada uma está equipada com um fogareiro que permite assar logo ali o peixe que se comprou. Ao lado outros vendedores em carrinhos vendem sandes de peixe assado que escolhemos na banca do vizinho. Há também quem vendas as bebidas. Iogurte, café e chá. Estão por ali umas mesas encostadas onde se pode abancar e comer em cima das toalhas de plástico limpas diligentemente com um pano húmido e gotas de limão. Refeições baratas, para gente do bairro, empregados no comércio, trabalhadores das obras, estudantes e ocasionais viajantes sem guita. Hoje, na rádio não paravam de falar em Galatazarai. Talvez seja por isso que me deram ganas de comer uma sandes de cavala com picante acompanhada de iogurte e chá de maçã..

Robinson

O período da caça às bruxas foi um período tramado. Quando a extrema direita americana caiu a matar sobre Hollywood deu uma machadada tremenda sobre o cinema e os filmes não voltaram a ser os mesmos. O tema da "caça às bruxas" apesar do impacto que teve na história do cinema continua a ser tabu na América e são raras as fitas sobre o assunto. Aqui há uns três ou quatro anos saiu um filme sobre o escritor e argumentista Dalton Trumbo. O Trumbo era um gajo com eles no sítio e foi preso em 48 porque se recusou a colaborar com o fascismo do FBI e ser um instrumento da perseguição aos comunistas. Foi levado a tribunal inquisitorial chamado Comité de Actividades Anti-Americanas. Trumbo e outros nove democratas foram presos porque se recusaram a responder se eram comunistas ou tinham ligações ao Partido Comunista. Foram o grupo dos Dez de Hollywood: Alvah Bessie, Herbert Biberman, Lester Cole, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson, Albert Maltz, Samuel Ornitz, e Adrian Scott. Entre estes dez, ia um chibo, ou dito de uma forma politicamente correcta, ia um senhor que decidiu mudar de ideias. Dmytryk denunciou vários membros do partido comunista e a sua delação comprou a libertação antecipada. Os outros nove cumpriram a pena na totalidade. Estes são os factos. No filme que hollywood pariu sobre o Trumbo, o chibo passou a ser o Edward G. Robinson. Ora não só é mentira como é também uma forma de fazer um ajuste com a história. O Eduard G Robinson não era comunista, até parece que era membro do Partido Democrata, mas ao longo data sua vida e particularmente durante os duros anos da caça às bruxas, esteve lado a lado com os comunistas. Sempre: politicamente em organizações unitárias e pessoalmente solidário com amigos que foram perseguidos. Fazer do Robinson um delator é não só escarrar no prato da sopa da memória mas é também sujar de gosma o pano da história de um homem bom e sobretudo um grande actor. Foi o Robinson que inventou o gangster de hollywood e que serviu de inspiração a Humphrey Bouvard, James Cagney, ao Brando e até ao De Niro. O Robinson chegou à america como uma imigrante pobre, cresceu pobre e ganhou dinheiro como actor mas não esqueceu nunca os seus amigos dos bairros por onde viveu. O seu talento fica escarrapachado nas emoções das personagem que o Robinson criava, que mesmo sendo criminosos não deixavam de ser humanos. Os gangsters do Robinson, mostraram na sua complexidade o lado humano do bandido. Em tempos de tão duros julgamentos morais em que vivemos, que atrás de cada avatar do Facebook se esconde um Torquemada em botão, rever o Edgar G Robinson devia ser obrigatório. Haver um argumentista que estando o homem morto há tanto tempo agora lhe vem chamar delator, é coisa triste. Merecia a tromba amolgada por um dos personagens do mestre

A voragem

“A viagem torna-nos menos estúpidos”, disse o Rimbaud. Disse-o depois de ter passado a sua vida adulta, a deambular pelo mundo. Vá, por meio mundo. Para ser mais preciso, a frase é duma das últimas cartas que escreveu à irmã. Desde que nasceu até aos quinze anos, o Jean Arthur foi uma criança tímida. Depois, dos dezasseis aos dezanove foi poeta. Eventualmente o maior poeta que a humanidade pariu. Rimbaud escreveu poucos poemas. Mas os mais belos, profundos e subversivos poemas jamais escritos. Com a sua curta poesia, modificou profundamente a literatura ocidental. Na poesia há um antes de Rimbaud e um pós Rimbaud. Porque o gajo era mesmo bom... Mas ainda antes de fazer vinte anos deixou de escrever. Disse aos amigos que tinha ganho juízo. Decidiu deixar de ser poeta e enriquecer. Tornar-se homem de negócios, se fosse hoje chamavam empreendedor. De paris viajou para o Sul. Em Marselha apanhou um barco para Trípoli na Líbia. Depois foi para a Etiópia, perseguindo o seu sonho de se tornar um homem rico. Nos dezassete anos seguintes, não parou de vaguear. Foi mineiro, traficante de armas, soldado, condutor de carroças, professor e taberneiro. Comprou e vendeu mercadorias, atravessou montanhas, desertos e pântanos. Dormiu em todas as camas e na beira de todas as estradas. Apanhou todas as doenças e sobreviveu às feras bichos e às feras humanas que sabemos bem que são muito mais perigosas. Mas ninguém passa pela vida impune. Em 1891, o Rimbaud estava um farrapo. Evitando o vernáculo, mas falando objectivamente, o Jean Arthur, aos trinta e sete anos, estava em termos de saúde física e mental, completa, absoluta e irreversívelmente fornicado. Vomitava quase tudo o que comia. Como as águas eram impróprias bebia os vinhos e as bebidas fermentadas que arranjava. Porque era nervoso encharcava a cabeça em ópio. Estava em permanente cólica e brutal caganeira. O primeiro médico francês que o viu, escreveu no relatório, que o doente sofria de graves problemas nos intestinos causados pela alimentação deficitária. É assim que os médicos dizem as coisas... O hábito de carregar permanentemente consigo, vinte e quatro horas por dia, todos os dias um cinturão com três quilos de ouro, que de resto era toda a sua fortuna, a apertar o ventre inchado também não o ajudou. Estava no Sudão, quando deixou de conseguir andar. A ferida aberta na perna não sarava. As dores eram muitas e nem permanentemente pedrado conseguia aguentar. Finalmente percebeu que a coisa era grave. Fez-se transportar de maca, mais de três mil quilómetros para Norte. Até mediterrâneo no Egito. No Egito, devido à gravidade do seu estado e totalmente contra a sua vontade, os médicos sugerem a viagem para França. Em 20 de Maio de 1891 dá entrada no Hôpital de la Conception, em Marselha. A 25 de Maio é-lhe amputada a perna direita. Menos de um mês depois, 23 de Julho, apoiado em duas muletas, Rimbaud deixa o Hospital e apanha, sózinho, o combóio para La Roche. Quer voltar para África o mais depressa possível. Fica à espera de navio, mas três semanas depois, vai abaixo novamente. É obrigado a voltar para Marselha. A 10 de Novembro de 1891, às dez horas da manhã, Jean Arthur Rimbaud morre em Marselha, depois de várias semanas em semi-coma. A 9 de Novembro de 1891, na véspera da sua morte, Rimbaud escreveu a sua última carta As derradeiras palavras desse gênio da poesia foram dirigidas ao Director dos Transportes Marítimos de Marselha. Queria voltar imediatamente. "Dizei-me pois, a que horas devo ser transportado para bordo." Minutos depois voltou a entrar em coma e no dia seguinte estava morto. É tudo. Podem voltar para as vossas vidas.

A primeira noite

Conheceram—se nas filmagens de um filme medíocre mas bem financiado. Ele era uma vedeta de quarenta anos, ela uma jovem atriz revelação de vinte e três doces primaveras. A ela avisaram: cuidado com ele. E ela ainda sem o conhecer, começou logo a ter interesse nele. A ele disseram: vais gostar, faz o teu tipo. Ele, provocador respondeu: depois da Brigite qualquer uma faz o meu tipo. A primeira semana de filmagens foi de trabalho intenso. Muitas cenas de exteriores que era preciso filmar às primeiras horas da manhã. À tarde eram as secas com o realizador a querer ensaiar para o dia seguinte. E à noite os produtores e agentes, chamavam a corja dos jornalistas e fotógrafos para promoverem a fita. Foi numa dessas noites, numa badalada casa da moda em que se bebia e dançava que ele lhe meteu a língua na boca e lhe abraçou a cintura. Ela queixou—se que os sapatos lhe magoavam os pés, ele descalçou—a e atirou para longe as sandálias de salto alto. Passariam juntos doze anos. Os fotógrafos presentes registaram os primeiros beijos. O saliva na língua dele aromatizada de Bourbon e galoise a fundir—se na saliva da garganta dela refrescada por champanhe e com travo a erva. — Vamos sair daqui, tou farto destes merdas! Ela concordou. — Onde moras? — Estou a morar com uma amiga na zona da gare du lest. —Telefonas do meu hotel a dizer que não vais ficar lá hoje... Saíram de fininho sem se despedir. Na rua mais beijos de língua e mãos debaixo do vestido. O Renault dele seguiu por uma Paris quase adormecida desafiando a polícia nos controlos de velocidade e em todos os semáforos vermelhos. No hotel caro, a recepcionista cúmplice perguntou—lhe se queria que servissem uma ceia. Não era preciso. Entraram de mãos dadas no elevador. O amor quase que acontecia ali em plena ascensão, não fosse o plim da chegando ao piso. No quarto ele foi à casa de banho, faz xixi, lavou a cara, penteou—se com a mão e bochechou com pasta dos dentes. Quando voltou ela ainda estava ao telefone com a amiga. Sorriu—lhe, despachou a amiga, desligou e entrou na casa de banho. Ele despiu—se, sorriu, apagou o candeeiro de cima e deitou—se à espera.Tinha s
ido um dia longo, mas estava a correr bem. Ela entrou na casa de banho, fechou a porta, sentou—se no trono de loiça e fez xixi. Abriu o chuveiro, despiu—se, cheirou—se e entrou no duche. Deixou que a água quente nas costas trabalhasse como relaxante muscular. Depois, conscienciosamente, lavou—se. Toda, por inteiro, dando especial atenção às partes que considerava mais necessitadas. Quando saiu do banho, envolveu—se numa toalha de turco com a área de um campo de futebol e ficou em frente ao espelho. Secou o cabelo fazendo um penteado assim meio despenteado. Gostou de se ver. Serviu—se então da água de Colônia, três borrifos: no pescoço, entre os seios, e sobre a púbis que à época se usava peluda. Deixou a toalha no chão da casa de banho e nua e entrou no quarto. ... O inevitável aconteceu: ele tinha adormecido.

Messing

Um dos mais enigmáticos personagens do século XX. Judeu polaco. Nascido no ultimo ano do século XIX. Aprendeu a ler na sinagoga e em criança estava destinado a ser rabino mas a sua natureza inquieta e a história trocaram-lhe as voltas. Médium, vidente, adivinho e comunista. Foi amigo de Estaline e seu confidente desde que fugiu à Gestapo em 1939 até à morte do homem dos bigodes. Em Viena, nos anos 20 conheceu Einstein na casa do Freud de quem era amigo e visita frequente.Terá conhecido Gandhi numa viagem a Inglaterra. Conta-se que Messing saiu de casa ainda em garoto, por volta de 1910 e apanhou o comboio de Varsóvia para Berlim. Teria uns 11 anos e não tinha bilhete, nem dinheiro. Quando o revisor chegou, o miúdo Wolf pegou um papel de jornal rasgado que estava no chão, entregou ao revisor e disse: – Está aqui o bilhete. Ao fazê-lo projectou de tal modo a ideia do bilhete verdadeiro, Varsóvia - Viena, que o que o revisor, viu, foi precisamente o bilhete de comboio e não um papel rasgado. Entre os doze e até quase aos quarenta, fez vida de saltimbanco, apresentado-se em espectáculos de hipnotismo, telepatia e vidência. Quando não ganhava o suficiente para comer, ia aos mercados e com o olhar condicionava os vendedores a entregarem-lhe os seus bens. Pelo início dos anos trinta vivia quase permanentemente em Berlim. Quando o Nazismo chegou ao poder na Alemanha, Messing voltou para a Polónia. Num dos seus espectáculos que juntavam faquirismo, mediunidade e hipnose, profetizou que a Alemanha iria perder a guerra se tentasse invadir a Rússia. Os olhos, ouvidos e afiados focinhos nazis ja andavam por ali e ainda em Varsóvia, foi preso por agentes alemães que o entregaram à Gestapo. Eventualmente para ser interrogado ou encaminhado para algum campo de extermínio, qualquer uma das hipóteses, claramente desagradável. Não sabemos como mas sabemos o Wolf, olhou fixamente hipnotizando os seus carcereiros, e minutos depois, eram os nazis que estavam presos e era o próprio Messing quem fechava a porta das celas e saia pela porta da rua. Como na Europa Central, o ambiente não estava para graças, Messing fugiu para a União Soviética. Primeiro viveu na Bielorrussa, onde se tornou amigo e impressionou as autoridades locais. Mais tarde foi recebido no Kremlin por Estaline, que não sendo religioso, tinha uma grande curiosidade pelo paranormal. Diz-se que Messing ajudou Estaline a vencer a guerra ao nazi-fascismo. Facto é, que no Kremlin Messing e Estaline, entretinham-se com experiências psíquicas. Telepatia e clarividência principalmente. Certa dia, aceitando o desafio do Estaline, Messing sem nenhuma credencial nem qualquer tipo de documentos, foi ao banco de Moscovo, olhou fixamente os olhos do caixa, do gerente e depois do director do banco e trouxe cinco malas cheias de dinheiro que os próprios empregados do banco carregaram pelas ruas de Moscovo completamente hipnotizados. No dia seguinte foi devolver o dinheiro ao banco... Noutras ocasiões, sobretudo quando interessava ao Estaline sair sem que se soubesse, confundiam propositadamente a segurança: Messing, a pedido do Estaline fazia—se passar por ele próprio: sem disfarces, nem fardas, nem bigodes falsos, apenas ele Wolf, olhando para os guardas do Kremlin e condicionando por hipnotismo que era o Estaline quem viam. Os seguranças ficavam confundidos de verem o protegido passar duas vezes e Estaline ria as suas gargalhadas de camponês georgiano das façanhas conseguidas pelo seu amigo médium... Gostavam ambos de comer, beber e ficavam muitas vezes até de manhã a falarem sobre espíritos, assombrações e folclore. Foi Messing quem profetizou a Estaline que a guerra terminaria entre 3 e 5 de maio de 1945 Sem educação formal, era um homem de grande cultura geral que falava e escrevia fluentemente em polaco, russo, hebraico e alemão. Registava diariamente as suas experiências nos seus cadernos. Morreu em 1975 e está enterrado em Moscovo. A KGB, no dia da sua morte, confiscou os seus diários e cadernos. Os seus textos nunca foram publicados mas a sua memória continua a povoar o Kremilin e dizem que às vezes, nas noites sem lua se podem ouvir os seus passos nos corredores.

terça-feira, 12 de março de 2019

A gula dos euforicos

Estávamos sentados na esplanada de uma pisaria barata. Entretidos a ver o mundo passar naquela rua mais ou menos secundária, por trás da estação central. Estava sol e no relvado junto ao canal muitas famílias aproveitavam para expor a pele ao calor. A primavera em Amesterdão acontecia ligeira, mesmo com algum frio, mas com sol. Um sol ainda tímido a empurra todos para ao ar livre. Todas as pessoas da cidade estavam na rua. Na mesa ao nosso lado, contigua com a nossa, sentaram-se duas amigas. Entre os vinte e cinco e os trinta. Notámos pelo sotaque com que falavam uma com a outra que eram inglesas de Londres. Vinha vestidas de britpop apesar da aparência remeter para a urbanidade inglesa na genética tinham a identificação dos antepassados colonizados no sudoeste asiático. Olhos rasgados, cabelos pretos lisos, pele morena e voz de passarinho. As duas juntas com sapatos, casacos, chaves mala de mão talvez pesassem uns oitenta quilos... Estavam visivelmente eufóricas. Viviam aquela euforia fumegante de Amesterdão. Na alegria da liberdade que as ruas, lojas e cafés de Amesterdão dão, quando há euros para serem gastos. Falavam alto e riam muito.Pediram pizza e coca-cola. Entretanto chegou a nossa pizza. Notei numa delas, não a que estava ao meu lado, a outra, que estava em frente, um olhar de gula sobre o meu prato e o queijo que fazia fios... Até comentei: --a bacana agora que viu a pizza é que lhe deu a fome!!! Comemos e continuamos a falar, atentos à monumental moca das vizinhas. Minutos depois chegaram as pizzas das raparias. Fizeram festa com palmas e tudo! A que estava ao meu lado, atacou a pizza como se não visse comida desde os anos oitenta. A do outro lado da mesa, foi mais lenta...gulosa, mas com método, comeu primeiro as bordas de massa que empurrou com coca-cola. Nós continuamos a comer e a ver o mundo passar. A desfrutar do sol que amornava o dia sem ser suficientemente quente para tirar os casacos. A gaja ao meu lado, de repente ficou calada e pálida. E os orientais do sudeste asitico, quando ficam pálidos, ficam transparentes cor de papel de arroz... A outra continuou a falar e a rir.. nem teve tempo para se preocupar com a amiga. De um momento para o outro, da boca da minha vizinha jorrou muito mais pizza que aquela que eu vi comer. Veio a pizza misturada com a coca-cola, café com leite, e uma massa indistinta que parecia bolo de chocolate. Posso descrever a matéria porque vi bem... se não tivesse desviado os pés, tomava um banho grego, ou pelo menos, lavava-me as botas. A empregada apareceu depressa com um balde e uma esfregona. Mas mais rápido que a empregada, chegaram, não se sabe de onde dois policias. Falaram com a amiga em frente, que igualmente pedrada, que continha o riso e balançava entre o choque e a zanga. Tentava explicar aos policias que a amiga estava bem que não era preciso chamar uma ambulância. De vez em quando, a que tinha vomitado, levantava a cabeça e dizia que estava bem, só um bocadinho cansada...A outra justificava: --Que a amiga comeu muito depressa, que estava um bocadinho eufórica e foi gulosa... comeu muito depressa e o estômago rejeitou, só isso... Os dois policias entenderam, mas antes de se irem embora passaram uma multa: por embriagues na via publica e sujar o passeio... Esta memoria anda há dias a pairar-me na cabeça. Pode ser da primavera que ai vejo a chegar. Pode ser vontade de viajar. Pode também ser uma metáfora para a gula de eufóricos que por ai vejo... Às vezes, há pessoas que na sua euforia se deixam tentar pela gula desmedida... Mas do que fome é essa vontade de querer comer mais do que a sua dimensão consegue conter. Nesses casos, é preciso ter cuidado, nem sempre o estômago aguenta. Digo isto, sem maldade nem moralismo. Só naquela... porque me lembro da mocinha que se vomitou toda em Amesterdão

terça-feira, 27 de novembro de 2018

O Tigre

O tigre é feroz, mas a mulher é mais... Sei do que falo. Em tempos remotos, estando eu a vadiar neste calhau redondo e molhado de mar, cruzei-me com um tigre. Foi ao nascer do dia no Parque Natural de Ranthambore, no Rajastão, uma antiga reserva de caça de um Marajá Foi uma coutada de luxo de um daqueles marajás que vivia milionário do oficio de lamber o cu ao Ingleses e reprimir o seu próprio povo. O governo da india fez um parque natural onde é possivel caçar bichos de maquina fotográfica. Tinha chegado na vespera na camioneta da carreira. Viajava com uma mulher que não estava tão receptiva a ideia de conhecer a India profunda quanto eu. Chegamos cansados, alojamos-nos numa tenda alugada nas traseiras de um hotel. Comemos, dormimos, comemos e saímos para ver os tigres. Ainda de noite, da reserva veio um jipe de caixa aberta, onde embarcamos juntamente com um casal de belgas equipados com camaras e aparelhos que davam para filmar no banco do carro a odisseia do espaço, ambos vestidos de camuflado e lavadinhos de fresco. Lembro-me que estava frio e nós não tinhamos tomado banho porque não tinhamos água quente. Seguimos umas duas horas por caminhos de terra. Vimos passaros esquisitos, javalis, veados, texugos e bicheza varieda. Finalmente o carro parou à entrada de uma clareira onde um javali chafurdava na lama de um charco. O guia fardado de caçador e turbante avisou no seu ingles "made in India" que o tigre do qual seguiamos as pegadas há horas, estava ali escondido, do outro lado, nos arbustos. Foi então que se ouviu o rugido. Um rugido petreficante que nos deixou a todos paralisado. Incluindo o javali. Os belgas dispuseram o equipamento. Eu pensei, porra, vou tirar a foto da minha vida para mostrar ao puto. O meu filho teria nessa altura uns cinco ou seis anos... Tinha-me pedido um Tigre e eu dei-lhe um gato... Estava na hora de me redimir e "levar" o tigre pró puto. Sem fazer barulho desci do jepe e aproximei-me da clareira de maquina na mão. Silencio total. Até os pássaros se calaram para ver o que ia acontecer. E aconteceu: o rugido que soou naquele momento, pode não ter sido tão intenso como o do tigre... Mas veio em elevados decibeis e em portugues. -- Foda-se Helder, estou farta desta merda. Venho práqui sem condições nenhumas, dormir numa tenda, sem agua quenta, a ter de fazer cócó num buraco, comer caril de manha, à tarde e à noite, a levantar-me de madrugada e apanhar frio...e para cumulo, agora estás com esta palhaçada de quereres tirar a fotografia ao Tigre! Sabes a quantas horas estás do hospital mais proximo? Tou farta das tuas loucuras Helder! Já chega foda-se! Tou farta. Fartinha! Isto não está a resultar! Tudo isto, foi gritado ecoando no silencio da selva. De facto não estava a resultar. Mas o que tambem é um facto, é que a gritaria não só safou o javali que despertou da parelisia, mas tambem fez fugir o tigre a sete pés, provando definitivamente que em termos de bichos perigosos nada chega à agressividade de uma mulher a quem tiraram a possibilidade de usar o secador. O guia do parque, mais tarde, na garagem onde lavava a lama dos peneus do jipe onde partilhamos chá e vinho do porto, e falavamos de animais e da vida, deu-me um conselho precioso: arranja outra mulher que esta que tens é muito barulhenta! Quem se lixou no meio disto foi o tigre que fugiu sem tomar o pequeno almoço, e os belgas que tiveram de voltar a acordar cedo para tentaram o filme no dia seguinte.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O radar dos pássaros

Li uma vez um livro que conta como um militar, angustiado e inquieto com a guerra colonial, com o medo, com o peso dos cornos mais o tédio, carregado de whiskie marado, ia despejar a raiva e a G3 nos flamingos das praias de Maputo, quando os colonos ainda lhe chamavam Lourenço Marques. Matava os pássaros pousados e em voo sobre as águas. Uma metáfora sobre a angustia do viver fardado a matar e morrer pelo absurdo do império colonial. Muitos verões passaram depois de ler o livro e vem a realidade, essa alternadeira louca e desvairada, mostrar-nos a todos, mais uma vez, que as metáforas dos livros bebem leitinho morno comparadas com as estaladas de bagaço com que a realidade bate. Isto porque grupo de pessoas importantes, depois de muito pensar e refletir, decidiu espetar-nos com um aeroporto pelas trombas. Aqui mesmo em cima da Ilha do Rato. Com os pés de asfalto a pisarem o rio e os gritos mecânicos mais o bafo a borracha queimada e a gasóleo a bater. Aqui no Xangai, no Lavradio e no Altoseixo. Um aeroporto que dizem que é no Montijo mas que nos cai mesmo ao colo sem a malta ter chance de dizer pára lá aí meu! Um bicho grande de ferro e betão que vem saindo da da base do Montijo e avançando pelo nosso Tejo adentro. Desprezando a Ilha, o rio, os peixes, as pessoas e todos todos os pássaros. A estrada larga de alcatrão da pista de aterragem a violar as águas e as marés. Os aviões a violar os ares e as criaturas que voam. O som dos motores a violar as areias, a violar as águas, a violar todos e cada um dos peixes. Os aviões a aterrar a levantar de dentro das nossas casas, de cima da mesa da cozinha. O aeroporto a violar partindo todas as janelinhas das marquises e arrancando da corda a roupa estendida. Com os bichos de ferro a passar a cada cinco minutos, de dia e de noite, a abanar-nos os copos nos armários, os vidros das molduras nas paredes. A violar os telhados com detritos e os alicerces todos com vibração. O fumo a enegrecer-nos as cortinas, a violar-nos os olhos e os dias dos nossos netos por nascer. Os homens importantes e engravatados com a futuro deles a sair pela braguilha aberta, a violarem-nos os pássaros e o futuro. O oficial cornudo do livro da Lídia usa a metralhadora, estes não usam metralhadoras. Mas tal como no livro, também estes homens matam. Também eles, igualmente imponentes para amar, escolhem matar. Também eles embriagados de poder, bêbedos do seu próprio cuspo, vieram para nos matar. A começar com os flamingos nas praias da gente. Nas hélices dos motores, vão misturar-se as tripas dos pássaros, as escamas dos peixes e o que sobrar dos nossos sonhos. Vão misturar-se, as cabeças dos peixes, as penas cor-de-rosa, fragatas, pescadores envelhecidos, os bicos curvos, as patas, e os ossos ensanguentados ou ressequidos, com ameijoas extintas, lambujinhas, óleo de motor e sal. Dizem que a chuva de leite e mel vai ensopar a terra de guito. Dizem que vamos deixar de ser pobres e de andar a contar os trocos para o tabaco. Prometem que vai chegar dinheiro para todos aqueles dispostos a trabalhar na mina próspera do turismo. E contam-nos historias luminosas. Por isso muitos seguem adormecidos nas camas do sonho. Feito múmias embalando asco na fantasia do possível sem ouvir o som dos motores que se aproximam. Nas aguas fundas do Tejo salgado, nadam corvinas, sargos, robalos e douradas. Nadam misturadas com as Tagindes do Camões, com as Oxuns nigerianas e quinhentistas escravizadas e importadas pelos navios negreiros. Mais as Kiandas que soldados e emigrantes trouxeram de Angola. Mais velhas ninfas neolíticas com colares de conchas. Nadam enguias atomizadas da central nuclear de Almaraz. Nadam as almas penadas dos marinheiros de todas as nações que aqui desaguaram. Aqui, onde nas madrugadas de nevoeiro soam os gritos dos mariscadores afogados em invernos passados e que permanecem eternamente perdidos nos lodos das marés vazias de nevoeiro e miséria. Por cima de todo este Tejo, planam os pássaros que quando pousam nas areias que o vento e as marés tonam a cada manhã novamente virgens, alisam as penas e falam uns com os outos em linguagem de pássaro. Os pássaros, que são entidades de facto superiores, juntaram-se num bando denso e em unanimidade, decidiram assombrar o voo dos caças da base-aérea. Então, os homens dos aviões, avisados pelo clamor das populações, crédulos em presságios de morte vinda dos céus, e assustados com o frenético piar dos pássaros foram falar com os donos da pista que se quer estender: Os aviadores perguntaram aos homens que mandam --Mas e os pássaros? É que sabem, com os pássaros é perigoso aterrar... Sempre preparados, os homens que mandam, com o sorriso beato dos que transportam a luz no cartão de crédito platina, disseram iluminados: – Isso é simples, faz-se um estudo e impacto e põe-se um caralho qualquer a tomar conta dos pássaros. – O quê? Perguntaram os aviadores, quase chocados, porque sendo homens de estudos estavam pouco familiarizados com o desbocado vernáculo, distantes em alojamento e linguagem das casernas dos praças. Os homens que mandam corrigiram: – Um radar!! põe-se um radar! Então os senhores pilotos não sabem que um radar é um caralho dos tempos modernos!!! E o falava em nome dos que mandam, continuou a sua iluminada dissertação do caralho: – Um radar é um caralho no sentido mais literal do termo, vernáculos penianos à parte. O caralho era cestinho que servia de ponto de vigia no cimo dos mastros das caravelas. Isso mesmo, senhores pilotos, o cestinho no mastro chama-se caralho. Era onde os marinheiros ficavam à procura do voo das aves que servia para indicar aos nossos nobres e bravos antepassados, heroicos navegantes, a presença tão desejada de terra firme... Assim, com o radar, vemos os bandos dos pássaros a chegar à distancia... E com o silencio que se fez, ficou o senhor importante contente a sorrir para os outros senhores importantes presentes, também eles contentes e esclarecidos com o caralho. --E quando vieram os bandos de pássaros? Como se faz? Insistia o piloto de aviões que é assim uma espécie de motorista com conhecimentos de mecânica mas que é engenheiro. -- Aí é simples, enxotam-se os pássaros com o barulho do motor, ou então não se voa! – Enxotam-se os pássaros?? ou não se voa??? repetiram os aviadores ainda encaralhados com a ideia do radar!!! --Então e para que serve um aeroporto onde não se pode voar? Perguntaram os homens dos aviões.... -- Bem, os senhores são pilotos sabem de pilotagem. Nós que decidimos, damos-vos o aeroporto, damos-vos lições de historia do caralho e ainda querem lições de economia? Deixem-se de merdas e vão mazé trabalhar. E eles foram.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Sessenta Verões

Conheci a Mariana em 1953, numa terça feira, na sala de matematica do Liceu Nacional de Faro. Tinhamos dez anos e passava das oito da manha. Era o primeiro dia no liceu mas o comboio que me levou Olhao, decidiu atrasar-se. Corri e entrei pela primeira porta que vi aberta. Procurei a sala 3...Pentei a franja e com a coragem dos resignados, bati e esperei. -- Entre. Entrei e vi-a. Vi a Mariana mais uma turma de meninas da minha idade e uma professora que depressa me corrijiu o erro. Aqui era a seccao feminina, tinha de sair para a rua, dar a volta ao edificio e entrar por outra porta. Tudo isto me foi dito em tom de raspanete. Eu muito ao longe porque toda a minha atençao, interesse e sentidos foram sugados pelos olhos escuros da Mariana. Ela era de muito longe lá da serra, para os lados de Alcoutim. Mais tarde fiquei a saber que estava a morar com a familia de um senhor chamado Alfredo que era chefe de qualquer coisa na Camara de Faro. O funcionario e a esposa eram devotos catolicos e tinham uma filha da nossa idade, a Maria da Luz. O padre Saraiva que tinha estado em Alcoutim, conhecia a Mariana e a inteligencia da menina e por isso convenceu o Alfredo e a Dona Gloria a aceitarem em casa a Mariana para que a menina pudesse estudar em Faro no liceu. A familia da Mariana, proprietarios de algumas terras na serra, nao tinham muito dinheiro, mas quinze em quinze dias faziam chegar um carregamento de generos alimenticios que suplantavam largamente o consumo da pequena. A Mariana era magra e seca como os serros à volta do Guadiana. Um sorriso cheio de luz e uns olhos que se riam mesmo quando ela nao se queria rir... Quando conheci a Mariana em 1953, conheci tambem o Luis. Meu melhor amigo do liceu e companheiro de aventuras. Desde aquela manha de outubro de 53 ate ao ano fatidico de 1958, todos crescemos juntos. Eu, a Mariana, o Luis e a Maria da Luz. Hoje sei que foram os melhores cinco anos das nossas vidas. A nós cresceram-nos quase bigodes e a elas cresceram as maminhas. A nós cresceram as pernas e os braços para nadar quando nos baldavamos às aulas. A elas cresceram as nadgas para nos enloquecerem quando dançavamos nos bailes da sede do Farense. Quando em outubro o Luis fez 15 anos o pai deu-lhe ordem para fumar e ofereceu-lhe uma chata. No primeiro sabado, saimos os quatro no barco pela ria com as raparigas clandestinas. Atravessamos a ria e aproamos à praia. O paraiso prometido em bilhetes ousados escritos nas folhas de caderno e segredinhos no saguao dos predios abriu-se quase em simultaneo para os quatro. Dois a dois, sem misturas nem confusões, que estavamos nos anos 50. Esse foi o inverno mais quente da minha vida. Sempre que nao chovia iamos os quatro para a ilha dos amores. Seguia com a Mariana por entre as dunas e os arbustos rasteiros até uma cama de areia branca onde descobrimos juntos e felizes o jogo de amar. As vezes ouviamos a Luz e o Luis. Imagino que tambem eles nos ouvissem a nós. Todos ouviamos o mar. Quando chovia, coisa rara, ficavamos no armazem onde estava o barco. Nesse ano, eu,a Mariana e a Luz preparamos-nos para o exame do 5° ano, com sessoes de intenso estudo. O Luis que em março já tinha decidido ficar no quinto ano outra vez, mas solidario no esforço, em imprescindivel no jogo a pares, tambem ele participava no estudo. Em maio, pela pascoa, a Luz começou a engordar. Ao mesmo tempo começaram os enjoos.. O Luis e a Luz estavam grávidos. Nalguma tarde de final de inverno a coisa acontecera. O Alfredo da Camara dizia que matava. A Maria da Luz chorava e a Dona Gloria calada a pensar. Isto contou-me a Mariana que se foi esconder no quintal quando a coisa se soube la em casa. A Dona Gloria conhecia uma parteira em Vila Real que fez o desmancho. O exame do quinto ano estava marcado para quarta-feira dia 4 de junho. No domingo dia 1 de junho, dia da crianca, a Maria da Luz foi abortar. A coisa correu mal e a Luz sangrou durante dois dias. Trouxeram-na para Faro na manha de segunda-feira. À tarde veio o médico. Falou claro, repouso absoluto nos proximos tres dias. E o exame? Nem pensar em exame dizia o medico. Mais inteligente que o medico a Mariana decidiu: o exame para as meninas era de manha e o exame dos rapazes era feito à tarde... Entao o Senhor Alfredo. Pai da Luz só tinha de escrever uma carta a pedir para a filha ir exepcionalmente ir fazer o exame à tarde porque chegaria nessa manha de Lisboa. Ela, Mariana entregava a carta em mão ao reitor e à tarde ia fazer o exame, fazendo-se passar pela Maria da Luz levando o documentos da Luz. Fazia o mesmissimo exame que tinha feito de manha com o juri das professoras, desta vez num juri de professores e numa sala de rapazes. Os professores nao conheciam as alunas por isso nao havia problema. Assim foi. So que a cabra da professora de matematica das raparigas era a dignissima esposa do professor de frances dos rapazes e ja o exame ia a meio, entrou a docente pela sala para levar uma sandes ao marido e imediatamente reconheceu a Mariana, sua aluna que tinha feito exame durante a manha. Chamaram o reitor. O reitor, zangado por ser incomodado, chamou o policia. O policia,sem saber o que fazer, chamou o conissario. O senhor comissário, sem se intimidar com os doutores, chamou criminosa à Mariana. porque identidade falsa é crime na republica portugesa. A Mariana foi expulsa do liceu e voltou para Alcoutim. Nunca mais a vi. A Luz ficou esse verão em casa, recuperou mas não teve filhos. Foi trabalhar para a loja de uma tia em Lagos e casou-se com um ingles mais velho que tinha um veleiro. O Luis desistiu de estudar e continou o negocio do pai com traineiras. Eu fui trabalhar como escriturário na CP.Saí de Olhão, vim para Santa Apolonia e cheguei a chefe de seccao. Casei, tenho dois filhos e tres netos. Vivo na Amadora e estou viuvo ha dois anos. Nao durmo as noites porque fico acordado a sonhar com a Mariana. Se por acaso a virem por aí, digam que o Artur gostava de se encontrar com ela, para tonarmos uma cafe ou coisa assim. Afinal só passaram sessenta verões.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Quando o sporting joga fora

Trabalhavam as duas na secção de recuperação de crédito. Tinham a mesma idade com diferença de 3 dias, uma nascida a 5 a outra a 8 de Fevereiro. Começaram novinhas no banco mais ou menos ao mesmo tempo. A vida fê-las colegas e elas tronaram-se amigas. Depois, porque foram educadas para isso, uma delas casou-se com um rapaz que trabalhava nas finanças, e a outra, um ano depois casou-se com um moço sargento da marinha em permanência no Alfeite. Uma delas católica quase quase praticante, tinha sido catequista e tudo. A outra menos praticante, mas igualmente conservadora filha de um gnr e de uma senhora jeová. Escolherem maridos do tipo bom moço trabalhador, moderadamente ciumentos e luso-machistas sem excessos. Os maridos tornaram-se também eles grandes amigos. Por alem das esposas trabalharem no mesmo sitio, os rapazes tinham em comum um grande amor ao sporting. Ambos sócios encartonados com cotas em dia. Assíduos nos jogos a puxarem um pelo outro assim como puxavam pela equipa. Vieram as crianças: dois meninos gémeos com a trombinha do sargento e uma menina que era a alegria do gajo das finanças. As gravidezes quase simultâneas aproximaram ainda mais as duas amigas. Os dois casais começaram a passar ainda mais tempo juntos. Juntavam-se todos os fins de semana. Quando o sporting joga em Alvalade jantam no sábado e no domingo eles vão os dois à bola e elas ficam juntas em casa, porque não são de sair. Quando o sporting joga fora, eles vão no sábado e elas ficam com as crianças alternadamente na casa de uma da outra. Um domingo em Alvalade, o outro domingo em viagem por este imenso pais de futebóis. Os homens chegam ao final do domingo, eufóricos ou lamentando arbitro, a equipa o presidente... Depois eles ficam a ver os comentários na televisão e elas arrumam a cozinha. Moram a dois quarteirões de distancia. No segunda-feira voltam a encontrar-se as duas na copa, para beber café e arrumar no frigorifico pequenino, as caixas de plástico com o almoço que partilhavam. A coisa é assim há mais de quinze anos. Até que um dia, uma quinta-feira de manha, estava eu na garagem do banco entretido a ler a bola quando desceu o Senhor Gonçalves responsável pela logística e chefe da manutenção, por isso meu chefe. Vinha de cenho fechado e sem dizer bom dia perguntou logo de mau humor: Não tem nada para fazer? A manutenção deste edifício está em pausa? -- Senhor Gonçalves, estou a espera que cheguem as tomadas para ir substituir la em cima na administração... devem estar ai a chegar. Respondi modesto mas rápido, afinal de contas, trabalhava na manutenção há tempo suficiente para ter sempre umas cuecas de aço vestidas quando o chefe chega de mau humor... -- Olhe homem, vá mazé lá a baixo à subcave onde temos o arquivo-morto e veja la o que se passa com a luz, porque já se mudou a lâmpada e não é da lâmpada... O arquivo morto estava sem luz há três semanas. Tínhamos ficado e substituir toda a infraestrutura elétrica no próximo mês de agosto. O cabrão do Gonçalves sabia isso muito bem... Mas chefe é chefe, dobrei o jornal e fui. Desci pelas escadas para fazer tempo e com a lanterna grande na mão. Agora é que lhes deu a pressa!!! Abri a porta com um encontrão, zangado de estarem a inventar coisas para me mandarem trabalhar. Foi então que as vi. No canto entre prateleiras cheias de dossiers. Estavam as duas despidas da cintura para cima. Abraçadas, uma com a mão direita debaixo da saia da amiga que tinha as cuecas junto aos sapatos de médio salto. A outra com os cabelos soltos e a cabeça deitada para trás. Ficaram tão chocadas quanto eu. Ou melhor ficaram mais chocadas que eu...alem de chocadas, encadeadas pela luz da lanterna e gelaram pela travagem brusca na auto-estrada amor que seguia em excesso de velocidade. Sai tão depressa como entrei. Fui chamar o elevador que se chama monta-cargas porque é maior e menos limpo. O monta cargas demorou o tempo suficiente para que elas chegasse ao pé de mim. --Não vi nada. E têm a minha palavra que vou guardar o segredo do que não vi. Guardei. Não falei disto a ninguém. Entre nós os três cimentou-se uma profunda amizade e respeito mutuo. Ficamos amigos até eu me reformar do banco. Mas brincadeiras à parte, digo-vos uma coisa: eu sabia sempre que o sporting jogava fora pelo despertar do leve sorriso de satisfação nos rostos sério e contidos das duas amigas.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O bichinho filhodaputa

Há um bichinho filhadaputa que se mete nas fendas do peito e fermenta nas fendas do corpo, chama-se amor e serve a humanidade. Quando o Fonseca acabou o ato físico de amar, abraçou-se ao corpo da Lúcia. O quarto da pensão promovida a motel, pareceu-lhe ser um lar. Nesse preciso momento, sem que se apercebesse, a mulher com quem estava casado, passou à condição de ex. E foi então, que aquela que até ali era a outra, impulsionada pelo bichinho filhadaputa que é o amor, subiu de estatuto e passou a ser a sua. Naquele dia, à hora de almoço, o caso que era apenas um caso, deixou de ser um caso. Duas semanas depois daquele êxtase controlado entre a saída para o almoço e o café na copa, o Fonseca sairia de casa com duas malas e um entendimento mais ou menos resolvido com a mãe dos filhos, sobre dinheiro, educação das duas meninas e propriedade da casa hipotecada ao banco. Passariam dois meses e a Lúcia, seria assumida como namorada. Menos de um ano depois do encontro furtivo, estariam a viver juntos. O bichinho filhdaputa do amor, iria empurra-los um contra o outro como as pessoas são empurradas e apertadas nos autocarros às seis da tarde. Mas os amantes, àquela hora e naquele lugar, não sabiam de nada disso. Enquanto o Fonseca lhe beijava os ombros nus, ela deu-se conta que ao contrário do que era habitual nele, depois da função cumprida, não se levantou para ir fazer xixi. A Lúcia, aperceber-se dessa mudança assustou-se. As mulheres são mais sensitivas e percebem melhor as movimentações do bichinho filhadaputa que é o amor. Por pressentir o amor a instalar-se gelaram-lhe as costas e ela enroscou-se em si própria abraçando os joelhos a pensar que podia coordenar a secção de processos. O Fonseca abraçou-a e sentiu-se protetor e gostou. De olhos abertos, fitava uma mancha de bolor no abat-jour do candeeiro da loja dos 300, e o bichinho filhadaputa do amor, a abancar-se silencioso dentro dele. Estes minutos do pós coito, de cabeça vazia eram uma ginástica mental, uma ioga da hora de almoço... Espaço aberto para quebrar regras numa existência regrada e focada em objetivos. São estes espaços de cor e luz, precisamente os mais propícios para o bichinho filhadaputa do amor se desenvolver... O caso deles começou com uma proeza que o discreto Fonseca exibia a si próprio: a conquista do cobiçado rabo redondo da Lúcia. Para Lúcia era a junção agradável de uma necessidade fisiológica com a hipótese de incrementar a sua pontuação no complicado sistema de avaliação de desempenho. Passou a ser para os dois, um momento de escape diário. Naquele dia o Fonseca percebeu que afinal havia ali mais qualquer coisa do que uma mancha secreta de prazer na sua existência de fatos cinzentos, registos e assinaturas. Sem perceber bem porquê abraçou-se a essa coisa como um naufrago se agarra a uma boia ou um cão abandonado se apega a quem lhe der comida. Por isso, naquele inicio de tarde, sem saber dos efeitos secundários do bichinho filho da puta do amor, o Fonseca, persistia agarrado às costas da Lúcia que tinha noção que se ia atrasar, mas tinha a certeza absoluta que chegaria antes do chefe. Um carro buzinou na rua. Ele despertou da sua letargia e beijo-lhe a nuca. A Lúcia sentiu um beijo como um sinal da hierarquia para avançar com o processo: levantou-se, limpou-se com as toalhitas de aloé que tinha na mala, vestiu-se, beijou-o e saiu. Ele deixou-se ficar deitado mais três minutos contados no relógio que fez pipi, sem pensar em nada, apenas a padecer da febre do bichinho filhadaputa. Depois foi urinar, vestiu-se, agitou a gravata, pagou a pensão e voltou digno para a companhia. Meia hora depois, no escritório, os olhares deles cruzaram-se e ela disse: – Doutor Fonseca, vou lá a baixo a tesouraria, precisa de alguma coisa? – Deixe estar Lucia, vou descer consigo que tenho de falar com o Doutro Ferrão. Desceram juntos no elevador cheio com mais três colaboradores engravatados e uma senhora de uma empresa externa que fazia as limpezas e empurrava o carrinho e que era invisível para os outros cinco. Apensar do elevador sobrelotado, os amantes sentiram-se sozinhos no mundo. Lado a lado. As suas mãos tocaram-se. Sorriram para si mesmos e a vida continuou com o bichinho filhadaputa a fazer das suas. Ela continuou trata-lo por senhor doutor e ele continuava a pedir-lhe as fotocopias “por gentileza” mas entre os dois uma ponte feita de cuspo do bichinho filhadaputa do amor cresceu como os formigueiros em Africa. O que antes era apenas tesão, vaidade, e empenho na progressão da carreira, evoluiu mais qualquer coisa que não se sabe muito bem o que seja e que logo a começar por isso mesmo é muito melhor do que as coisas que se definem facilmente, se medem e se podem indexar. Viveram felizes para sempre durante cerca de dois anos. Então o Fonseca foi promovido a diretor de sinistros e a Lúcia coordenadora da secção de processos. A vida, o trabalho e o igualitarismo dos dias, enxotou o bichinho filhadaputa. A Lúcia reencontrou no facebook o David Santos seu ex-colega de liceu que voltou do Luxemburgo para abrir um stand de carros importados semi-novos. O Fonseca andou uns meses amargurado e revoltado com a facilidade com que se transferem as matriculas. Passou-lhe a revolta e voltou para casa da mãe das filhas no dia em que viu em que a ex-mulher lhe deixou as meninas em casa para para sair maquilhada com as colegas professoras. Ele ficou com as miúdas e o bichinho filhaputa instalou-se devagar. Meses depois voltava para a casa onde viviam a ex e as filhas, que de todas as formas nunca deixou de ser ele a pagar a hipoteca.