segunda-feira, 30 de março de 2020

Desculpa lá pá!

…. Quero pedir-te desculpa por te ter chamado tantas vezes de estúpido. Agora, está decidido, vou ser como tu. A sério. Vou deixar-me de politicas e de pensamentos críticos que não levam a lado nenhum só incomodam quem lê. Vou deixar-me desta mania entranhada de ser sempre do contra. Vou passar a odiar os holandeses tanto como tu. Vou odiar os holandeses, e os espanhóis, e os alemães e os russos e a puta que os pariu a todos eles que não são portugueses de corpo e alma como tu e como eu. Vou passar a odiar todos os estrangeiros que não respeitarem a lusitana alma de brumas e memórias. E se o primeiro ministro de Portugal (Portugal com maiúsculas, vês como aprendo depressa!), digo, se o primeiro ministro de Portugal se mostra zangado com um camone, seja ele de que país for, eu fico logo ainda mais zangado que o primeiro ministro, serei daqueles que pela pátria ergue a voz. Porque apesar da pele morena e cheiro a caril, o homem continua a ser o Nosso Primeiro Ministro. O Primeiro Ministro de Portugal, desta Nação Valente e Imortal. Afinal e contas também nasci e vivo debaixo da bandeira verde e rubra, com o escudo amarelo no meio. Mais, e digo para te tranquilizar, a partir de hoje, só digo mal das coisas em grande consenso todos dissermos mal. Melhor ainda, só vou estar contra as coisas a que o meu patrão estiver contra. Se um gajo quer estar bem, tem de começar ser como os que estão bem. Agir como eles agem até se transformar num deles. Vou deixar-me de criticar à toa, se o meu patrão, chefe, gerente ou administrador disser que é azul, para mim passa a ser azul, quero la saber da cor que vejo. Afinal e contas são eles é que me pagam. E um dia compro um carro como o dele, se o banco me emprestar o dinheiro. Também decidi que vou passar a ser um gajo mais sereno nas escolhas. Vou passar a odiar os ciganos. E os pretos, todos todos não, mas a maior parte dos pretos. Pelo menos todos aqueles que não se comportarem como brancos. E os brasileiros que invadiram isto tudo. E vou ficar solidário com os gajos do sef, que enraivecidos do governo vir dizer que agora com esta merda do vírus os emigrantes estão todos legais, na semana passada mataram à porrada um ucraniano. Esses, os ucranianos, também estavam bem era na terra deles, la na Rússia, vejam la se na Rússia há algum problema, com o cabrão do Putin andam todos direitinhos que nem um fuso. Ouvi dizer que o Putim...., esqueçam ia outra vez falar de politica e a politica deixou de me interessar no momento em que decidi ser como tu.... Não vou defender a pide nem o caraças, mas o que é certo é que o Salazar fez coisas bem feitas! Aprendi contigo a frase e vou repeti-la até à exaustão. Vou dizer como tu dizes que esta malta aprende é à porrada. Vou pedir cargas policiais para quem sair de casa. E vou assinar a petição a defender o gnr que matou o miúdo. Na volta, se calhar até deixo de votar. Tu sempre me disseste que eles são todos iguais. Por isso quando são as eleições não pôes lá o cu. Vou começar a aprender de futebol. Aprender o que é um fora de jogo,o que é um livre, um pontapé de meio campo e essas coisas todas interessantes. Vou passara ser de uma equipa daquelas que ganha. Ou do Benfica ou do Sporting, porque vivo cá em baixo, se morasse la em cima era do Porto ou do Boavista. Vou ficar a ver o telejornal e comover-me com os funerais a que os jornalistas não podem ir. Como tu, vou ser contra as cunhas, contra todas as cunhas que não me favoreçam. E vou ser contra a corrupção e contra todos aqueles que não conseguir corromper com o meu baixo poder de compra. Vou deixar-me de livros que têm escritas coisas que custam a entender e que é preciso ler várias vezes para perceber. Vou ter pena dos velhinhos metidos em lares a morrerem de pneumonia contagiosa por essa província fora. Esses velhinhos tratados por trabalhadoras que ganham o salário mínimo e de fidelidade canina ao padre e ao presidente da junta que é quem manda lá no sitio e lhes arranjaram emprego. Esquece a parte do salário mínimo, tive um recaída! Bem já chega de conversa. Agora vou vestir-me de ladavainho e vou ao banco. Falar com o gerente, a ver se me arranja um ventilador que me aguente seis meses sem pagar a prestação da casa onde moro e que é do banco. Não levo gravata mas levo camisa, um homem tem de estar ao nível das coisas que faz. Até vou convidar o gerente para beber um cafezinho. Mesmo que ele quisesse o café está fechado e por isso fico bem no retrato. Já te disse, que vou ser diferente. Vou ser como tu. Vou ser tu. Só que não. … Não dá. Mesmo que eu consiga engolir o teu almoço de macpizza sem vomitar. Mesmo que eu cerre os dentes e tranque a garganta para não te cuspir. Mesmo que eu te aguente no estômago, e te faça descer pelo digestivo canal de contemporânea submissão... Não consigo entranhar em mim essa tua essência de borrego manso que alimenta o fascismo dos dias. Lamento, mas vou ter de te parir. Vou parir-te naquelas dolorosas e involuntárias contracções do intestino, e sairás de mim num jorro sujo. Logo agora que estamos numa fase de poupar o papel higiénico.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Velhos sem medo da pandemia

Dizes que já nasceste sem medo. 
Que a morte não te pega porque sabe que não tens medo. 
 Que não tens medo da morte que te levou pais e irmãos ainda não tinhas dez anos. Lembras dos Invernos eternos dos anos quarenta descalço e com uma sardinha cozida a dividir por três. Dizes que não tiveste medo do frio nem da fome. Dizes que não tens medo das coisas certas. Que nunca tiveste medo nem da morte nem do trabalho. 
Lembras-te dos bufos dentro da fábrica e dos encarregados lambe-botas e dizes que nunca tiveste medo de nenhum deles. Lembras-te da PIDE a farejar na esquina e da GNR a varrer a cavalo pela rua. Dizes que nunca tiveste medo nem de uma nem da outra. 
Lembras-te de começar a guerra lá nas colónias e de te terem mandado combater, matar e morrer pelas riquezas dos outros. Dizes que foste, que viste a morte debaixo do teu pé direito e que a calcaste com a bota da tropa. Dizes que a morte desistiu de te matar e por isso voltaste inteiro sem medo. 
Lembras-te da revolução e de quando diziam que estava um porta-avioes dos americanos no Bugio pronto a atracar na Fonte da Telha e arrasar a península de Setúbal e acabar com isto tudo. Não tiveste medo do porta aviões nem dos americanos nem dos boatos e aos sábados ias ajudar na reforma agrária sem medo.
Lembras-te do 25 de Novembro e quando outros fugiram como ratos foste dos que ficaste até ao fim, disciplinado e disposto ao que fosse preciso, porque não tiveste medo. 
Quando nos anos oitenta te começaram a meter medo com a crise e a acenar com meia dúzia de contos para saíres da fábrica, tu não tiveste medo, mandaste os gajos porém o dinheiro na peida e ficaste até ao fim.
Quando o médico te descobriu a mancha nos pulmoes causada por décadas a respirar o bafo da indústria química misturada com o sg gigante diário ... Falou-te no cancro e quis-te meter medo. Tu mudaste de médico, enganaste o cancro e continuaste a fumar. Sem medo. 
Hoje vi-te a tentar a sorte enquanto raspavas um cartão colorido a ver se te saía alguma coisa. 
Falei-te no bicho e mandei-te ir para casa. 
Tu disses-te que não lhe tinhas medo. E voltaste a falar-me na GNR, na PIDE, na guerra e no cancro que não te mataram. E disseste que não tens medo ao bicho. Que a ti não te pega. Que nem as doenças venéreas te quiseram nem a tuberculose que habitava na miséria que te matou a infância. 
Fiz o que tinha a fazer. 
Educadamente, com o respeito e carinho que me mereces, e de forma a tu compreenderes, disse-te: 
-- Olha lá velho de um cabrão, meu teimoso da merda, gostaste dos resultados das últimas eleições? Gostaste? ... Então vai para casa para poderes votar nas próximas. 
E tu, surpreendentemente, foste .

quinta-feira, 12 de março de 2020

As decisões de poupança e a revolta dos Sipais

“1 Pegar no mosquete com a mão esquerda com o cano virada para cima, 2 segurar o cartucho da pólvora com a mão direita, 3 com os dentes rasgar o cartucho,4 verter a pólvora dentro do cano, 5 introduzir e empurrar a bucha e a bala pelo cano com a vareta, 6 retirar a vareta, puxar o martelo de percussão para a posição intermédia e ajustar a alça, 7 colocar o fulminante na câmara,8 puxar o martelo de percussão para trás, 9 apontar e 10 disparar.” 
Era estas as instruções que acompanhavam o mosquete Pattern de 1853, P-53, da empresa inglesa Enfield cujo principal accionista era a Companhia das Indias. A empresa Enfield,desenvolveu e criou o mosquete Patern especialmente para defender os interesses da Companhia nas vastas possessões do Oriente. 
O mosquete foi vendido às carradas. Era fabricado para equipar as tropas estacionadas na Índia que protegiam os interesses dessa poderosíssima companhia contra as recorrentes rebeliões e levantamentos locais. Na Índia colonial e estamos a falar do Grande Industão, que inclui a Índia, o Paquistão, o Afeganistão, o Bangladesh e uma parte da Birmânia, actual Mianmar, as lideranças locais estavam submetidos à autoridade da Companhia das Índias mas recorrentemente revoltavam-se. 
Os ingleses, governavam indirectamente através desta empresa sem terem de sujar as luvinhas brancas da farda colonial. Havia um contingente de cerca de 30 mil soldados ingleses na Índia que comandavam uns 300 mil soldados indianos, conhecidos como sipais, que quer dizer soldado, todos ao serviço da Companhia. 
Com a chegada do novo modelo do mosquete Pattern, esperava-se uma melhoria da capacidade operacional das tropas ao serviço da companhia. Esta arma fora feita especialmente para poder ser usada em duas linhas de fogo e esperava-se que fosse particularmente eficaz a reprimir ataques de cavalaria, que eram a dor de cabeça dos ingleses, sobretudo nos planaltos do Afeganistão, no norte da India e no Paquistão. 
Acontece que a realidade ultrapassa sempre todos os planos, por mais elaborados que sejam. 
As instruções do mosquete moderníssimo de carregar pela boca, não falam no tema, mas os cartuchos de pólvora eram em papel vinham impermeabilizados. Em vez de ser atribuída uma bolsa com pólvora que os sapais podia ir roubando, levando para casa a pólvora da companhia e misturar areia na pólvora que ficava na bolsa, o moderno mosquete P53, estava preparado para usar cartuchos individuais de pólvora. A utilização do cartuxo, não só permitia calcular a quantidade exacta de pólvora para cada disparo, como permitia um controlo rigoroso dos gastos. 
A única dificuldade era a impermeabilização dos cartuchos. Sobretudo na época da moção. Como em 1853 não se usavam plástico, os fabricantes recorriam ao papel e a um método de impermeabilização utilizando cera de abelha para garantir que a pólvora se mantinha seca. Era a solução tecnológica possível. 
Mas a cera de abelha era um produto relativamente caro, então, um senhor da Companhia das Índias, um manga de alpaca com visão para o negócio, procurou uma solução mais barata. 
Estudou o problema reuniu com uma serie de peritos e apresentou uma solução imediatamente aceite pelos administradores da companhia: resolveram impermeabilizar os cartuchos do novo mosquete com uma mistura de sebo de vaca e banha de porco. 
 Os accionistas da companhia das Índias acharam que aquele senhor que substituiu a cera por sebo e banha, estava a fazer um excelente trabalho e os estava a fazer um bocadinho mais ricos... 
Claro que a Enfield, que a Companhia das Índias, e que a própria Rainha Vitória não faziam ideia do impacto do sebo e da banha. Não imaginaram que esta solução ia matar muitos mais do que as balas dos modernos mosquetes.... 
Os sipais, aquelas centenas de milhares que defendiam os interesses da Companhia das Índias contra os interesses da Índia, estavam dispostos a matar os outros os seus irmãos, primos e vizinhos por meia dúzia de xelins que os ingleses pagavam de soldo e por um prato de lentilhas de caril que lhes davam para comer... Mas quando perceberam que para fazer o seu trabalho de sipais era preciso por na boca banha de porco ou sebo de vaca, a coisa deu para o torto. 
Matar outros indianos tudo bem, comer vaca ou porco é que não! 
Nem os muçulmanos, nem os hindus estavam dispostos a combater com a boca conspurcada. 
A revolta estourou violenta em várias frentes. Foram precisos vir reforços de Inglaterra, da Escócia e da Irlanda. Morreram mais de cinco mil britânicos, incluindo famílias inteiras. 
Foram executados para cima de cinquenta mil indianos. O domínio da Companhia das Índias acabou. 
A Rainha Vitória tornou-se Imperatriz da Índia e o governo britânico passou a governar directamente. 
Foi aprovada uma lei de tolerância religiosa que permitia aos hindus, muçulmanos e católicos liberdade de culto e garantia o respeito pela pratica cultural. 
Foram admitidos, pela primeira vez, indianos nos serviços públicos na índia. 
A um nível mais subjectivo, esta revolta dos sipais, deu origem ao sentimento nacionalista indiano que foi mais tarde escrito pelo Tagore e concretizado pelo Gandhi. 
A ideia de poupança do manga-de-alpaca sobre a impermeabilização dos cartuchos de pólvora teve de facto um grande impacto. Nem ele, com toda a sua ambição de contador de moedas conseguiu algumas vez vislumbrar a dimensão das consequências daquela medida de poupança que propôs à administração da Companhia.
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Nos dias que correm, à nossa volta, podemos assistir a mesma lógica nalgumas decisões que poupam dinheiro nos orçamentos... sem ter a mínima noção dos impactos das suas poupanças. 
Não precisam que vos mostre, pois não?

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Obrigado Zeca

Em Fevereiro de 1987, estava eu a duas semanas de fazer quinze anos. Ouvia cassetes de heavy metal que o Miguel AcDc me aconselhava. Gravava canções do programa de rádio que passava ao domingos à tarde do António Sérgio que se chamava Lança Chamas. Tinha deixado crescer o cabelo e   fazia o possível para sobreviver às hormonas, ao acne e aos problemas de roldanas que marcavam  aquela avassaladora adolescência em físico-química suburbana. Era estudante na escola dos Casquilhos, andava no oitava ano e não sabia que a vida era precisamente aquilo que estava prestes a acontecer-me.  Na manhã do dia 23 de Fevereiro quando chegamos a escola logo às oito da manhã percebemos que se passava alguma coisa de diferente. Vivia-se um ambiente estranho. Alguém disse que morreu o Zeca Afonso e que a escola estava de luto.  Eu sabia quem era o Zeca Afonso e associava as suas canções ao 25 de Abril. Nos intervalos os colegas mais velhos da associação de estudantes começaram a mobilizar para irmos todos ao funeral. Acho que foi o Nani  quem organizou a lista de quem queria ir. Só da escola onde eu andava foram uns três autocarro.   Entre os cento e cinquenta estudantes, também eu estava. Lembro nesse dia de um professor politizado me dizer que o Zeca Afonso não era comunista e que a sua obra era património de todos os democratas.  Na altura não o entendi e achei que me estava a tentar usar o cadáver do Zeca ainda morno para atacar o PCP.  Eu, que nessa manhã ainda não era comunista, não gostei da conversa nem da manobra. Não mandei o professor à merda mas tive vontade.  Às duas horas chegaram os autocarros que a câmara do Barreiro disponibilizou. O presidente na altura era o Hélder Madeira que eu só viria a conhecer vinte anos mais tarde,  mas que fiquei a ser admirador dele desde esse dia.  No caminho para Setúbal éramos adolescentes em excursão.  Íamos todos para um funeral, mas não deixamos de ser adolescentes. Todos juntos éramos a festa para onde quer que fossemos. Chegamos quase em cima da hora. Em Setúbal alguém nos disse que a governadora civil que era do PPD queria proibir o funeral. Claro que era mentira,  quis só impedir o velório na escola secundária.... De qualquer maneira aquelas três ou quatro camionetas de estudantes do Barreiro traziam os nervos à flor da pele.  Quando nos fundimos com a massa de gente que ia no cortejo sentimos todos que aqueles momentos que estávamos a viver seriam históricos. Momentos de grande emoção colectiva. Quando espontaneamente, aquela multidão cantou o Grândola acho que todos nos emocionamos. Quando o caixão do Zeca Afonso, coberto com uma bandeira vermelha, entrou no cemitério de Setúbal o dramatismo da cena marcaria todos os presentes. A emoção que se viveu naqueles momentos, ultrapassava a própria morte de um homem.  Era mais do que a morte de um cantor. Era mais que a morte de um artista. Aquele momento era o terminar de uma certa época. O fim de uma maneira de viver e fazer as coisas.  Era o ponto final de todo um processo.  Nessa tarde ouvi a um dos esquerdalhos presentes dizer: isto hoje aqui é o 25 de Novembro cultural. Ou outra senhora,  uma mulher simples de sotaque serrado a dizer : morreu o vinte cinco de Abrril! Eu tinha quatorze anos e tudo aquilo simultaneamente me marcou e me passou ao lado.  Afinal era uma excursão da escola com tudo o que envolvia uma excursão da escola..havia os beijinhos, as curtes, os abraços nos bancos de trás do autocarro, as mãos metidas das debaixo das roupas, os copos, os cigarros e as passas e as loucuras próprias de centenas de adolescentes juntos.  Lembro-me que chovia e que um dos colegas caiu dentro de uma campa aberta. Lembro-me da lama amarela do cemitério que sujou as minhas botas e as calças. Lembro-me que ficamos muito tempo dentro da camioneta a espera de alguns que ainda estavam perdidos. Lembro-me  ao que sabia a boca de uma colega que vim a beijar desde Azeitão até à chegada ao Barreiro, vinte quilómetros de beijo pela estrada velha. Não me lembro do nome nem da cara.  Lembro-me do sabor do beijo e da presidência com que empurrava para baixo a minha mão impedindo o desejado toque nas maminhas.  E lembro-me do Grândola.   Lembro-me daquela gente toda a cantar o Grândola. O Grândola entoado à entrada do cemitério de Setúbal fez-me sentir como se fizesse parte de alguma coisa. De uma coisa importante. De uma coisa muito maior que eu.  Uma coisa imensa em que a insignificância que eu era, por mais pequena que fosse, contava e fazia parte. Essa coisa grande de que fiz parte ali, à entrada  do cemitério  de Setúbal vai manter-se enquanto memória pessoal e confunde-se com a memória colectiva.  Obrigado Zeca Afonso. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A relíquia do ditador

O ditador, antes de ser ditador, também foi menino. Na escola primária, os colegas chamam-lhe “combinadinho”. Por ser magrinho e pequenino, justificava a mana Pilar. Por ser uma merdas que andava sempre a volta dos padres-professores a fazer combinações, recordavam os outros alunos. Miúdito introvertido e calado, de compreensão lenta e ligado a intrigas. No liceu, é pouco dado a leituras. Melancólico, deprimido e de aspecto vulgar, é assim que se lembram dele. Sempre pronto a denunciar, caluniar e disposto a tudo para agradar aos professores. Na carreira das armas que seguiu por vocação, só não foi o pior do seu curso porque compensava a inaptidão e a falta de inteligência com uma capacidade de graxa e de delação descomunal. Mesmo num sitio onde a graxa e a delação eram premiadas, como a escola de infantaria de Toledo, o carácter gelatinoso do Paco Franco perdurou na memória dos que com ele tiveram de conviver. Há registos escritos que contam como sofreu de bulling durante todo o tempo que ali esteve a aprender a ser soldado. Faltava-lhe a capacidade de liderança, a criatividade e a audácia. Os outros abusavam do rapaz que se vingava com denuncias e intrigas. É por esta altura, à volta dos vinte anos que se abraça definitivamente na fé em Cristo, nos santinhos e nos curas. Só a fé o podia salvar. É na fé que se vai afirmar. Um militar de fé em Cristo. A igreja católica acolheu-o no seu seio e fez dele o que na história ficou. Os registos e memórias dos nauseabundos fascistas que lhe estiveram próximos, contam que o ditador era um católico devoto e diariamente praticante. Alem da missa matinal e do terço ao cair da noite, tinha uma relação especial com Santa Teresa de Ávila. Muitos acreditava que o generalíssimo tinha uma missão sagrada e uma magia secreta que o faria triunfar sempre. Ele própria acreditava que sim, que estava protegido por Deus. Trazia sempre consigo, nada mais, nada menos que a mãozinha da Santa Teresa de Ávila. Dizia aos mais próximos, que aquela mãozinha da santa, foi quem o susteve e guiou em toda a campanha de vitória por Espanha e na cruzada contra o Comunismo. Aos mais íntimos, chegou mesmo a dizer que a mão da santa Teresa era seu o maior agente de protecção pessoal. Mais eficiente que a falange de assassinos armados até as dentes prontos a matar e a gritar viva Espanha. Mais forte que o exercito equipado com o bom e o melhor, à custa da miséria dos espanhóis. Havia uma equipa de segurança nomeada para proteger com a própria vida, se fosse necessário, a sagrada relíquia. Vivia com a mão da santa na sua e nunca se separava do amuleto. Todas as noites, antes de dormir o generalissimo, exigia que a mãozinha fosse posta na mesa de cabeceira. Foi assim até morrer de velho. Com a idade a avançar e a ideia da morte a fazer-se presente, começou a caçar e a coleccionar relíquias sagradas. Os seus amigos da igreja alimentavam a coisa, alguns historiadores nacionalistas também. Trouxeram-lhe a espada de São Fernado, ou a espada que lhe disseram ter pertencido ao Rei Fernando III de Castela, arma venerada desde os tempos da reconquista. Da Palestina, trouxeram-lhe bocados de madeira velha que disseram ser da cruz de Cristo. Um cardeal amigo em Roma, conseguiu comprar por uma fortuna, um filamento do sudário, aquele pano onde dizem que embrulharam Jesus. Imagens de santos com fama de milagrosas eram às carradas... Mas nenhuma relíquia recebia do ditador o carinho e a atenção que a mãozinha decepada do cadáver da Teresa de Àvila.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Batepá

O Jovem tenente coronel de artilharia, Carlos Gorgulho, era o que se pode chamar um homem às direitas.   Homem de armas habituado a canhões e pouco dado a leituras.  Tinha nojo de políticos e abominava os comunistas.  Chegou a São Tomé com vontade de brilhar. Estava-se em 1948, o mundo lambia as feridas da segunda-guerra mundial, a América injectava dinheiro na Europa destruída em troco do combate ao comunismo. O Carlos da artilharia, oficial de carreira neste cantinho maltratado, achava que esta nomeação para Governador Geral da Colónia de São Tomé e Príncipe, era mais que merecida, afinal de contas estava com o Estado Novo desde o inicio...Se durante a guerra tinha as suas simpatias pelas tropas do eixo e pelo austríaco do bigodinho, nunca deixou de servir a ditosa pátria amada com zelo e rigor, servindo com o mesmo zelo o Senhor Presidente do Concelho Doutor Oliveira Salazar que para ele, era praticamente  a mesma coisa. Trouxe consigo uma pequena equipa de jovens militares. Tratou logo que chegou, de se reunir com as figuras vivas da ilha: com os portugueses principais proprietários de roças de cacau, com o senhor bispo, com o chefe da policia... O Gorgulho era um homem de acção e deslumbrado com o poder quase absoluto que tinha nas mãos, decidiu mostrar a São Tomé, ao Príncipe, às colónias e a Lisboa, com quantos paus de faz uma canoa.  Acontecia, que naquele  tempo do pós guerra, o preço do cacau continuava em ascensão. O habito de consumo que os gringos tinham deixado na Europa de consumir tabeles de chocolate quase diariamente, estava a revolucionar o negocio do chocolate que até ao inicio da segunda-guerra era consumido quase sempre como uma bebida quente...  Os americanos e a sua satisfação oral nas barras de chocolate inventaram todo um novo mercado mundial. Os portugueses proprietários das roças naqueles anos, conseguiam vender toda a produção e não conseguiam vender mais, porque precisavam de mais e melhores infraestruturas para fazer escoar o seu cacau.  Quando os lusos senhores das roças conheceram o Gorgulho,  viram uma oportunidade de ganhar o jovem governador para a sua batalha pelo desenvolvimento e modernização da ilha. Pensavam e falavam, naturalmente naquele desenvolvimento e modernidade que os deixaria um bocado ainda mais ricos. O Governador Gorgulho naquela ilha quase virgem de estradas e de cais de embarques, viu a oportunidade para mostrar que nada melhor que um oficial de artilharia para governar uma colónia. No tédio tropical da Ilha, desenhou planos que com a sua mão de ferro de canhão depressa pôs em prática. Estradas, pontes, linhas de caminho de ferro, ruas pavimentadas, docas, cais de embarque e desembarque. Com as sobras, novos telhados para as igrejas.  Os fazendeiros portugueses deliravam e comentavam que era desta é que era, o bispo abençoava, os revenderes de cacau em Lisboa comentavam e o Gorgulho estava a trabalhar bem. O Governador, satisfeito ia escrevendo relatórios para a metrópole que era autenticos canhonadas na estratégia de gerir colónias. ~ Queria mostrar a Lisboa, ao Concelho e ao Senhor Presidente do Concelho Doutor Oliveira Salazar que nomear o Tenente Coronel Gorgulho para governador de Sao Tomé era o inicio de uma nova era na politica ultramarina.  Mas há sempre um problema a atrapalhar os planos dos grandes homens como o Gorgulho.  Agora que tinha o material a chegar da metrópole, que o ferro e o cimento estava garantido... tinha dificuldades na mão de obra.... não havia mão de obra suficiente... O Gorguho não era muito de ficar bloqueado a  pensar nos problemas. Era um homem de ação e como homem de acção que era, decidiu pela solução óbvia. Requisição directa de mão de obra entre os trabalhadores das roças de cacau. Requisição directa entre os moradores das roças, entre os moradores da cidade, requisição directa sobre quem quer que fosse que pudesse segurar numa pá. O trabalho é que educa e para o governador Gorgulho, nada como uma pá, uma picareta ou um carrinho cheio de pedras ou areia na mão para educar esta malta que ele considerava inferior e indolente. Requisição geral, fez o governador, porque o trabalho também liberta. Aos primeiros trabalhadores a serem recrutados, foi-lhe pago um valor correspondente a metade do salário que os fazendeiros da roça pagavam. Pagavam, teoricamente, e digo teoricamente porque ao maior parte dos trabalhadores não chegavam a receber um tostão porque para poderem estarem nas orças contraiam dividas que não conseguiam chegar a pagar nunca... mas essa é outra história. Ou não... se calhar é a mesma história... Com o avançar das obras e o derrapar dos preços e prazos nas lamas da selva a mão de obra deixou de ser paga. As pessoas eram requisitadas e trabalhavam em sistema de voluntariado... que não era bem voluntariado porque não podiam deixar de o fazer.  Os homens, mulheres e crianças decidiram protestar pela situação e organizaram uma espécie de manifestação batendo com as pás no chão. As pás a baterem no chão e umas nas outras. Só isso...mas as pás paradas fizeram um barulho ensurdecedor. As pás a bater fizeram um barulho tão grande que se ouviu lá em cima no palácio do governador.  Ouviu-se na residência episcopal, na esquadra da policia, no quartel. Ouviu-se nas casas dos portugueses donos das roças...  Foi num dia como o de hoje. Dia três de Fevereiro de 1953.  O Governador Gorgulho, habituado aos tiros de canhão e desabituado das pás a bater, teve uma diarreia tropical quando ouviu as ferramentas em greve. O panico do comunismo deixou-o doente... e já se sabe que as doenças de medo, num clima quente, são ainda piores! Reuniu os seus homens de confiança, falou com o senhor bispo, com o tenente que era presidente da câmara e com o chefe da policia. Resistindo à diarreia e ao perigo vermelho, homem prático, cercou os manifestantes no porto que deviam estar a construir. Depois, com a tropa com a policia e mais alguns voluntários civis resolveram a coisa à sua maneira: Usaram metralhadoras e granadas de mão. Morreram ai uns mil e duzentos insurrectos, homens, mulheres e crianças. Os que não morreram logo, foram preços e torturados até  morrerem num campo de concentração feito para o efeito.   Foi há sessenta e cinco anos. ---- Hoje o presidente de portugal, foi a São Tomé, ao sitio onde o Governador Gorgulho assassinou aquelas pessoas. Tirou fotografias, abraçou, deu beijinhos e depositou uma coroa de flores no momento de homenagem aos mortos.  Fez um discurso bonito lamentando as vitimas. Depois foi jantar com os portugueses proprietários da roças que hoje são hotéis. 

domingo, 12 de janeiro de 2020

Memórias branqueadas

O Chico nasceu andaluz em 1853, perto de Cadiz, filho de um empreendedor genovês e de uma senhora espanhola. Com dezassete anos, um tio direito irmão da mãe, faz-lhe um convite irrecusável e o Chiquinho foi para São Tomé ajudar a explorar uma roça de cacau.O termo explorar adapta-se bem ao de facto acontecia. Chamava-se Santa Margarida esta primeira roça que teve com o tio. Depois associou-se ao outros empreendedores locais noutras duas: a Roça Monte Macaco e a Roça Mainço. Mais tarde, já sem sócios, que isto de meias é bom é para os pés, fundou a Roça da Esperança e a Roça Infante Dom Henrique. O tempo foi passando entre tanto e tão esforçado trabalho que quando o Chico deu por si já estava quase nos trinta e cinco anos e ainda não tinha esposa nem descendência. Porque era um rapaz bem educado nos valores da família e porque tinha uma boa visão para o negocio, casou-se com a prima direita, filha do tio que o iniciaria no nobre negocio do cacau. Desta abençoada e católica união nasceram pelo menos treze crianças. Das suas escravas e empregadas terão nascido outras tantas mas dessas crianças a história não tem registos.  Com quarenta e picos foi convidado pelo Banco Nacional Ultramarino para gerir a grande roça Água-Izé. O empreendedorismo agricula do Francisco não cabia no pequeno arquipélago de São Tomé... por isso o empresário alargou o seu engenho de iniciativa para outros lugares: em Angola criou a Companhia de Cabinda e a Companhia do Cazengo, em Moçambique criou os Prazos de Lugela e fundou a Companhia de Timor. Quando chegou aos sessenta, farto de Áfricas, decidiu vir viver para Lisboa que é um sitio bom para se viver com o dinheiro. Por volta de 1915, criou uma holding a que chamou companhia comercial que continuou a multiplicar a sua fortuna no conforto do seu gabinete metropolitano. Quando chegou, ainda comprou uma casita ali para a Lapa, mas como a Lapa era um sitio demasiado apertado para o Dom Francisco viver, decidiu-se por comprar umas quintas  afastado do centro, no Lumiar. Fez as obras necessárias  à altura do seu empreendedorismo. Construiu um lago artificial com duas ilhas no meio, em homenagem à Ilha de São Tomé e à Ilha do Príncipe e importou árvores tropicais para florestar os extensos jardins. Nos anos dourados da reforma, com outros senhores importantes fundou a sociedade portuguesa de geografia e financiou orfanatos. A sua opulenta quinta, às portas de Lisboa, era local de referencia e deferência nos primeiros vinte e cinco anos do século XX. Os vastos jardins, as obras de arte que comprava, as festas a que apenas os mais altos destinatários tinham acesso, tudo contribuiu para fazer crescer a fama do homem, do palácio e dos jardins. Mas uma pessoa nunca sabe quando está bem... Pois foi então que uma das suas empregadas, uma daquelas moças que tinha trazido de São Tomé a quem não pagava salário mas dava alojamento e comida,uma dessas desvalidas que lhe devia a própria vida, uma das suas negras da casa, teve a ousadia de emprenhar do Dom Francisco... Ainda por cima, só se deu pela coisa já em cima do momento do parto...não havia nada mais a fazer do que deixa-la parir. À esposa, caiu-lhe mal a maldade de negra de se engravidar assim do seu marido. O D. Francisco, mandou de volta a negra para são Tomé, dois dias depois de parir, seguiu no primeiro navio... no entanto, a sua prima e ditosa esposa, não deixou seguir a criança, quis ficar com a menina para a criar lá em casa. Assim foi. Mas o gene da desgraça, já estava plantado. Acontece que acriança estava fadada para dar problemas e se os problemas começaram ainda antes dela nascer, parece que nem a morte estancou o rio das lágrimas. Seja por causas genéticas, seja pelo ambiente em que vivia afastada da mãe com um pai que tinha idade para ser avô e agia como dono, a menina começou desenvolver algumas patologias de comportamento. Ora o Senhor Chico, não esteve com meias de medidas, homem de aço, empreendedor, e habituado a "educar africanos", decidiu construir uma jaula onde metia a criança sempre que as crises de choro e gritos aconteciam. E aconteciam muito. Com a adolescência a coisa piorou e a menina passou a viver sempre enjaulada. O Senhor Francisco não dava autorização que a menina saísse da jaula. Um problema. Um problema grave que durou até à morte do D. Francisco em 1928. Após a morte do D.Francisco, a família reunida em concelho de administração decidiu afastar a bastarda para um clínica de alienados onde acabou por se suicidar. A esposa amada e prima do D. Francisco, mudou-se ela também para o centro de Lisboa onde viveu até morrer. A quinta foi ficando vazia. Os jardins mais ou menos descuidados. Os vizinhos diziam que ouviam vozes e gritos. Diziam que aconteciam coisas inexplicáveis nos edifícios e nos jardins. A Tobis, A Tobis - Tonbild-Syndikat– companhia de propaganda e lavagem de dinheiro nazi- chegou a instalar no jardim, um estúdio onde foi feito o filme A Canção de Lisboa. Mas depressa deixaram de o utilizar o estúdio, porque as coisas lá nunca corriam bem. No Lumiar todos diziam que a quinta estava assombrada. A prima e esposa do D. Francisco, fecha os olhos já nos anos cinquenta. Os herdeiros do D. Francisco, pessoas de princípios e bem instalados na vida, não gostavam dos murmúrios sobre assombrações e sobre a memória esclavagista de tão ilustre pai e avô. Alguns dos herdeiros, ligados à alta-finança, outros ligados ao governo do Dr. Salazar. Todos eles portugueses, brancos, católicos e ricos. Num dos encontros que  ocasionalmente tinham, em Cascais, decidiram desfazer-se da Quita e enterrar definitivamente o passado. Falaram com quem tinham que falar e por volta de 1966, a câmara de Lisboa comprou-lhes a quinta. Não há registo de valor em dinheiro na escritura de transferência da propriedade, mas três anos depois a autarquia atribuiu a uma rua, o nome do empreendedor que levou o desenvolvimento para São Tomé. O Jardim da Quinta das Conchas e dos Lilases foi "reinaugurado" ao público a 12 de Maio de 2005, sob a tutela do presidente da edilidade lisboeta à data, Pedro Santana Lopes. Estas obras de qualificação receberam o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura em 2005. Para os mais sensíveis às energias de vivos e mortos, a quinta e os jardins continuam assombrados pela mulatita bastarda enlouquecida de dor da partida da mãe e enjaulada pelo pai. Para mim, a memória branqueada do colonialismo escravocrata é já em si mesma assombração que chegue.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O brinco de pérola

Toda a intuição fluiu para a ponta do dedo dela. Milénios de sagrado feminino concentrados e focados dentro do Opel Corsa. A magia e o esoterismo pagão e a força de ser mulher centrados naquela da unhinha de gel. Era o braço de uma fada que apontava. Um braço ancestral que miraculosamnente escapou ao corpo de uma bruxa a quem fogueira da inquisição assou. Uma varinha mágica, um varinha de condão a indicar. Na ponta do braço, o dedo, na ponta do dedo a unha. Todos a apontarem. A voz saiu enganadoramente calma. Talvez um decibél mais alto e meia oitava mais aguda. -- Quem é que deixou ficar aquele brinco ali caído no banco de tras? Ele, um mero mortal, sem poderes especiais. Como dons tinha apenas a capacidade extraordinária de imitar rolas e jeito snoker, engoliu em seco. Olhou e viu no escuro do estofo do banco de trás uma pérola que era um brinco. Os milésimos de segundo demoraram uma eternidade até conseguir responder: -- Nao faço ideia... E disse a verdade. De facto não fazia ideia de quem fosse o brinco. Ela, consubstanciando todo o poder de ser mulher, muito calmamente, prosseguiu: -- Então quem é que sabe? Não és tu que andas com o carro? Ele disse que sim com a cabeça. Mas continuou mudo. Ela, numa epifania de luz, reconheceu o brinco de pérola das orelhas adolescentes da própria filha. Interiormente sorriu reconfortada. Mas nao baixou a guarda. Manteve o ar de caso e deixou em aberto o assunto: -- Vou guardar, pode ser que apareça a dona. Ele, sem vontade de prosseguir o diálogo, tentou comprar-lhe o esquecimento com gastronomia estrangeira e disse: -- Hoje faço spagueti carbonara para o teu jantar que sei que gostas e já não comes há muito tempo. Ela em silencio disse que sim e guardou o brinco de pérola para devolver à miúda. Ele, que detesta massa, cozinhou a carbonara esmerando-se no ponto. Nessa noite sonhou com poder a bomba de neutroes em forma de um brinco de perola esquecido no banco de trás.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Tavira 1846

Acabou-se com a pena de morte em Portugal porque a forca deixou de ser eficaz para partir os pescocos dos condenados. Vinham na sua maioria a baixo do peso. Com a fome generalizada do pós guerra civil que acabou em 1834, foram muitas as familias desfeitas e a criminilidade alastrou pelos campos e cidades. Crimidalidade violenta, porque eram tempos violentos. Acossados pela fome, bandos de ex-soldados e as suas familias desfeitas, deambulavam pelos campos e periferias, feitos zumbies. O Domingos, era filho de uma prostituta juvenil que morreu quando ele tinha doze anos e o deixou só pelas ruas sujas da zona do Porto de Olhão. Nunca conheceu o pai. Cresceu franzino entre a fome, o peixe roubado no porto e as sopas de couves da prisão. Com vinte anos, vivia de roubar na estrada que mais tarde seria a 125. Uma noite entrou numa casa, na Luz de Tavira para roubar. A dona da casa, uma velhota que tinha umas pratas, estava acordada e não colaborou. O Domingos bateu-lhe e a senhora morreu. O neto da velha, ouviu barulho e o Domingos tambem lhe bateu até o matar. Tinha doze anos o garoto assassinado. Cauteloso, o Domingos fez uma busca à casa e encontrou a criada escondida. O assassino já conhecia a prisão e não quis deixar testemunhas: estrangulou a rapariga de dezoito anos. Na semana seguinte, foi vender um relógio e umas rendas que roubou na casa da Luz de Tavira. Foi a um recepatdor de Olhão que o denunciou à polícia pelas rendas e escondeu o relógio. O Domingos foi julgado em Tavira.O juiz fez o que todos exigiram: condenou o ladrão e assassino à pena maxima. Morte por enforcamento. No dia 24 de Novembro de 1845, pela manhã levaram o Domingos para o cadafalso. A execução era um acto público. O carrasco mandou-o subir para a plataforma. Pôs-lhe a corda ao pescoço e empurrou. Ao contrário do que faziam os seus colegas mais experientes, não se sentou nas cavalitas do enforcado para acelerar o processo. Nem sequer se pendurou no corpo para fazer peso. Na realidade, o Domingos estava sujo e tinha piolhos. Além disso, nos enforcamentos, o enforcado antes de morrer, suja-se urinando, evacuando e ejacuando. O carrasco cumpriu a lei e seguiu à risca os procedimentos. Fez, testou, ajustou e apertou o nó no pescoço do Domingos, empurrou e deixou a gravidade fazer o resto. Mas os vinte e dois anos de fome do Domingos não lhe davam peso para lhe partir o pescoço. O Domingos ficou a balançar com convulsões durante mais de um quarto de hora. Do seu corpo sairam os líquidos os sólidos e os sons proprios da morte. O padre benzia-se, o juiz dizia que não em silencio e os expectadores impressionados sussurravam. Ao fim de um quarto de hora o médico mandou descer o enforcado para declarar o óbito. No chão do largo, o enforcado devagar foi retomando a respiração. O director da prisão chamou o carrasco, e deu-lhe uma descompostura. Mandou-o acabar o trabalho. O funcionário público que tinha como função matar, pegou na pistola e disparou na cabeça, pondo fim ao espectaculo. Mas a coisa nao ficou por aí. A coisa foi divulgada nos jornais da época e chegou à constituinte. Escreveram-se rios de tinta. O carrasco foi julgado e passou uns meses preso por ter usado uma pistola, contra aquilo que determinava a lei. Aos deputados, modernos, exigia-se ou novos métodos de execução ou uma politica alimentar pública que acabasse com a fome endêmica. Depois de muito discutirem e pensarem, decidiram pelo fim da pena de morte. Apartir dessa histórica data anuncia-se, ensina-se e propaganda-se que somos um país humanista. Brandos costumes.

domingo, 22 de setembro de 2019

Perfumado

O Jairo calou se e engoliu o insulto. O patrão vinha mal disposto. Patrão não, colega e amigo, como ele próprio diz. Aqui a trabalhar ao vosso lado mas com a responsabilidade de vos pagar as férias e a segurança social e pagar aos fornecedores...e a mim? E a mim, quem é que paga? A mim ninguem paga! Sou eu quem vos pago o salário e vos encho o cu de todo, do bom e do melhor e vocês? Uns chulos. Mantanas! Não querem fazer a ponta de um corno. O aprendiz, mesmo não sendo sua competência, pegou na vassoura e pôs-se a varrer a oficina evitando juntar muito lixo para não desfazer no trabalho da senhora que faz a limpeza e os almoços. E estou-me a cagar se não gostam de me ouvirem falar. A porta da rua é serventia da casa. Esta empresa é minha. Fui eu que fiz esta casa. É a mim que os clientes pagam ou ficam a dever. Eu é que sou esta empresa. Eu. Os braços abertos à espera de aclamação pelo sucesso acumulado na conta bancária. O silêncio dos empregados confirmava a seriedade do momento. A rapariga que no gabinete com ar condicionado, ia dizendo claro e que sim. A moça que já nao é tão moça, faz a escrita, organiza as faturas, mexe no computador a pedir pecas aos fornecedores, telefona para os clientes a dizer que os carros estão prontos e como se tudo isto não bastasse, acumula com a função de animar a oficina com o abanar do generoso e proeminente rabo, alegrando a vista ao patrao e aos clientes especiais. Os empregados e fornecedores não podem olhar que é falta de respeito. Quando o patrão vem maldisposto de casa e decide ensinar sociologia e economia laboral aos trabalhadores, é ela quem tem o trabalho de verbalizar a concordancia com as verdades que o empresário propaga. Foi ela quem o acalmou e evitou o chelique total quando vieram com a ideia do subsidio de refeição. Para fazerem exigências estão sempre prontos! Foi ela quem pôs o patrão a falar com o contabilista e na semana seguinte a arrecadação onde guardavam os peneus estava teansformada em copa e refeitório onde a senhora da limpeza por mais uma hora cozinha o almoço para os empregados com as mercearias e os restos que o patrão traz de casa. Tudo de bom e do melhor, para vos encher essas peidas gulosas! Hoje como é dia de pagar o iva, ja se adivinhava e esperava o ataque. Temporario, certo, mas intenso e explosivo. Ando aqui a esfalfar-me a trabalhar para me roubarem. Todos a querer sacar dinheiro. É os salários que vos pago, os almoços as férias e três em três meses vem o estado dar-me mais uma facada! La para trás enquanto lubrificava o torno, o Pereira, o mecanico mais velho da oficina, sussurrava para o Jairo que nos seus dezasseis anos e acabado de entrar para aprendiz se foi aproximando enquanto varria. -- Então faz lá as contas: ganhas três euro à hora, o gajo cobra aos clientes 35 euros à hora pela mão de obra que és tu que fazes.. Digamos que cinco euros são para despesas...Agora diz-me tu, para onde é que vao os outros vinte sete euros? O rapaz, que era miúdo, mas não era parvo, ia dizendo: -- Para o porshe, para o landrouver, para a casa de verão, para a coutada de caça, as compras da patroa, para as viagens com a amante, para a agua de colónia com que se perfuma.. -- E quem é que produz esses vinte sete euros? Continuava o Pereira... Nisto, o patrão, numa pausa do discurso, ouviu "vinte sete euros". Vinte sete euros do quê? Que vinte sete euros? Tenho de pagar mais, é? --Não é nada de importante senhor Rosa... É que a minha mulher viu a venda um daqueles perfumes de casa de banho que custava vinte sete euros...Veja lá, vinte sete euros é muito dinheiro...eu estava a dizer que um cagalhao perfumado, mesmo com um perfume de vinte sete euros, pode até cheirar bem, mas não deixa de ser um cagalhao... Fez-se silencio. E o silencio foi quebrado pela gargalhada do patrão que riu boçal. Tinha-lhe passado a fúria. Os empregados tambem riram. O Jairo e o Pereira continuaram a trabalhar, a falar baixinho e a fazer contas. Á espera do momento de rir no fim. Que já se sabe que é quando se ri melhor.

sábado, 21 de setembro de 2019

A importancia de nos chamarmos Menor

Foi numa noite dessas de fim de verão que o meu pai me contou a versão alargada. Uma noite amena sem ser quente, humida sem ser fria e com aquele luar que convida à contemplação. Ficamos à mesa em familia, debaixo das estrelas a cortar lascas de queijo empurradas com vinho tinto. Depois veio o medronho, caseiro, envelhecido e com frutos macerados. Forte, quente e suave, a lubrificar a memória e evocar casos e historias antigas, daquelas guardadas no baú das mais preciosas jóias de família que são as recordações dos nossos. O meu pai contou-me o caso como ouviu ao pai dele. Se lhe acrescentou pontos, fez por considerar necessário.E eu registo aqui para que os meus filhos a possam memorizar e um dia contar aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos. Cá vai. Era uma vez um campones da aldeia de Cabeça Gorda, nos arredores de Beja, cujo nome proprio desconhecemos mas que tinha Abreu no sobrenome. Este Abreu tinha três filhos. Os rapazes terão nascido na decada de 1880. Um deles chama-se José, ou outros dois digamos que João e António, mas desses nomes não temos a certeza. No virar do seculo, aos rapazes já adolescentes espigadotes e com personalidade propria, é sugerido irem tratar de fazer o registo civil para obterem documentacao. Parece que era obrigatório. O Registo Cívil , por decisão do Estado Português era feito nas paróquias. Isto na moderna monarquia constitucional que se viveu depois das guerras civis de 1800, que aprovadou um decreto em 1878 em que delega aos padres a tarefa do registo da populacao. Acontece que aos tres manos Abreu, não lhes caia bem nem o padre, nem a igreja. Seja por perguiça, seja por teimosia herética, seja opção, o que é certo é que foram atrasando ida à igreja para dar o nome ao padre que devia fazer os registos. O padre, pressionado pelo administrador do concelho de Beja que queria os registos actualizados, ia mandando recados pelas beatas: -- Digam aos rapazes do Abreu que têm de vir a missa para depois eu regista-los! As beatas da Cabeça Gorda, obedientes e cumpridoras, levavam os recados do padre aos moços que as iam ignorando. Mas avessos a padres e a missas, os rapazes riam das beatas, do padre, do registo civil, do bispo, do administrador, do rei e de deus, e ao ritmo lento e pressistente do baixo Alentejo iam deixando andar. Mas o mundo é redondo e andas às voltas, e mesmo numa terra grande como a Cabeça Gorda de 1900 os encontros nefastos dão-se. Um dia, é o proprio padre que se cruza com o Zé, o irmão do meio e o manda ir à igreja fazer o registo. Não lhe pediu, não o informou da necessidade, nem sequer o convocou. Mandou. O Zé, nos seus catorze anos, já tinha a sua personalidade. Muito mundo andado e muitos dias de trabalho à jorna. Não apreciava de padres, nem arrogancias, não queria ir a igreja, não gostava de ser mandado nem gostava de mandões. Por isso respondeu a matar: -- Se quiser fazer o registo faça o registo na rua ou em estando a chover, faça na venda que na igreja eu não entro! O padre, vendo que não adiantava ameaçar com inferno aquele chavalo auto-excomungado e sem a santa inquisicao para poder ensinar o respeito aquele jovem herege, deu-lhe como penitência o castigo ao alcance do poder sa sua batina. -- Ai nao vais? Pois vais ficar para sempre menor! E assim foi. O padre da Cabeça Gorda fez o registo com José Menor. Aos outros dois irmãos, igualmente teimosos e solidários na briga herética do irmão Ze, o padre chamou ao mais velho Barbado, porque ja tinha barba grossa aos dezasseis anos e ao mais novo chamou Pisco, porque era magrito e era conhecido por gostar de comer azeitonas. O Zé Menor, meu bisavo, como não se estava a dar bem com o clima da Cabeça Gorda, foi trabalhar como fogueiro para a Estação de Casabranca. Por lá ficou e por lá foi fazendo filhos. Chegaram a adultos sete. Todos Menor. O meu avô António entre eles. Conta o meu pai que nos anos sessenta ia visitar o avô Ze Menor que nessa altura estava a viver no Escoural e invariavelmente o encontrava a ouvir em segredo uma telefonia a pilhas sintonizado na Rádio Moscovo. O meu pai adolescente, do Barreiro e atento ao mundo, perguntou-lhe um dia: -- Avô, porque é que ouve sempre essa estação? -- Porque tem as músicas mais lindas e não passa missa. Morreu com perto de noventa anos, sem se confessar, anticlerical e secretamente comunista. Usar o sobrenome Menor, conquistado assim na guerra contra o clero obscurantista é um legado que trago ao peito como uma condecoração e deixarei aos meus filhos como herança. O medronho não. O medronho não pretendo deixar como herança. Porque lhes pode fazer mal aos fígados e porque a garrafa já vai a meio.

domingo, 30 de junho de 2019

Tinto com cuscus

São ambos holandeses. Ela filha de pais portugueses no papel e angolanos no coração. Ele filho de pais argelinos muçulmanos. Conheceram-se nos noventa no liceu em Roterdão. Namoraram e seguiram viagem. Ela por volta do dois mil foi para Londres fazer um curso de cozinha vegetariana. Ele acabado o liceu começou a trabalhar com o pai como técnico de frio. Não se viram durante vinte anos. Reencontraram-se no facebook. Ambos tinham trabalho, ambos sem filhos, ambos separados de fresco. Voltaram ao febril amor da adolescência via skype. Combinaram passar um fim de semana em Paris na primavera de 2016. Falavam um com outro em holandês mas amavam em português com sotaque angolano e árabe com sotaque argelino. Voltaram juntos para Roterdão onde ele tinha casa e decidiram continuar juntos. Ela depressa abriu uma empresa de catering vegan. Ela em casa não cozinhava e ele todos os dias fazia comida argelina adaptada ao gosto e às restrições alimentares dela. No verão vieram a Portugal passar férias a Corroios onde vive a família dela. Ele não bebia alcool. Ela usa saias curtas a mostrar as lindas pernas mulatas. Ele tem um irmão mais novo que passa os dias na mesquita a recitar o Corão. Ela tem primas da mesma idade deusas da kizomba do Ondeando. Ele provou vinho e tentou dançar. Ela apanhou o sol da fonte da telha e conheceu parentes de Benguela. Quando o verão de 17 acabou voltaram juntos para Roterdão. Ela levava uma gravidez a fazer-lhe inchar as mamas. Ele levava o gosto pelo tinto alentejano e uma vaga memoria de uns passos de dança. Em Roterdão ele encontrou um supermercado que vendia garrafas de vinho alentejano. Chegou rápido o outono ele continuou a beber. Trabalhador, responsável, e pontual, chegava a casa as cinco embebedava-se até as oito, comia a sopa que ela fazia com mais um copo de vinho e as nove ia para a cama ressonar e destilar o Borba. Ela perdeu o bebé na altura do natal. Ele bebeu para esquecer. Ela lixada, meteu-lhe os cornos com a vizinha do lado, uma alemão parecida com a Ikko Ono, nascida no Vietname. Ele continuou a beber. Ela mudou-se para casa da Iokko Ono. O irmão mais novo levou-o para a mesquita e ele deixou de beber. Ela e a namorada, juntaram uns cobres e vão abrir um restaurante vegan na costa. Ele continua a ser um excelente técnico de frio, bem pago e financia uma escola no Iemenn. Ela está bem, já quase que fala português sem sotaque e ri-se dos galantes avanços dos primos sobre a namorada. Ele sente a falta do cheiro do cabelo dela quando se deita às nove da noite. Ela sente a falta do cuscus com grão e sumo de laranja que ele fazia para ela. ... Que se foda o banco central europeu mais as suas politicas economias. Mas nunca em nenhum momento da historia foi possível amar em tantas línguas do mundo como nesta Europa que vivemos. ... Pra semana vou a Costa comer caril vegan com chucrute!

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Cães de espeto

Isto de virar frangos é coisa ibérica. Os europeus a sério, os do norte, há muito que inventaram os espetos rotativos. A peça de carne, ao rodar sobre as brasas ou metida num forno às voltinhas, deixa o assado muito mais homogéneo e permite guardar os sucos da carne. É por isso os ingleses criaram mecanismos complicados de rotação das peças de carne em espetos garantindo num assado lento e de rotação continua, uma degustação cinco estrelas. A chatice era estar ali a dar à manivela sempre a mesma velocidade durante horas seguidas, pois quanto mais lento é o assado, mais saborosa fica a carne... Os ingleses do renascimento, os ingleses ricos, entenda-se, tinham em casa umas gaiolas pregadas à chaminé com umas rodas grandes, tipo daquelas dos hamsters, mas com um metro de diâmetro onde punham cães a correr para rodarem a carne... Desenvolveu-se mesmo uma raça de caes especialistas nesse trabalho, que são os antepassados dos teckel, vulgarmente conhecidos pelos salsichas, cães de caça alemães descendentes esses canitos de pernas curtas e corpo comprido, adaptados para a roda do espeto. Mais tarde, já no século XVII, algumas casas inglesas, substituíram-se os cães pelos gansos. Menos inteligentes que os cães, não se escondiam ou fugiam, quando chegava à cozinha carne para assar. Os gansos eram mais lentos na roda, não davam tantos problemas como os cães. Na colónia norte americana, a introdução dos gansos não foi tão bem recebida, e nos estados americanos, sobretudo da costa leste, qualquer burguês que se presasse tinha na cozinha uma gaiola com dois ou trâs cães de porte pequeno, especializados na roda do espeto. Os cães ficavam fechados na jaula e quando saiam, já se sabia que era para assar a carne. Quando os estados unidos, entraram na modernidade, deixaram de ser uma colónia, tornara-se independentes, assinaram uma constituição e exterminaram os índios, mas continuaram a ser os cães a assar-lhes as peças de lombo. Entretanto apareceu o Henry Bergh, um cavalheiro que era empresário e embaixador, e que viveu cheio de boas intenções. Na sua carreira de diplomata, conheceu em Londres uma organização que tinha sido recentemente criada: Sociedade Real da Inglaterra para a Prevenção da Crueldade contra os Animais. Quando voltou lá à terrinha dele, o Bergh propôs à Assembleia Legislativa do Estado de Nova York o reconhecimento da Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais. Isto aconteceu em 1866 no ano a seguir ao final da guerra civil. Esta associação que ainda hoje existe, foi quem fez aprovar uma das primeiras leis contra a crueldade sobre animais no mundo. Foram este activistas ligados ao Henry Bergh quem exigiu pela primeira vez a criação de ambulâncias para cavalos feridos e quem mais violentamente se manifestaram contra a utilização de cães nas cozinhas e rodas de espeto. Fez-se mesmo uma campanha contra os cães de trabalho nas cozinhas dos restaurantes. O Henry Bergh dominava bem as relações com a imprensa que fez com que pouco a pouco se deixassem de usar cães nas cozinhas para assar carne. Esta sociedade de protecção dos animais fazia visitas surpresas aos restaurantes e se verificasse que tinham cães nas cozinhas a fazer rodar os espetos, os jornais denunciavam a situação e o pessoal da defesa dos animais fazia campanha para que o publico boicotasse os restaurantes em causa. Finalmente, por volta de 1870, foi aprovada uma lei e os restaurantes e deixaram de usar cães nas cozinhas. Com o fim da guerra civil chegaram às grandes cidades do norte, dezenas de milhares de famílias que vinham dos campos do sul, agora arrasados. Pessoas que tinham sido escravizadas e chegavam sem nada de seu, em vagas, em busca de trabalho e um sitio para dormir. A lei contra os maus tratos dos animais pressionou os restaurantes, mas foi a economia com os seus argumentos de marreta esmagaram a questão: ficava mais barato ao dono do restaurante contratar crianças negras e pagar-lhes com os restos da comida que sobrava, do que ter gaiolas e cães a rodar o espeto! Os cães a trabalhar nas cozinhas passaram definitivamente a ser coisa do passado. A primeira lei contra o trabalho infantil nos estados unidos foi aprovada em 1938.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Maia datcha

Aqui há umas duas semanas tive uma reunião de trabalho num daqueles edifícios antigos e remodelados da Graça. Fantástica vista sobre o rio e margem sul. Mesmo por cima da estação de Stª. Apolónia. Atravessei o rio cedinho e decidi-me por andar até à estação de comboios que era ponto de encontro marcado. O sol de finais de Julho por volta das oito da manhã ainda não queima e Lisboa de manhã convida ao passeio. Cruzei o Jardim do Campo das cebolas na direcção à casa dos bicos. Entre duas palmeiras crescidas e protegida pelos contentores do lixo ficou organizada a instalação – arte pós moderna: Um carro de supermercado cheio de garrafas vazias. A estrutura que resta do que foi um aparador de sala. Uma mesa de esplanada da em plástico branco com uma perna partida. Caixotes de papelão dobrados a fazer de cama e um cobertor imundo em cima. Sentado sobre uma lata de tinta vazia estava um eslavo enorme com uma bebedeira ainda maior que ele.  Descontente com a organização do mobiliário urbano, empertigava-se um policia. Indiferente e à espera, uma equipe de trabalhadores câmara de Lisboa. Pressionado pelos taxistas e na insegurança dos seus vinte anos e estatura mediterrânea o jovem policia com sotaque do porto que disfarçava, tentava impor respeito ao gigante russo: -- Bamos lá a desocupar a bia que as funcionarias camarárias querem fazer o trabalhinho delas!!! As três senhoras fardadas de verde da CML falavam entre si em crioulo e assistiam à cena como se fosse uma telenovela. O russo fingia que não ouvia o bófia e ia-se rindo... Por insistência dos taxistas, lá abandonou o seu posto permitindo às empregadas da limpeza armadas de ancinhos arrancarem a merda de pombo à relva do jardim!!! O policia impressionado com a insolência do russo que se foi sentar num dos bancos do jardim a despejar um pacote de vinho pôs-se na conversa com os taxistas. Um fogareiro dos mais velhos, desabituado de ter a autoridade tão próxima sem ser para passar multas, ia comentando: -- Olhem para isto, até tem limpeza ao domicilio de borla!!! Casa com jardim , vista para o Tejo, um policia a fazer segurança e três pretas para lhe limparem o jardim. Parece um ministro!!! É para isto é que eu ando a pagar impostos!!! Solidário com a gargalhada geral dos taxistas e do bófia, o russo respondeu; -- Eta maia datcha bled, eta maia datacha!!! Como nem o policia nem os taxistas percebem russo continuaram com as gargalhadas de sarcasmo. -- O russo traduziu: é minha casa de campo, pá, é minha casa de campo!!!! Todos rimos. Com esta ideia de casa de campo do mendigo eslavo segui para o meu trabalho deixando os taxistas mais o policia e as jardineiras a rirem ao sol... À medida que a manhã foi aquecendo a gravata foi sufocando. À minha memória voltou várias vezes o russo bebado e sorridente. Com a subida da temperatura à hora de almoço, desenvolvi uma inveja furiosa do russo privilegiado que acorda para beber!!! Com esta ideia politicamente incorrecta e com ganas de auto agressões hepáticas continuei a trabalhar o resto do mes para pagar ao banco a hipoteca da casa onde moro. Mas há uma vozinha dentro de mim que me manda correr para a casa de campo em frente à casa dos bicos. Sinto uma vontade persistente de ficar a embebedar-me com vinho ordinário. Despir a camisa e ir respondendo em russo aos sarcasmos dos policias e dos fogareiros e ficar deitado no banco de jardim a desfrutar do sol de Lisboa.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Tempero para a isca

Estava calor e humidade. O ar cheirava a gasóleo, a mar, a estufa, a lixo e a fruta podre. As baratas do tamanho de pardais, voavam à volta do candeeiro da rua que iluminava e o grelhador improvisado numa lata com a luz amarela. Na cozinha que dava directamente para a rua, a mulher do amigo preparava o funge e de tomate picado com cebola e gindungo. Nós vigiávamos a galinha no churrasco e emborcávamos minis tiradas de um bidon com agua e icebergues do tamanho de melões. Éramos os dois convidados da dona da casa, uma mulata gorda, cunhada do meu amigo e irmã mais velha da sua mulher. Desde quinze anos quinze anos que toma conta dos irmãos. Aos vinte já tinha o peso e a postura das matriarcas africanas. Fala calmo e severa e toda a gente à volta naturalmente lhe obedece. Preparava-se para sair. Tomou banho e o seu perfume chegou-nos antes de a ouvir falar claro: -- Vou no aeroporto buscar o Elias. Não deixem chegar o fogo na galinha nem fiquem bêbados logo antes de chegar o Elias. Especialista diplomado em churrascos, o meu amigo respondeu: --- Vai na boa que eu mantenho debaixo de olho os dois inimigos presentes: não deixo o fogo chegar à galinha nem o branco chegar às cervejas... Partiu com uma gargalhada inesperada na sua expressão sempre severa e nós abrimos mais duas minis. --- Mas quem é o Elias que ela vai buscar? Perguntei na minha ingenuidade --- É o namorado da minha cunhada. Namoraram na infância lá no mato, daqueles namoros de putos e não se viram durante uns 12 anos. Quando foi da guerra ela deixou de receber as cartas. Depois veio a Internet e reencontraram-se. No ano passado ela foi ter com ele a Luanda. E agora, não estão mais de seis meses sem se ver... Da cozinha veio a irmã da dona da casa dar pormenores românticos à historia. Fomos bebendo e falando. Parece que o rapaz foi raptado pela Unita que atacou a aldeia onde morava... teria uns treze anos e fizeram dele soldado à força. Passou um bocado...viu matar familiares e amigos... Ficou com eles sete anos até conseguir fugir e juntar-se às Fapla. --- Então e como é que os gajos do MPLA souberam que o tipo está a dizer a verdade e não era um provocador, um infiltrado??? Um gajo que trai uma vez... Perguntei eu, que gosto de livros de espiões, enquanto fazia xixi atrás de um carro para não usar a casa de banho da casa que alem de ser longe estava imaculada. ---Não sei... mas o gajo deve estar ai a chegar e depois perguntas... Metemos o terceiro cadáver de galinha na grelha sobre as brasas e bebemos para evitar a desidratação. Não esperamos muito mais. Estavam a chegar. Ao contrario do rambo que eu esperava ver chegar, o Elias não tinha físico para apanhar duas estaladas. Negro retinto e muito magrinho, enfezado, com o peito para dentro e uns cinquenta e cinco quilos no máximo. Saiu do carro e caminhou na nossa direcção um pouco dobrado para a frente. Trazia com um bigodinho ralo e um olhar triste, uns ténis nike brancos e calças de ganga. Vinha a dançar dentro de uma camisola do Futebol Clube do Porto tamanho M que lhe ficava três números acima. A dona da casa comandou as operações: -- Fica aí com esses dois a beber uma cerveja. O preto é caboverdiano, meu cunhado e vive com a minha irmã mais nova, o outro, o pula é amigo da família e está de passagem. São fixes mas muito abusados... Vê se não começas já a ganhar os maus hábitos. Rimo-nos os três uns para os outros. Abrimos mais cervejas passamos-lhe uma gelada. -- Xii dói o dente do frio da cerveja... não tem ai menos fria?? Desabituei de beber cerveja gelada... Quando tava no mato não tinha agua quase nunca e não tinha cerveja quase sempre... Fui à cozinha e tirei uma mini da ultima grade que metemos no frigorífico. Estava praticamente morna. Voltei à rua com a garrafa na mão. Abri e dei-lha. Como sou um descarado, perguntei-lhe. -- Olha lá Elias, ouvi dizer que estiveste na mata com a unita e depois voltaste para as Fapla. Como é que convenceste os tipos do MPLA que não eras um provocador nem um espião infiltrado? Olhou para mim e sorriu o sorriso tímido que mostrava os dentes brancos regulares: -- Pois não foi fácil. Mas eu fiquei firme. Sete anos até ter a confiança dos chefes, só faltava conhecer o Savimbi. E quando eles já confiavam tudo em mim, eu trouxe uma patrulha de doze para perto de um quartel dos nossos capturei eles. – Capturaste doze homens armados sozinho? – Sozinho não! Foi com a ajuda do feiticeiro que eles tinha que também não queria ficar e eu disse nele que nas Fapl pagavam mais no feiticeiro ! Então o kimbanda fez um chá com raízes para por na comida, que pôs todos eles para dormir. Depois nós dois, foi só amarrar eles. O bruxo ficou a tomar conta dos inimigo e eu fui chamar as Fapla. Quanda as Fapla chegou mandou eu mais o bruxo matar todos para mostrar que não éramos traidor. E nós mandamos eles cavar um buraco assim de grande (os braços abertos envolvendo a enormidade do buraco) sentamos eles lá dentro a dizer que tinha de ficar a espera do transporte que os levava para a prisão em Luanda para serem trocados por outros prisioneiros.. com duas granadas matamos e enterramos todos no mesmo tempo!!! Ficamos em silencio com o pragmatismo e a simplicidade da resposta. Só se ouvia a gordura da galinha a chiar nas brasas. Para desanuviar o meu amigo perguntou: -- E esse feiticeiro que estava contigo? Agora também está em Luanda? -- Não. Eu chamei ele para falar comigo no mato, ele veio e eu só matei ele. Eu matei ele logo mesmo. Era um feiticeiro ruim. Vi fazer muita coisa má, tinha de matar mesmo! Era um Quimbanda do Zaire. Dei tiro nele. E com a faca do bruxo cortei o pescoço dele para separar cabeça do corpo, abri todo ele para tirar o fígado e comer, tinha que comer-lhe o fígado para tirar-lhe a força!E te digo maninho, este era um bruxo mau mesmo! Tinha no fígado muito amargo, muito amargo, muito amargo. Teve que levar bué da sal e bué de gindungo... Vocês não sabe, mas eu explica. Eu sabe dessas coisas que eu sou do mato. Quando é uma pessoa é boa o fígado não sabe amargo, sabe bem, como fígado de gazela que não tem maldade.. Quando é uma pessoa má o fígado é muito amargo amargo mesmo. Porque a maldade e a força da pessoa estão no figado. Eu tinha que comer o fígado dele se não o espírito dele ia me empatar a vida e vinha na minha traz para me fazer mal! Voltamos a ficar em silencio, não consegui dizer nada. A dona da casa, chegou sem avisar, descompôs-nos aos três por estar a deixar queimar a galinha e levou-nos em coluna para mesa. Na sua autoridade de metro e meio, avisou logo que não queria conversas nem de guerra, nem de politica ao jantar. O Elias, obediente, ainda antes de se sentar perguntou entusiasmado: --- e o Engenheiro Pinta da Costa continua sendo o presidente do Porto, verdade? Sem pausas e com o mesmo sorriso tímido prossegue com um verso: Carne de galinha é boa, carne de vaca também, mas a melhor das carnes é a carne que agente chama e ela vem!!!! Rimos todos. E a sua gargalhada escancarada e sincera afastou definitivamente todos os espíritos malignos e todas as memorias de guerras passadas e futuras. As mulheres riram da piada que interpretaram como brejeirice de quem tem fome de amor de namorada. O jantar continuou animado e não voltamos a falar de guerra nem de politica. No dia seguinte, segui viagem e não voltei a ver o Elias. Mantive-me vegetariano durante quase uma semana.

Maria contra a coroa

Num verão remoto, passando pela Catalunha, mais uma vez fiquei na casa de amigos que a seguir a nossa casa é o melhor sitio para ficar. Nesses dias convivi com um casal de velhos que hoje fossem vivos seriam centenários... Gente humilde mas informada, catalães de raízes profundas, oriundos das montanhas, atentos à realidade portuguesa e sempre prontos para aprender e discutir “o caso português” desde a revolução dos cravos à independência de Castela. Eram os avós do meu anfitrião, que viviam numa perdida aldeia junto aos Pirenéus catalães, mas que por feliz acaso, estavam naqueles dias a passar uma temporada em casa do filho. Parece que o outro filho, tio do meu amigo, estava a mudar-lhes o telhado da casa la na aldeia e por isso tinham “descido” até à cidade. Convergimos, nessas semanas de veraneio todos naquele prédio. Um edifico dos anos trinta, sem elevador, entalado entre outros edifícios idênticos, num daqueles bairros periféricos de Barcelona com um nome em catalão simultaneamente familiar e impronunciável. Tres pisos e um andar por piso. Tectos altos, janelas em madeira e escada apertadas com degraus daqueles que fazem levantar a perna para subir. Para alem dos meus amigos, que moravam no segundo andar e dos pais que moravam no primeiro, no terceiro piso, vivia mais ou menos uma pequena comunidade de gente jovem. Era um grupo de anarquistas mais ou menos radicais, que enchiam de bicicletas as escadas do prédio. Editavam revistas alternativas e tinha uma associação de partilha de livros. Mal se abria a porta do prédio, cá em baixo, já cheirava a erva... Mas apesar disso, era malta porreira, asseadinha, prestável. E como naquele prédio, era tudo gente educada e tolerante, todos se relacionavam com aquela a gentileza fria necessária para manter a boa vizinhança e respeitar a privacidade uns dos outros. A questão das bicicletas, apesar das escadas serem apertadas, não era um problema porque estávamos todos os residentes autorizados a usar. Coisa que confesso, cheguei a fazer algumas vezes. Já o perfume da erva, todos faziam por ignorar. Todos menos os velhotes que na sua ingenuidade camponesa, dois ou três dias depois de chegarem, perguntaram logo: que cheiro e este ? E de onde vem?.. Com a simplicidade das coisas simples, e porque é uma senhora inteligente, a nora, mãe do meu anfitrião encaminhou o casal para a porta de onde saía o cheiro, bateu e explicou ao vizinho de cima: – Os meus sogros perguntam que perfume é este, eu disse que era canabis...mas acho que os vizinhos, melhor que ninguém podem explicar o que é e para que serve essa planta! Apanhados desprevenidos, mas sempre gentis, convidaram os velhotes, “já agora o português” e o resto do prédio para um chá depois de jantar, onde explicariam o que era o canabis e o para que servia. Assim foi. À hora combinada, lá ficamos sentadinhos a ouvir uma erudita explicação com dados científicos e fotografias e a dizerem que a erva maria é uma coisa muito boa, que faz bem à asma, ao glaucoma e às enxaqueca. Mostraram-nos um daqueles vídeos a fazer a apologia da erva. Arranjaram exemplos históricos. Serviram bolachinhas. E mostraram-nos fotocopias de reportagens de revistas. Mostraram mais papeis, mais vídeos no computador e mais fotografias. Falaram nos benefícios. Depois falaram na repressão. Na repressão politica e policial. Falaram nos americanos a proibirem o cânhamo para protegerem as industrias do álcool e da celulose. Na repressão que os estado espanhol faz em Ceuta. Na dureza da vida dos camponeses em Marrocos. Em como a histeria da luta contra a droga serveíu para justificar mais e mais polícias...Explicaram a injustiça da proibição e a possibilidade de poderem serem presos só porque a planta cresce no vaso la em casa. Os velhotes ouviram calados com muita atenção. Estariam ambos na casa dos 80. Ele, militante do POUS, veterano da guerra civil, participou na Batalha do Ebro, ex-preso politico e troskista. Ela, comunista, militante do PCC, veterana da frente aragonesa, também ela prisioneira politica, anti-clerical e completamente estalinista. Acabado o discurso da apologia da erva, a velhinha, disciplinada e rija pediu a palavra: Todos sorrimos pela seriedade do pedido. -- Só quero dizer uma coisa: sou uma camponesa humilde, não tenho instrução, não conheço as orientações do meu partido sobre este tema, mas uma coisa assumo desde já: se a Coroa e os fachos em Madrid proíbem a coisa, eu sou a favor!!! O marido, menos disciplinado e que em matéria revolucionária não gostava de ficar atrás da mulher, interrompeu imediatamente: -- Em relação a essa matéria, eu, que não devo obediência a Moscovo, não só sou a favor, como se os camaradas estiverem de acordo, pretendo já acender um desses cigarros!! Rimos todos. Especialmente o velhote, que foi o ultimo a deixar de rir e por isso riu melhor!

Joana ardida

A Joana sempre foi uma rebelde. Dizem que viveu virgem e que usa apenas como peça de roupa uma túnica de linho sobre o seu corpo nu. A pele das coxas com o cavalo em esforço entre as pernas despidas. O rosto em êxtase e a espada na mão. Uma espada grande de ferro e aço com punho pequenino para o seu pulso adolescente. Nascida camponesa, na terra de Arc, sem outra fortuna além de si própria. Teve a força e a genica necessária para reunir os franceses e quase quase vencer a guerra contra os ingleses. Uma daquelas guerras antigas e longas. Uma guerra de cem anos. Quando falava soprava vento e quando levantava a espada sentia—se o furacão do seu querer. Corações e cabeças tombaram de paixão e desejo pela Joana. A Joana quase—menina, virou a Joana quase—mulher. Mulher, jovem, bonita, carismática e inteligente, combinação perfeita para lhe estragar a vida! Meio caminho andado para a fogueira dos donos do mundo. O resto do caminho fez a galope no seu cavalo. Julgaram—na por bruxa. Não se sabe se era, se não era. Dizem que as há. Depressa a condenaram e mais depressa executaram a sentença. O fogo que a matou aqueceu uma multidão de basbaques e satisfaz o perverso desejo de morte de nobres e padres. Acenderam a chama que em Ruão. Ainda lá está o túmulo para confirmar que o que conto não é mentira. Depois, em cima das suas cinzas frias, acumulando opressão com humilhação fizeram da Joana Santa. Santa católica para rezar nas missas e pedir milagres. Não contentes, sempre os mesmos donos do mundo, trataram de amassar as suas cinzas e fazer do que sobrou um Símbolo Nacional e o patriarcado compensou a impotência de séculos com estandartes em seu nome Sempre que arde uma igreja, não resisto a imaginar a Joana, descida do seu cavalo e de túnica arregaçada, a brincar com fósforos para ajustar contas antigas. Que me perdoem os mais católicos.

Juliette do olhar fodido

Não esquecemos nada. Habituamo-nos. É tudo. A Juliette Gréco é uma preciosidade da colheita de 27. O pai era corso e mãe francesa. Uma casta destas teve de ser criada em Bordeus, onde passou os seus primeiros anos de vida, com o resto da família alargada. De natureza tímida e reservada manteve sempre aquele olhar de quem não pode, nem quer, dizer tudo o que sente e sabe. Um olhar fodido que lhe saiu caro. Até aos treze anos as coisas corriam-lhe bem, era feliz e nem sabia. Depois em trinta e nove chegaram os lobos nazis. A mão de Juliete, mulher de cepa retorcida, liderava a célula comunista da Resistência lá da zona. E já sabemos que esse anos do governo de Vichy e saudações de mãozinhas esticadas, não foram anos bons para os resistentes franceses. E anos particularmente maus para os comunistas. Em 1943 a mãe da Juliete é presa pela Gestapo juntamente com as filhas. Vem embaladas num carro celular para conhecerem Paris. Lamentavelmente para elas, os policias nazis, levam-nas directamente para sede da Gestapo e nem cheiram o ar das ruas. São as três submetidas a tortura. Em conjunto e separadas. Repetidamente. Juliette, tem 16 anos e a irmã tem 18. A mais nova das três mulheres, a que viria a ser cantora, fica mais de mês nas caves dos nazis. É usada sobretudo para pressionar a mãe. Quando os policias arianos acharam que não tem mais nada a arrancar às três mulheres, decidem esquecer-se delas nas celas e não lhes dão comida nem agua. Por capricho, por acaso, por sorte ou por fastio dos carcereiros, é libertada. Acontece numa noite igual às outras, quando lhe dizem mais uma vez que a vão fuzilar. A mãe e a irmã permanecem na prisão da Gestapo. Sai assustada e sozinha paras ruas desoladas de uma Paris ocupada, cinzenta, suja e fria. É uma professora reformada compulsivamente pelas suas simpatias de esquerda, que a recolhe e lhe dá um tecto no bairro de Saint-Germain-des-Prés. Tem um palmo de cara, canta bem, leu todos os poetas e não tem jeito para trabalhar: torna-se artista. Guerra acabada e derrotado o nazismo, sem ainda ter feito os vinte anos, estreia-se como actriz numa peça de Roger Vitrac. Conhece o Sartre, que a apresenta ao Camus, e ao Boris Vian. Está lançada. Apesar do sucesso, mantém a natureza tímida e aquele olhar fodido de quem não fala. É cortejada à vez e gosta de ser assim mimada e bem tratada. A intelectualidade da rive gauche canonizou-a no altar dos cafés. A sua postura de diva discreta e o olhar fodido, fez dela a musa eterna dos existencialistas. Diz a Juliette que não esquecemos nada. Que nos habituamos. E é tudo. Eu acredito.

Solidão partilhada

A Vanda vive com o fantasma de uma velhinha. Moram as duas no setimo direito. Começou a ver a velhinha uns meses depois de se ter separado. Enquanto casada, a angustia das da ausencia do marido e os ciumes com que ardia, nao adeixavam ver mais nada. Depois do Paulo sair de casa, começou a ve-la. Passou a ter mais tempo para olhar por ela, para ela e para as coisas á volta. A velhinha apareceu numa noite de terça-feira, depois adormecer no sofa. A Vanda acordou sobressantalda e com frio, levantou-se e foi para a cama. Foi ai que lhe percebeu a silhueta recortada na porta da cozinha, parecia parada atrás de uma especie de mesa de ferro sem tampo. Não teve medo. Para dizer a verdade, nem pensou no assunto, caiu na cama e continuou a dormir e a sonhar com o ex-marido. Só na manhã a seguinte se deu conta que a velha não foi sonho.Viu-a. Ao final da tarde, nesse dia, a fazer o jantar na cozinha e a pensar na silhueta, ouviu os passos leves ponteados por uma especie de bengala e sentiu uma presença a atravessar a sala. Devo estar a ficar maluca. Estava. Afinal de contas, estamos todos. Nessa noite, a Vanda foi sentar-se a comer a sopa detox adelgacante que bimby cozinhou. Sentou-se no sofa da sala e fugiu ao mundo nos episodios sucessivos de policias fortes, lindos, inteligentes e americanos. O fantasma da velha pairou-lhe na mente mais uns dias. Umas semanas depois, dessa vez, bem acordada, num sabado de manha, enquato aspirava o chão da sala, viu-a bem. Inteirinha, nem esfumada nem nada. A imagem completa, refletida no espelho em frente à porta da rua. Era enrugada, magra e pequenina. Tinha o cabelo encaracolado branco e marcas nos braços de quem passou muito tempo a soro. Um vestido leve tipo bata clara com flores azuis e um andarilho de aluminio à frente. Viu-a por um instante. Mas viu bem. Curiosamente não se assustou. Continuou a aspirar. Depois comeu uma sandes de queijo fresco e foi tomar banho. À tarde contou à sua amiga Rita, que faz reiki e é assim meio espiritual. Caraças, pá miuda, temos de ver o que é isso e quem é essa velha!!! A Rita ficou entusiamada e marcaram logo uma “sessão energetica” para essa noite. Inclusive a Rita, até desmarcou um jantar que tinha com um mais-ou-menos namorado. Ligaram à Maria João, uma amiga da Rita que é mais graduada no Reiki e nos anos de solteira. Jantarm as tres frango assado e nem beberam o vinho verde que gostam porque a João, disse que o espirito podia ficar ofendido. Sentaram-se a volta da mesa da sala, acenderam umas velinhas redondas de por dentro de copos (eram as unicas que tinham), apagaram a telivião e deram as mãos à volta da mesa. A João presidia a cerimonia com uma voz profunda. –Espirito que aqui vives nesta casa, por favor apresenta-se aos teus irmãos vivos e da-nos um sinal. (Pausa) Espirito que aqui veves nesta casa, por favor apresenta-se aos teus irmãos vivos e da-nos um sinal. Nada.Nem vozes, nem corrente de ar, nem velas a apagar. Nada. Apenas um silencio frio e desconfortavel. A João voltou a repetir o apelo, um apelo sério...como aqueles dos carros mal estacionados nas caves dos hipermercados... mas em tom mais lento e pesado. E um esprito timido, as vezes acontece, sobretdo se são mulheres.... Na cozinha, um copo cometeu suicidio lancçando-se para o chao, do alto do escorredor onde estava deitado acabado de lavar e à espera de secar.. Um copo grande de agua com riscas amarelas. Vidro grosso. Gritaram as tres o susto. A João sorriu conhecedora e a Rita ficou arrepiada. A Vanda foi a correr acender as luzes e varer chão da cozinha. Acabou-se logo ali a sessão. Decidiram sair. Foram a um bar ouvir musica brasileira e beber umas caipirinhas que custaram os-olhos-da-cara-mas-um-dia-não-são-dias. A Vanda nessa noite acabou por ir dormir a casa da Rita que ficou impropria para conduzir. Depois da sessão e do copo a partir-se, a velhinha começou a aparecer mais vezes. Passou a ser uma presença quase la em casa. A vanda foi-se habituando ao perfume madeiras do oriente. Passaram-se meses desde que o copo caiu do escorredor. Uma tarde destas, cruzou-se com a João na rua. – Vanda, temos que fazer outra sessãozinha la em tua casa, mas desta vez, levo uma defumação, para expulsar o espirito... A vanda indignou-se! – Expulsar?? Nem pensar nisso, faz-me mais companhia que o meu ex e dá menos trabalho que um gato, não preciso de lhe andar a ver as mesagens do telemovel nem de lhe mudar a areia da caixa!!!!

Fotografias da Loura

A loura Norma Jean, nasceu em Los Angeles em 1926. Passou a infância em orfanatos e lares adotivos onde o padrão de abuso e fuga se foi sucedendo dos doze aos quinze anos. Com dezasseis casou—se pela primeira vez e foi trabalhar numa fábrica de material de guerra. O marido gostava mais de copos do que dela e por isso separa—se com dezanove. É então que se envolve com um fotógrafo que a convence a fazer algumas sessões de fotografia. Faz muitas fotografias. Fotos de moda, artísticas, com roupa, sem roupa, em estúdio, ao ar livre, em casa... centenas de fotos. Depois envia para agências e algumas vezes é chamada para fazer mais fotos. Mantém o trabalho para pagar a renda e as sopas de tomate enlatadas que eram a base da sua alimentação. Ainda a trabalhar na fábrica, começa a ir a castings para filmes. Em 47 chegam os primeiros trabalhos para cinema, ainda pequenos papéis. Os papéis vão crescendo à medida que o talento vai sendo reconhecido e os manda—chuva dos estúdios reparam nela. Muda de nome para Marilyn Monroe e continua a crescer. No início dos anos 50 é já uma das mais novas e brilhantes estrelas no universo de Hollywood. Em 1953 o jovem Hugh Marston Hefner cria uma revista com fotografias de mulheres nuas a que chama PlayBoy e prepara o primeiro número para sair em Dezembro. Procura fotógrafos e modelos dispostas a pousar para a sua publicação. É então que lhe aparece um tipo a vender—lhe umas fotografias inéditas da vedeta de Hollywood Marilyn Monroe, tiradas uns cinco anos antes...As fotografias dizem que a modelo se chama Norma Jean... Mas vê—se bem que é ela. O fotógrafo pedia uma fortuna pelas imagens, mas o Hefner, que de parvo não tinha nada, arranjou—se como pode e pagou o dinheiro que lhe pediram até ao último cêntimo garantindo a exclusividade. Claro que não é preciso de dizer que a revista foi um êxito total. O escândalo associado às fotos da Marilyn promoveu ainda mais a PlayBoy. Os patrões dos estúdios para quem a Marilyn trabalhava quiseram processar a revista e sacar ao Hugh Hefner "tudo tudo o que tivesse até ao último tostão". Os advogados esfregavam as mãozinhas sapudas de contar dinheiro. Nos jornais os editores e directores preparavam—se para uma cobertura sangrenta. Mandaram jornalistas e paparazzi, voarem a direito, guiados pelo cheiro do sangue e da carne. Assim que a jovem Marilyn saiu à rua, caíram—lhe em cima com flashs e perguntas venenosas. A moça, superiormente inteligente, naquela voz entre o o ingênua e a cama arrasou: — Processar a Playboy? Porquê? Não acham que fiquei bem nas fotografias? Sou uma trabalhadora, e quando fiz aquele trabalho fui paga para o fazer, e bem paga, adianto que ganhei mais naquela tarde de fotografias do que o que me pagavam por uma semana na fábrica! O escândalo morreu ali.